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Naufrágio em Pylos. Sobreviventes acusam autoridades gregas de intimidação
"Eles amarraram uma corda pela esquerda. Fomos todos para o lado direito do nosso barco para equilibrá-lo". Este é o relato de dois dos sobreviventes do naufrágio de 14 de junho, no Mediterrâneo, recolhido pela BBC. Testemunham como foram silenciados e intimidados pelas autoridades gregas, após terem sugerido que a guarda costeira teria responsabilidades na tragédia.
Quase um mês após o naufrágio fatal em Pylos, aumentam as dúvidas sobre a versão oficial e o escrutínio sobre a forma como as autoridades gregas lidaram com o caso.
Uma entrevista da BBC a dois migrantes – com identidade protegida – revela novos dados que levantam questões sobre a atuação das autoridades gregas.
"Eles (a guarda costeira) amarraram uma corda pela esquerda. Fomos todos para o lado direito do nosso barco para equilibrá-lo", disse um dos sobreviventes. "A embarcação grega afastou-se rapidamente, fazendo com que nosso barco virasse. Eles continuaram a arrastá-lo durante uma boa distância”.
"Eles (a guarda costeira) amarraram uma corda pela esquerda. Fomos todos para o lado direito do nosso barco para equilibrá-lo", disse um dos sobreviventes. "A embarcação grega afastou-se rapidamente, fazendo com que nosso barco virasse. Eles continuaram a arrastá-lo durante uma boa distância”.
Estes dois homens detalham que passaram duas horas dentro de água até serem resgatados, acrescentando que tinham um relógio de pulso a funcionar por isso permitiu-lhes conferir o tempo.
"Calar a boca"
Já em terra, em Kalamata, os entrevistados garantem à BBC que a guarda costeira disse aos sobreviventes para "calar a boca", quando surgiram conversas sobre como as autoridades gregas causaram o desastre.
Acrescentou também que houve instruções para “agradecerem por não terem morrido”.
Entre gritos, elementos da guarda costeira terão intimidado os migrantes, dizendo: "Tu sobreviveste à morte. Pára de falar sobre o incidente. Não faças mais perguntas".
Estes sobreviventes pagaram o equivalente a 3.480 euros por uma vaga no barco. O irmão mais novo de um deles continua desaparecido, assim como mais meio milhar de pessoas.
Guarda Costeira da Grécia via Reuters
O arrastão de pesca transportava migrantes da Líbia para Itália e afundou-se ao largo da Grécia com mais de 700 pessoas a bordo. Sobreviveram 104. Estão registadas perto de uma centena de mortes.
Os dois homens descreveram como a guarda costeira os pressionou para identificar nove egípcios a bordo como traficantes. E sublinham que agora têm medo de falar publicamente porque temem que também sejam acusados como os egípcios.
"Se houvesse um sistema justo, nós contribuiríamos para este caso", rematam.
Avançam que os egípcios poderão ter sido “presos e acusados injustamente pelas autoridades gregas na tentativa de encobrir seu crime”.
Caso semelhante: encontrar culpados
Farzin Khavand, cidadão britânico que fala persa, mora em Kalamata há 20 anos e ofereceu os seus serviços como intérprete às autoridades gregas num naufrágio no ano passado onde foram resgados 32 pessoas, 28 afegãos e quatro iranianos.
Neste caso, Khavand afirma que os iranianos foram acusados de serem traficantes, mas essa informação não surgiu nos testemunhos dos sobreviventes que ele traduziu. O que na realidade os migrantes lhe contaram foi “que o motorista do barco os tinha abandonado e que todos estavam a tentar controlar o barco para que não afundasse”.
O tradutor transmitiu às autoridades portuárias o que os resgatados lhe contaram, mas acrescenta que, ao ver as atas, reparou que os depoimentos dos afegãos tinham sido mudados, apontando então os iranianos como traficantes.
Khavand acrescenta que os iranianos lhe contaram que alguns dos passageiros afegãos foram pressionados pela guarda costeira a nomeá-los como traficantes de pessoas – para evitar serem tratados “desconfortavelmente”, ameaçados de prisão e “devolvidos aos taliban”.