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Nova vaga de 1,7 milhões de deslocados ameaça sobrevivência do Iraque

Nova vaga de 1,7 milhões de deslocados ameaça sobrevivência do Iraque

Casas de amigos e de familiares, igrejas e mesquitas, centros coletivos e escolas, até hotéis e motéis, edifícios abandonados, a própria rua. Acolhem quase dois milhões de pessoas que ficaram sem casa no Iraque, desde Janeiro de 2014, após fugir do EIIL em busca de auxílio e de refúgio. Mas a pressão sobre os locais que os receberam é tremenda.

Graça Andrade Ramos/Sara Piteira /
Deslocados da minoria Yazidi, fugitivos da violência na cidade de Sinjar, abrigados num edifício inacabado no sudoeste da província de Dohuk a 23 de agosto de 2014 Reuters

Sistemas sanitários, energéticos, alimentares, comerciais, de transportes e de comunicações, sobretudo em Dahuk e em Arbil, estão sobrelotados e ameaçam ruir. As ações armadas e as sabotagens provocam  quebras de fornecimento e racionamento de combustíveis e de água potável mas é a presença de quase um milhão de novos habitantes que agrava a pressão. Em Dahuk, no norte do Iraque, a cidade de Zahko, de 350.000 habitantes, recebeu um influxo de 100.000 pessoas. Mais deverão ser para ali deslocadas nas próximas semanas. O mesmo sucede em Arbil, que recebeu desde junho cerca de 600.000 pessoas, de acordo com a ONU.

Milhares de famílias, cristãs, xiitas e yazidis, fugiram desde junho, tanto da violência armada causada pelo avanço do grupo extremista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) como da resposta violenta de milícias locais, sunitas e xiitas. Muitas fugiram, duas, três, quatro vezes. Outras voltaram a pegar nas trouxas e a mudar de sítio para se reunirem à família dispersa, reencontrar vizinhos, abrigo, trabalho.

Esta vaga é a segunda de um ano marcado pela violência no Iraque. Desde janeiro, na província de Anbar, os combates entre o EIIL e grupos extremistas sunitas havia já feito fugir 600.000 pessoas. Mas a maioria ficou na mesma província.

Yazidis fogem em massa da cidade de Sinjar perante o avanço das tropas do EIIL, em agosto de 2014 (Foto: Reuters)
Movimentação constante
Para as agências humanitárias a crise iraquiana é um pesadelo logístico. A identificação dos locais onde as pessoas se refugiam e o registo das famílias decorre num cenário de constante mutação e ameaça de bloqueio. Talvez em setembro se consiga ter uma ideia do número de deslocados, só este ano, no país. Talvez nunca.O drama dos deslocados e refugiados no Iraque não é novidade. Entre 2006 e 2008 mais de 1,66 milhões de pessoas deslocaram-se no país por medo de violência sectária, sendo impossível saber se entretanto regressaram ou não a suas casas e em que condições, devido a falta de censos. O país acolhe ainda refugiados da Síria, da Palestina, do Irão e da Turquia.
Mas nunca, em apenas oito meses, a situação se tornou tão crítica.


A ACNUR, a agência da ONU para os refugiados, reviu esta semana em alta as suas projeções para o número de deslocados no Iraque, de 1,2 milhões de pessoas em julho, para 1,45 em agosto. A Organização Internacional de Migração (OIM), que recolhe dados também junto das autoridades locais e de grupos humanitários iraquianos, fala por seu lado em quase 1,7 milhões.

"Desde o final de dezembro de 2013, dezenas de milhares de famílias fugiram das suas casas no governo-geral de Anbar, onde combates entre grupo armados da oposição e as Forças Armadas Iraquianas desestabilizaram a área. No início de junho, à medida que o conflito se expandia, deu-se uma outra imensa vaga de deslocados, quando os grupos armados conquistaram a cidade de Mossul do governo-geral de Ninewa. (...) A ofensiva armada estendeu-se aos governos-gerais de Salah al-Din e Diyala e para sul, causando novos deslocados," resume um relatório da OIM.
Pressão sobre as comunidades
A OIM registou três grandes movimentos de fuga ao longo de 2014 no Iraque. Entre janeiro e maio, terão fugido 474,940 pessoas (crise de Anbar). Depois de junho, 836,670 abandonaram tudo, incluindo uma enorme vaga de 307,092 deslocados, retirados das montanhas de Sinjar. Um total de 1,668,306 Pessoas Deslocadas Internamente (PDI).

Cristãos iraquianos de Mossul deslocados esperam auxílio humanitário em Arbil, Curdistão, após a perseguição do EIIL (Foto: Reuters)Yazidis de Mossul deslocados na província do norte iraquiano de Dohuk, após avanço do EIIL, 22 agosto de 2014 (Foto Reuters)

A prioridade das agências humanitárias é abrigar os deslocados. Demasiadas pessoas estão a viver em condições sub-humanas. A maioria dos 600.000 deslocados em Arbil chegou em junho, fugindo de Mossul e das regiões circundantes, mas o número inclui 200.000 retirados do cerco nas montanhas de Sinjar, em agosto. "Não teremos números exatos antes do início de setembro, quando o registo ficar completo mas estimamos que centenas de milhares estejam a viver em edifícios inacabados, em mesquitas, em igrejas, em parques e em escolas", afirmou a 22 de agosto o porta-voz da ACNUR, Adrian Edwards em Genebra.

A ReliefWeb cita um relatório do Gabinete para os Assuntos Humanitários da ONU, de 15 de agosto, segundo o qual a maioria dos deslocados iraquianos em 2014 procurou refúgio com famílias de acolhimento (32%) e 20% alugaram alojamento.

Mas esta foi apenas a tendência dos deslocados até junho, os de Anbar, que procuraram manter-se na sua própria área de residência junto de vizinhos, amigos e família.

Pelo contrário, na fuga de junho e meses seguintes, e sobretudo entre as populações de Niniwa e de Salah al-Din, a tendência de ficar com famílias ou em casas alugadas é muito menos marcada. A maioria ficou em comunidades e em edifícios religiosos ou abandonados. Só 4% estão em campos.

Mas a pressão sobre as populações locais exige uma solução rápida. Estimativas oficiais apontam por exemplo para que 5,746 escolas sejam agora o lar de deslocados ou de militares, pondo em risco o início do ano escolar de 850.000 crianças no Curdistão, a 10 de setembro, acrescentou Edwards. As crianças são curdas mas também sírias e filhas de iraquianos deslocados. Mas o certo é que metade pelo menos dos 95,666 professores iraquianos está a ser afetada pela deslocação das populações.


Mais 12 campos
"Os campos são geralmente olhados como uma última alternativa, mas os deslocados iraquianos estão a ir para lá à mesma velocidade com se erguem as tendas - o que revela a dimensão da crise e a necessidade desesperada de abrigo", acrescentou Edwards.

Deslocados Yazidi refugiados na igreja de Margurgis em Dohuk, norte do Iraque, a 22 de agosto de 2014 (Foto:Reuters)Deslocados Yazidis no campo de Nowruz a 16 de agosto de 2014, no norte da Síria, que tem estado a ser abastecido com auxílio da ACNUR via Damasco (Foto: Reuters)Campo de Bajed Kadal na provincia iraquiana de Dohuk em 22 de agosto de 2014 (Foto: Reuters)

Atualmente, dois campos, o de Badjet Kandela no governo-geral de Duhok e o de Baharka em Arbil, acolhem 21.000 pessoas e estão a ser ampliados. Doze a 14 novos campos deverão abrir em breve, incluindo três em Sulaymaniyah, seis em Dohuk (dois quais Khanke e Zakho estão já em construção) e três em Arbil - após que existirá capacidade para alojar 85.000 pessoas. E outros locais para mais campos estão já a ser estudados.

O sul do Iraque está igualmente a ser preparado para receber deslocados do norte, sobretudo populações xiitas mas não só.

A deslocação para sul está a aumentar diariamente, com centenas de famílias de Ninewa a encaminharem-se para Najaf, Kerbala, Bassorá, Wassit e Missan. Milhares de pessoas estão deslocadas em áreas referidas como Áreas Fronteiriças Internas sob Disputa com serviços, comércio e sistemas de energia e de transporte a ser desestabilizados ou destruídos. E, tal como na Síria, muitas famílias estão a ser vítimas de extorsão e de ameaça de morte se não pagarem salvo-condutos a grupos armados locais.



A 11 de agosto as Nações Unidas declararam que a crise humanitária no Iraque atingira o nível 3, o mais grave da sua escala. A declaração abriu caminho a uma resposta conjunta das diversas agências da ONU, permitindo delinear estratégias e estabelecer prioridades. Entre elas um plano de distribuir 2,410 toneladas de ajuda em 10 dias, por terra, mar e ar. A operação começou a 20 de agosto e ainda decorre.

Avião com ajuda da ACNUR em Arbil, Curdistão iraquiano, com auxílio para 1,45 milhões de deslocados iraquianos. A operação da ACNUR durou 10 dias entre 20 e 30 de agosto de 2014 e distribuir 2,4 toneladas de ajuda (Foto:Reuters)
Registo, identificação e apoio psicológico
Além do abrigo, da alimentação e da água, as agências humanitárias enfrentam ainda a tarefa hercúlea de identificar as famílias e de providenciar novos papéis a centenas de milhares de pessoas que fugiram praticamente só com a roupa no corpo deixando para trás todos os seus documentos.A maioria dos deslocados é originária dos governos-gerais de Anbar, Ninewa e Salah al-Din.
Já os governos-gerais com maior número de deslocados são Anbar, Dahuk, Erbil, Kirkuk, Bagdade e Sulaymaniah, acolhendo mais de um milhão de pessoas em fuga.
A sua identificação é crucial para se poderem registar, obter assistência humanitária e deslocar-se livremente. Mesmo sem documentação, movimentam-se, dificultando ainda mais o trabalho das agências.


E depois há o problema do trauma e da angústia pelos entes queridos.

"Existe a necessidade urgente de reforçar os serviços de apoio psicológico aos deslocados, muitos dos quais estão profundamente traumatizados pela fuga repentina, pela morte de pessoas próximas, pela separação de famílias e relatos terríveis sobre o destino de outros que ficaram para trás e foram mortos ou capturados", lembrou Edwards.

Cristãos iraquianos refugiados em Beirute,Líbano, mostram  o seu passaporte para conseguir auxílio humanitário a 13 de agosto 2014 (Foto: Reuters)Cristãos iraquianos refugiados em Beirute, Líbano, mostram  o seu passaporte para conseguir auxílio humanitário a 13 de agosto 2014 (Foto: Reuters)

Um reino de terror agravado por rumores e boatos que circulam livremente muitas vezes alimentados pelo próprio EIIL. "As nossas equipas de proteção falam-nos de uma profusão de relatos sobre mulheres de Sinjar e de Mossul, de vários grupos minoritários, raptadas por vários grupos armados e detidas em múltiplos locais. Algumas têm sido forçadas a converter-se ao Islão e há relatos de outras a serem traficadas pelos grupos armados, dentro e fora do Iraque", diz Edwards.

Dar apoio de comunicações móveis tornou-se por isso uma outra prioridade das agências. Restaurar linhas de comunicação e providenciar e reforçar a capacidade de servidores de telecomunicações está a ser considerada uma área prioritária, para possibilitar às famílias contactarem, restabelecerem laços e saber do destino uns dos outros. Uma ajuda psicológica vital para quem perdeu tudo exceto a própria vida.
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