Novo atentado suicida no noroeste do Paquistão mata dezenas

A explosão de uma carga accionada por um bombista suicida em Yakaghund, uma localidade do noroeste do Paquistão, provocou esta sexta-feira pelo menos 47 vítimas mortais e mais de uma centena de feridos. O atentado teve lugar no distrito de Mohmand, um dos bastiões tribais encostados à linha de fronteira com o Afeganistão, onde proliferam as células da rede terrorista Al-Qaeda e grupos de combatentes estrangeiros.

RTP /
Dezenas de vítimas do atentado na região tribal de Mohmand foram transportadas para um hospital em Peshawar Arshad Arbab, EPA

"A explosão foi muito violenta. Vários edifícios e lojas perto do gabinete da administração caíram por terra". O relato é de um oficial do Exército paquistanês, cujas declarações são reproduzidas pela France Presse. Todas as testemunhas citadas pelas agências internacionais descrevem o mesmo cenário, numa reedição de anteriores acções terroristas no Paquistão: uma violenta explosão, seguida de fumo espesso, gritos e, nas palavras de Raj Wali, um paquistanês de 23 anos, "pedaços de corpos por todo o lado".

Cronologia de atentados desde 2007

19 de Julho de 2007: um triplo atentado no noroeste do Paquistão faz 54 motos, entre os quais mais de duas dezenas de efectivos do Exército e das forças de segurança.

18 de Outubro: um par de bombistas suicidas semeia a destruição em Carachi, no Sul do país; a explosão é accionada perto do automóvel que transporta a antiga primeira-ministra Benazir Bhutto, de regresso ao Paquistão após oito anos de exílio, e causa pelo menos 139 mortes.

27 de Dezembro: após um comício em Rawalpindi, nos arredores da capital Islamabad, Benazir Bhutto é assassinada num ataque suicida contra a sua viatura blindada; outras 20 pessoas morrem no atentado.

21 de Agosto de 2008: pelo menos 64 pessoas perdem as vidas num duplo atentado suicida diante da maior fábrica de armamento do Paquistão, em Wah, no noroeste.

20 de Setembro: um bombista suicida faz explodir um camião à entrada do Hotel Marriott, no coração de Islamabad; morrem 60 pessoas e mais de 250 ficam feridas.

9 de Outubro de 2009: um mercado de Peshawar, no noroeste do Paquistão, é o alvo de um atentado suicida com recurso a uma viatura armadilhada; morrem 52 pessoas.

28 de Outubro: um novo atentado em Peshawar mata 134 pessoas.

7 a 8 de Dezembro: quatro atentados num mercado de Lahore, no Leste do país, provocam pelo menos 66 mortos.

1 de Janeiro de 2010: mais de 100 pessoas perdem as vidas em resultado de um atentado suicida em pleno encontro de voleibol no noroeste do Paquistão.

12 de Março: um duplo atentado suicida contra militares, nas imediações de um mercado de Lahore, faz 57 mortos e 134 feridos.

17 de Abril: pelo menos 41 pessoas morrem em dois atentados suicidas cometidos por militantes islamistas disfarçados com burcas durante uma operação de distribuição de ajuda humanitária num campo de deslocados do noroeste.

28 de Maio: oitenta e duas pessoas perdem as vidas no decurso de ataques simultâneos contra duas mesquitas da seita ahmadi.

1 de Julho: um duplo atentado suicida num mausoléu sufi faz 43 mortos e 175 feridos; no momento do ataque, o mausoléu estava repleto de peregrinos muçulmanos.

Desta feita, o ataque foi concretizado com recurso a uma motorizada. Um militante suicida investiu, montado no veículo, contra o edifício da administração da localidade de Yakaghund, no coração da região tribal de Mohmand, já perto da fronteira com o vizinho Afeganistão. Em seguida accionou a carga que transportava. Na versão do responsável pelo gabinete administrativo, Rasool Khan, a explosão atingiu uma fila de deficientes que aguardavam a distribuição de cadeiras de rodas. "Eu era o alvo", garantiu Khan. "Eles queriam matar-me, mas, por sorte, eu não estava no gabinete", acrescentou.

Maqsood Ahmed, outro alto funcionário da administração de Yakaghund, fez uma outra descrição de parte dos danos causados pelo militante: "O gabinete da administração foi danificado, assim como o muro de uma prisão. Vários prisioneiros conseguiram escapar".

Praça-forte da guerrilha taliban

O distrito de Mohmand figura entre os mais poderosos bastiões do Movimento dos Taliban do Paquistão (TTP), que é hoje a principal organização de rebeldes islamistas naquele país. Criado em finais de 2007, o TTP cedo se associou à rede terrorista fundada por Bin Laden, tornando-se o elemento agregador de vários grupúsculos extremistas. É também responsável pela maior parte das quatro centenas de atentados que, em três anos, causaram 3.500 mortes um pouco por todo o território paquistanês.

Perante o ascendente das forças islamistas na Província da Fronteira Noroeste, a grande base de retaguarda da guerrilha taliban que combate as tropas internacionais no Afeganistão, o Governo paquistanês comprometeu-se esta semana a promover uma conferência destinada a reforçar a estratégia antiterrorista. Todavia, não apresentou qualquer data para a reunião. A promessa seguiu-se a um duplo atentado suicida num mausoléu sufi de Lahore, no Leste do país, que provocou 43 mortos e mais de 170 feridos.

A guerrilha taliban garante, contudo, que não esteve na origem do ataque de Lahore, sublinhando que os seus alvos são o Exército, as forças de segurança e as autoridades políticas do país.

"A região mais perigosa do Mundo"

O atentado mais mortífero dos últimos meses remonta a 28 de Maio, quando mais de oito dezenas de pessoas morreram, em Lahore, às mãos de um grupo de militantes suicidas fortemente armados - ataques simultâneos visaram, durante as orações de sexta-feira, duas mesquitas dos ahmadi, um ramo minoritário do Islão.

Os serviços secretos norte-americanos, que mantêm em marcha, no Paquistão, uma campanha de bombardeamentos com recurso a drones (aviões sem piloto), referem-se ao aglomerado de zonas tribais paquistanesas como "a região mais perigosa do Mundo". É ali, alega a CIA, que se situa, actualmente, o maior santuário da Al-Qaeda.

A campanha norte-americana de bombardeamentos tem resultado na eliminação de inúmeros combatentes extremistas paquistaneses ou afegãos e até alguns elementos da cúpula da Al-Qaeda. Mas também de civis.

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