Nove detidos em França após a morte de estudante de extrema-direita

Nove detidos em França após a morte de estudante de extrema-direita

Nove pessoas foram detidas em França após uma investigação sobre o assassinato de um estudante nacionalista de extrema-direita por alegados militantes de extrema-esquerda.

Cristina Sambado - RTP /
Alain Jocard - AFP

Entre os detidos está um assessor parlamentar de um deputado do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI na sigla em francês). Outros seis são suspeitos de terem participado na violência e três de terem prestado apoio, avançou à AFP uma fonte próxima da investigação, acrescentando que poderão ocorrer outras detenções.

Quentin Deranque, um estudante de matemática de 23 anos, morreu no hospital no sábado, dois dias depois de ter sido espancado e pontapeado na cabeça por um grupo de jovens mascarados em Lyon.

Na segunda-feira, o procurador-geral Thierry Dran informou em conferência de imprensa que Deranque foi agredido com pontapés e socos por "pelo menos seis" indivíduos e que o exame post-mortem revelou danos fatais no seu crânio e cérebro. 

Descrito pela família como um "ativista pacífico", Deranque esteve envolvido no movimento radical de extrema-direita e em várias das suas fações.

Segundo os jornais franceses Le Figaro e Mediapart, participou numa marcha com cerca de mil ativistas de extrema-direita em Paris, no dia 10 de maio de 2025, alguns dos quais exibiam iconografia nazi.


O crime ocorreu após uma pequena manifestação de feministas de extrema-direita – que Deranque deveria estar a ajudar a proteger – no Instituto de Estudos Políticos (IEP) da cidade, conhecido como Sciences-Po.

Segundo a AFP, há vários anos que Lyon é conhecida como um refúgio para grupos de extrema-direita, vários dos quais já foram dissolvidos, e palco de frequentes confrontos com ativistas antifascistas.

As autoridades judiciais anunciaram ainda a abertura de dois inquéritos em Paris: um sobre uma concentração de cerca de meia centena de pessoas a fazerem saudações nazis e outro após a descoberta de cruzes suásticas e grafitis antissemitas na Praça da República, no centro da capital francesa.

O grupo de extrema-direita Némésis disse que Quentin Deranque foi atacado por “ativistas antifascistas” por integrar a equipa de segurança que o protegia durante um protesto contra uma conferência realizada por Rima Hassan, eurodeputada do França Insubmissa.

O Némésis indicou concretamente a organização La Jeune Garde (Jovem Guarda), dissolvida por decreto governamental em 2025.

Raphaël Arnault, fundador do extinto grupo de extrema-esquerda Jovem Guarda, declarou na terça-feira que iniciou um processo para rescindir o contrato de Jacques-Elie Favrot, que já suspendeu todas as suas atividades parlamentares.

"Cabe agora à investigação apurar as responsabilidades", acrescentou o deputado.
Esquerda radical pressionada A notícia mais chocante é que, entre os nove detidos, está Jacques-Elie Favrot, um jovem que trabalhava como assistente parlamentar na Assembleia Nacional em Paris para um deputado do França Insubmissa (LFI).

O assassinato está a exercer uma enorme pressão sobre o LFI, os seus 70 deputados e o seu veterano líder, Jean-Luc Mélenchon, provável candidato às eleições presidenciais do próximo ano, na sua terceira corrida ao Palácio do Eliseu.

No domingo, Mélenchon afirmou que o seu partido "não tem nada a ver com esta história. Aqueles que nos acusam estão a cometer difamação".

"Expressamos a nossa consternação, mas também a nossa empatia e compaixão pela família e amigos de [Deranque]. Já dissemos dezenas de vezes que nos opomos a todas as formas de violência", declarou.

Mélenchon pediu inicialmente a todos que "se esforçassem por manter a calma e a compostura". "Sem escalada", insistiu, dado que cerca de dez gabinetes parlamentares do seu partido França Insubmissa (LFI), tinham sido vandalizados.

Reiterou a sua oposição à violência na política, que, segundo ele, "diminui" a luta. "Na violência, seja defensiva ou ofensiva, nem todos os golpes são permitidos", acrescentou, referindo-se a vídeos que mostravam homens a serem espancados no chão.

Após esta declaração, o líder do LFI reafirmou que o partido "não teve nada a ver, direta ou indiretamente", com a tragédia de Lyon.


Jean-Luc Mélenchon acrescentou ainda que não aceita as lições" do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que pediu ao partido que "limpasse a casa", segundo a AFP.

Na terça-feira, o parlamento fez um minuto de silêncio, com a concordância de todos os grupos políticos, e no discurso aos deputados Lecornu pediu que "a verdade prevaleça nos tribunais", sem "qualquer pressão".

O ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, que no domingo culpou a extrema-esquerda pela morte do jovem, declarou que "a Jovem Guarda mata e a França Insubmissa deveria condená-la" em vez de a considerar "uma organização aliada".

"Não aceitamos que a violência física, seja qual for a sua origem, seja utilizada para resolver conflitos. Aqueles que estão a explorar esta tragédia para nos difamar devem parar", reagiu Mathilde Panot, líder parlamentar da LFI.

C/ Agências 
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