No bairro Dangereux de Luanda a luta é contra a cólera que já matou cinco pessoas

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A população do bairro Dangereux, arredores de Luanda, luta por estes dias contra a propagação da cólera, que ali já matou pelo menos cinco pessoas, por entre receios e sem água potável, latrinas ou saneamento.

Só desde 23 de junho, o surto da doença já levou, em Luanda, ao aumento exponencial de casos de diarreia aguda, de pelo menos 20, acompanhados de vómitos, elevando a cinco o número de óbitos, três das quais da mesma família, todas no bairro Dangereux, no município de Talatona.

Numa altura de dúvidas e incerteza no bairro, que herdou o nome de um histórico comandante militar do MPLA, os familiares das vítimas contara à Lusa o drama da perda de três membros da mesma família e questionam a origem da doença que atingiu a residência.

Maria António, de 58 anos, perdeu um filho e duas sobrinhas em consequência da cólera, e algumas semanas depois ainda não percebe como a tragédia aconteceu.

"Não adoeceu, eram apenas vómitos e diarreia. Dia seguinte, ainda no óbito deste meu filho, a minha sobrinha também sentiu-se mal, levamos ela ao hospital e dois dias depois foi evacuada para o hospital geral onde faleceu nas mesmas circunstâncias", contou.

Sem água potável e latrinas pouco convencionais, grande parte dos moradores do bairro Dangereux dependem de água fornecidas por cisternas, para o seu uso diário, até porque os chafarizes instalados na zona, dizem, não funcionam.

Além disso, o bairro carece de contentores para o depósito do lixo, sendo que os moradores se servem de uma vala de águas residuais que circunda o bairro para colocar os resíduos diários.

Angola já viveu no últimos anos surtos graves de febre-amarela e malária.

A propagação da cólera está associada à deficiência no tratamento de esgotos e da água para consumo humano.

A qualidade da água utilizada é questionada por Maria António, desolada pela perda dos três membros da família: "É mesmo a cólera que lhes vitimou, mas a água que nós consumimos é a mesma água que os vizinhos consomem e não percebemos como é que as outras casas não ficaram afetadas, mas apenas aqui foi afetada".

Maria Alfredo, de 42 anos, agora viúva, explicou à Lusa que perdeu o marido em apenas uma semana, desde o início dos sintomas.

"Foram dores de barriga, diarreia e vómitos que o afligiam e mesmo depois dos primeiros socorros ele não resistiu, morreu aqui em casa. Depois do seu funeral, uma prima igualmente foi afetada pela doença e faleceu e mesma situação aconteceu com a outra prima", explicou ainda.

De acordo com Maria Alfredo, apenas o seu quintal, onde vive com a sogra, ficou afetada pelo surto. "Se a água tinha vírus ou não sabemos", atirou, admitindo desconhecer os contornos da propagação da doença.

Preocupado com o atual quadro no bairro, Agostinho Marques, estudante de 18 anos, lamenta a situação "sombria" que se vive na zona, recordando que são as próprias crianças que "se servem do lixo como fonte de sustento".

"Comem aquilo que encontram e traz depois muitas doenças. E inclusive tem crianças também que tomam banho nesta vala e isso é muito complicado", lamentou o estudante.

Segundo aquele morador, devido ao surto de cólera que vitimou os vizinhos, uma equipa de médicos visitou o bairro, transmitindo "orientações".

"Mas não temos qualquer contentor para o lixo, por isso todo o mundo deita mesmo o lixo aqui na vala. A água que consumimos é dos tanques e não sabemos qual a sua origem", atirou.

As autoridades de saúde em Luanda confirmaram que as vítimas foram assoladas pelo surto da cólera, após análises laboratoriais à água e fezes colhidas no local do óbito.

Para a Organização Mundial da Saúde, a existência de um único caso confirmado laboratorialmente é suficiente para a declaração de uma epidemia.

Contactada pela Lusa, a Comissão Intersetorial de Combate à Malária e Cólera reservou para os próximos dias uma nova atualização do número de casos de cólera em Luanda.

Além da capital angolana, desde dezembro já se viveram epidemias de cólera nas províncias de Cabinda e do Uíge.

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