Nazca, o gato e os amigos com 2000 anos

por RTP
Gato de 37 metros desenhado há 2000 anos Ministério da Cultura do Perú - EPA

Um gato com 37 metros de comprido é novo geoglifo descoberto no deserto de Nazca, no Perú.

A figura zoomórfica de um gato a descansar resistiu à erosão do deserto de Nazca durante cerca 2000 anos. Uma elevação arenosa em Pampa de Nazca revelou esta figura felina de 37 metros de comprimento que se junta a 70 imagens de animais já localizados na região.
“A figura estava prestes a desaparecer pois está localizada numa encosta e tem sofrido os efeitos da erosão natural” explicou o Ministério da Cultura do Perú em comunicado.
Johny Isla, o arqueólogo do Parque das Linhas de Nazca explica que a produção do desenho deste gato é atribuída ao final da cultura Paracas. O intervalo cronológico associado vai de 500 a.C. a 200 d.C..
É precedido por comunidades que desenvolveram a cultura de Nazca que desenharam, até cerca do ano de 700 da nossa era, a maioria dos geoglifos conhecidos.
Isla acrescenta , “Sabemos isso por comparação de iconografias. As decorações dos tecidos da era Paracas, por exemplo, são desenhos de pássaros, gatos e pessoas e tem um traço compatível com estes geoglifos”, citado na BBC.
O desenho do gato foi encontrado durante trabalhos de melhoramento de percursos para observação dos monumentos, no início de 2020. A figura foi limpa e conservada. As linhas do contorno variam entre 30 a 40 centímetros de largura.
O que são geoglifos?
O solo do deserto é coberto por rochas oxidadas e tem um tom de ferrugem. Por baixo, a camada geológica é composta por areias de cor clara. Os homens e mulheres que marcaram o chão terão percebido que, ao tirarem as rochas, era criado um contraste visual. Os cientistas acreditam que as linhas foram então desenhadas criando um traço negativo com a remoção das pedras escuras revelando o claro da areia. A pouca chuva no deserto ajudou a perpetuar o contraste da mensagem.

E que mensagens esses povos deixaram?

O estudo das linhas intensificou-se em 1927, com Toribio Mejia Xesspe, arqueólogo peruano, mas só ganhou dimensão pública na década de trinta quando as figuras foram registadas a partir do ar, em voos sobre o território.

Em meados do século XX várias interpretações foram feitas por investigadores. Paul Kosov e Maria Reiche defenderam que os desenhos teriam alinhamentos relacionados com a astronomia, mas Johan Reinhard apresentou uma nova perspectiva, o ritual.
Seria a água, ou a falta dela que impulsionaria os trabalhos dos gigantescos monumentos no deserto. Para Reinhard, os desenhos tinham uma carga simbólico-religiosa. As aranhas seriam sinal de chuva, os macacos estariam associados a existência de água e os beija-flores à fertilidade.

Os 300 padrões geométricos, as mais de 800 retas e 7 dezenas de impressões zoomórficas estão classificados como Património da Humanidade pela UNESCO desde 1994.
As Linhas de Nazca cobrem cerca de 450 quilómetros quadrados da planície costeira peruana .
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