NATO reúne-se de emergência para discutir papel da Rússia na Ucrânia

Responsáveis da NATO vão reunir-se de emergência para discutir a situação na Ucrânia. A Aliança diz que há mais de mil soldados russos a lutar ao lado dos separatistas e divulgou imagens de satélite que mostram blindados do exército de Moscovo no interior da Ucrânia. O Kremlin continua a negar qualquer envolvimento na guerra na Ucrânia, mas a ocidente crescem as críticas e acusações ao papel de Moscovo. Na noite de quinta-feira o Presidente norte-americano, Barack Obama, responsabilizou diretamente a Rússia pela escalada do conflito, abstendo-se no entanto de utilizar a palavra “invasão”.

RTP /
Olivier Hoslet, EPA

“Não há dúvidas de que este não é um conflito nascido e desenvolvido no leste da Ucrânia. Os separatistas são treinados pela Rússia, são armados pela Rússia e financiados pela Rússia”, disse Obama.

Foto: Larry Downing, Reuters
Ocidente tenta articular repostas
O Presidente dos EUA voltou, uma vez mais, a afirmar que o apoio de Moscovo aos rebeldes terá “custos e consequências”. Obama deve discutir a crise com os líderes europeus numa cimeira da NATO que se realiza na próxima semana no Reino Unido.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia também estão a deliberar qual a resposta a dar, por entre apelos crescentes de um apertar das sanções à Rússia. A discussão dos chefes das diplomacias destina-se a preparar possíveis medidas adicionais que podem ser anunciadas este sábado no Conselho Europeu, em Bruxelas.

A NATO realiza entretanto esta sexta-feira uma reunião de emergência com a Ucrânia para analisar e trocar informações sobre os últimos desenvolvimentos no leste do país.

A reunião realiza-se a pedido do Governo ucraniano e sob os auspícios do Conselho NATO-Ucrânia, que de há muito constitui um dos veículos de cooperação entre a Aliança Atlântica e a antiga república soviética.
Tanques e artilharia russa na Ucrânia
Na quinta-feira a NATO divulgou fotografias de satélite que mostram colunas de tanques, blindados e artilharia móvel russa em operações no interior da Ucrânia.

Foto: NATO, Digitalglobe, Epa
O General Niko Tak disse na ocasião que a aliança estima que existam pelo menos mil soldados russos a operar no interior da Ucrânia, tanto a apoiar os separatistas como a lutar ao lado deles.

Foto: Yves Herman, Reuters

Em Declarações à BBC, o general disse que se tem assistido a “uma escalada significativa no nível e na sofisticação da interferência dos militares russos na Ucrânia”. Ao longo das últimas semanas.
Rússia fala de conjeturas
Numa reunião do Conselho de Segurança da ONU que se realizou ontem a pedido da Lituânia, a embaixadora dos EUA, Samantha Power, disse que a Rússia tinha “mentido descaradamente” acerca do seu papel.

Na ocasião, o embaixador russo Vitaly Churkin não respondeu diretamente às acusações dos ocidentais, mas reconheceu: “Existem voluntários russos no leste da Ucrânia. Ninguém está a esconder isso”.

Foto:Mark Garten, Reuters
Churkin também atacou o Governo ucraniano, que acusou de “travar uma guerra contra o seu o próprio povo” e questionou a presença de conselheiros ocidentais na Ucrânia, perguntando de onde é que as tropas ucranianas estão a receber as suas armas.

Já esta manhã o ministro russo dos Negócios Estrangeiros voltou a colocar em dúvida as afirmações dos países ocidentais sobre a presença de tropas russas do exército regular no teatro de operações ucraniano.

“Estamos a ouvir várias conjeturas, e não é a primeira vez, mas nem uma só vez nos foram apresentados quaisquer factos concretos”, disse
Serguei Lavrov numa conferência de imprensa em Moscovo.
Ucrânia vai tentar aderir à NATO
O Governo ucraniano acusa a Rússia de ter lançado uma invasão em larga escala e ordenou a mobilização geral.

Foto: Maria Tsvetkova, Reuters

Kiev apelou diretamente à NATO e à União Europeia para que forneçam ajuda concreta à Ucrânia para fazer face à agressão russa.

Hoje mesmo o primeiro-ministro Arseny Yatseniuk afirmou que o seu Governo vai pedir ao Parlamento que a Ucrânia abandone o estatuto de país não alinhado e se posicione no caminho de uma futura adesão à NATO.
Putin, o “humanitário”
Entretanto, os rebeldes pró-russos disseram que estão dispostos a aceder a um pedido do Presidente Vladimir Putin e a abrir um “corredor humanitário” para permitir a retirada das tropas ucranianas que cercaram na bem-sucedida contraofensiva dos últimos dias.

Foto: Maxim Shemetov, Reuters

O apelo de Putin foi feito ontem à noite numa declaração divulgada pelo Kremlin.

Foto:Alexander Zemlianichenko, Epa
“Parece claro que a rebelião obteve alguns sucessos importantes no que respeita a deter a operação armada de Kiev”, lê-se na declaração. Putin acrescenta: “Apelo às milícias para que abram um corredor humanitário para os soldados ucranianos cercados, para evitar que haja vítimas desnecessárias , permitindo-lhes abandonar a área de combates sem impedimento, juntarem-se às suas famílias (…) fornecer ajuda médica urgente aos que ficaram feridos em consequência da operação militar”.
Rebeldes dizem "sim" a Moscovo
Poucas horas depois, Alexander Zakarchenko, líder da principal corrente rebelde do leste da Ucrânia, disse a uma cadeia de TV russa que as suas forças estão dispostas a fazer a vontade ao presidente russo.

Foto: Maxim Shemetov, Reuters

“Com todo o nosso respeito a Vladimir Vladimirovich Putin, o Presidente do país que nos dá apoio moral, estamos prontos a abrir corredores humanitários para as tropas ucranianas que foram cercadas, com a condição de que elas entreguem o seu armamento pesado e as munições, para que não sejam usadas contra nós no futuro”, disse Zakharchenko ao canal Rossiya 24.
Intenções do Kremlin
Os analistas acreditam que a intervenção direta de tropas russas no conflito ucraniano se destina a quebrar o ímpeto da ofensiva governamental, que nos últimos meses tinha conseguido colocar os rebeldes à beira da derrota. Putin estaria a fazer subir o conflito de intensidade, para poder depois apresentar-se como um mediador para a paz nos termos que mais convierem ao Kremlin.

A abertura de uma segunda frente a sul, longe do território dominado pelas repúblicas separatistas de Lugansk e Donetesk, e a intenção declarada dos rebeldes de "libertar" o porto estratégico de Mariupol,  pode também destinar-se a conquistar para a Rússia o domínio de uma faixa territorial costeira, de forma a garantir uma ligação por terra da península da Crimeia ao território da Federação Russa .Uma ligação que no presente apenas se pode fazer por via marítima.



Como benefício adicional, a Rússia passaria direta ou indiretamente a controlar toda a costa do mar de Azov, e os recursos minerais submersos da região, privando a Ucrânia de mais estes territórios. O corolário da anexação da Crimeia que Moscovo levou a cabo meses atrás.
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