Norte-americano executado apesar das "muitas dúvidas"

Troy Davis, o prisioneiro do corredor da morte que congregou a comunidade internacional em torno da sua luta, foi executado às onze da noite nos Estados Unidos, quatro horas após o que estava previsto. Com forte apoio de várias personalidades, Davis sustentou até ao último momento a sua inocência: "Eu nem tinha uma arma".

RTP /
Sete testemunhas em nove retrataram-se do depoimento que levou à condenação, mas isso não foi suficiente para a justiça dos EUA Amnistia Internacional

À última hora o Supremo Tribunal dava ontem a ordem para a penitenciária de Jackson, suspendendo temporariamente a execução, enquanto analisava um último apelo submetido minutos antes pela defesa do condenado.

Este apelo foi submetido pelos advogados de Troy Davis depois de as autoridades terem recusado um indulto. Após quatro horas de análise do processo, o Supremo Tribunal norte-americano acabaria por negar o pedido, dando luz verde à cadeia Jackson, na Geórgia, para que fosse colocada em marcha a execução deste negro norte-americano de 42 anos, há mais de 20 no corredor da morte pelo homicídio de um polícia: os procedimentos tiveram início às 22H53 e Davis foi declarado morto às 23H08 (hora local).

Durante a tarde Davis vira rejeitado o último pedido de clemência enviado ao comité de indultos da Geórgia. Confrontando-se com a Justiça americana há duas décadas, Davis gerou um movimento mundial que – de acordo com uma familiar – ultrapassa a sua própria dimensão: “Há pessoas a dizer ‘Eu sou Troy Davis’ em línguas que ele não conhece”. Davis foi condenado à morte por ter matado um polícia em 1989, tese apoiada então por nove testemunhas. Mais tarde, sete destas nove testemunhas recuaram nesta versão dos acontecimentos

Tomado como o exemplo acabado do negro injustamente condenado pela morte de um polícia branco, Davis tornou-se uma causa internacional que contou com o ex-Presidente norte-americano Jimmy Carter, o Papa Bento XVI, a União Europeia, um antigo diretor do FBI e personalidades um pouco por todo o mundo.

O caso de Troy Davis levantou muitas dúvidas aos intervenientes no processo, incluindo elementos do júri que o condenaram à morte, por alegada inconsistência das provas apresentadas em tribunal.

Os apoiantes de Davis alegam que o processo está repleto de vícios e de incertezas, mas esse foi um argumento que não colheu perante as autoridades, anteriormente, e perante os Supremo Tribunal, esta noite.

Execução marcada pela quarta vez
Foi a quarta data marcada para Troy Davis morrer. Este condenado já tinha evitado a execução em três ocasiões desde 2007. Em 2008, o Supremo suspendeu temporariamente a execução, marcando uma audição para 2009, na qual deveriam ser apresentadas provas da sua inocência, o que não veio a acontecer, de acordo com um juiz federal.

Ontem, o comité de indultos do Estado da Geórgia declarava no final da reunião onde foi analisado o pedido de indulto que, “considerada a totalidade da informação apresentada relativa a este caso, e depois de profunda deliberação, a decisão foi de negar clemência”.

Inconsistência e testemunhas com dúvidas
Na noite de 19 de agosto de 1989, o agente da polícia Mark MacPhail, de 27 anos, apesar de fora de serviço, intervinha numa zaragata num parque de estacionamento para impedir a agressão a um sem-abrigo, quando foi fatalmente atingido no coração e na cabeça. Os agressores eram Davis e um companheiro. A arma do crime nunca foi encontrada e não foi registada qualquer impressão digital ou vestígio de ADN na cena do crime; desde que Troy Davis foi condenado, sete das nove testemunhas retrataram-se dos depoimentos iniciais, alegando coerção e intimidação por parte da polícia

Sem provas concretas que o ligassem aos disparos, Troy Davis seria condenado em 1991 com base nos testemunhos de testemunhas que presenciaram a cena de violência que naquela noite tomou conta do parque de estacionamento do Burger King de Savannah.

Grande parte das testemunhas que ajudaram a condenar Davis à pena capital acabariam por alterar a sua versão dos factos, enquanto outras, não chamadas a depor, garantem que o outro homem na cena do tiroteio admitiu ser o autor dos disparos fatais.

Família do polícia insiste na culpa de Davis
Quem aguardava há vários anos o cumprimento da sentença de 1991 era a família de Mark MacPhail. A viúva do agente que naquela noite de 1989 agiu com inusitado heroísmo em favor de um sem-abrigo chegou mesmo a considerar de absurdo que Troy Davis tenha sido apresentado como uma vítima do sistema: “Nós somos as verdadeiras vítimas aqui”, afirmou ainda ontem, enquanto dava a indicação de que iria fechar o ciclo assistindo à execução com os dois filhos.
 De acordo com as suas palavras, esta seria a única forma de ter paz.À execução podem assistir os familiares das vítimas, o que já não acontece com os familiares dos condenados
E foi para a família do agente MacPhail que Troy Davis, já deitado na maca onde receberia a injeção letal, teve as últimas palavras. De acordo com o seu advogado, Davis levantou a cabeça e olhando para os familiares do agente e disse-lhes: “Sou inocente”.

Nos seus últimos momentos terá explicado que lamentava o sofrimento por que estavam a passar mas que não era ele o responsável por essa situação.

As derradeiras palavras foram para os funcionários que lhe ministraram a injeção letal: “Que Deus tenha piedade das vossas almas”, afirmou Davis, depois de lhes dizer que estavam prestes a tirar a vida a um homem inocente.
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