Novo Papa terá como prioridade manter a unidade da Igreja
O investigador em ciências das religiões José Brissos-Lino avisou hoje que o futuro Papa terá de se focar na unidade da Igreja, em risco de cisma, sem fechar as portas que Francisco abriu aos movimentos progressistas.
"Eu penso que o próximo Papa que vier vai ser alguém que vai ter, como primeira prioridade, manter a unidade da Igreja. A segunda prioridade será não deixar cair algumas das janelas que Francisco abriu" e, finalmente, "não dar pretextos à linha mais conservadora para partir para um cisma", afirmou à Lusa José Brissos-Lino, comentando o conclave que vai ter início na próxima quarta-feira.
O investigador em Ética e em Ciência das Religiões considerou que Francisco foi o "Papa da rutura controlada, ou seja, ele entrou em determinados tabus mas não deixou que chegasse ao limite".
Francisco foi um Papa "que veio do terceiro mundo, do hemisfério sul, que é para onde a fé cristã, não apenas católica, mas cristã em geral, se está a deslocar" e trouxe "uma visão diferente da Igreja, uma visão muito mais terra a terra e muito menos eurocêntrica".
O teólogo destacou o trabalho do Papa no diálogo inter-religioso e dentro das confissões cristãs, tendo "coragem de começar um sínodo, em que pôs os fiéis à mesa a discutir a organização da Igreja", incluindo temas tabus como é o "celibato obrigatório dos padres, o sacerdócio para as mulheres ou os padres casados voltarem ou não a poder ter atividade pastoral".
"Por muito que o Papa que venha agora possa ser mais conservador, algo que eu presumo que será, nunca se poderá fechar as janelas todas que Francisco abriu", disse.
Exemplo disso é o processo sinodal: "Não se pode pedir às pessoas para darem a sua opinião para elaborarem documentos, para discutirem os fiéis com a hierarquia e depois de repente fechar a porta".
Brissos-Lino apontou a "imoralidade profunda" da Igreja ao insistir no celibato dos padres quando aceitou "dezenas de pastores anglicanos" que são casados e decidiram voltar a estar em obediência a Roma.
"Ou seja, um padre que faz carreira na Igreja católica não pode casar, mas é aceite no caso de alguém que venha de fora casado", explicou, recordando que o "celibato dos padres não é dogma" e só começou a ser exigido no século XII, mas também que os historiadores indicam que o apóstolo Pedro, considerado o primeiro Papa, "era casado".
Hoje em dia "há tensões muito grandes no seio da Igreja", desde os progressistas que defendem passos mais ousados ou "cardeais que andam a falar em voltar à missa em latim".
A prática religiosa varia de continente para continente e há temas que algumas hierarquias locais não querem sequer discutir.
"Deus sabia que os povos são muito diferentes, têm culturas muito diferentes e, portanto, quer a liturgia, quer outros aspetos da vida cristã, são muito marcados pela cultura" de cada país, salientou.
"No fundo, estas coisas todas têm a ver com o poder que, na Igreja Católica, está muito assente na hierarquia", salientou.
A Igreja "é uma estrutura vertical em pirâmide e portanto, quem está na base da pirâmide são os fiéis, que não têm voz", mas o sínodo "mudou tudo" e criou um processo que "não é parável" e irá "retirar poder à hierarquia".
Por isso, o "próximo Papa que vier tem que ser um homem corajoso, tem que ter uma visão para a Igreja, como Francisco tinha", em particular sobre "o papel da Igreja no mundo, uma vez que o próprio Papa é um chefe de Estado e portanto, tem influência quando fala".
O Conclave tem início na quarta-feira, dia 07 de maio e caberá aos 133 cardeais eleitores, com menos de 80 anos, a responsabilidade de escolher o sucessor de Francisco.
Todos os dias serão feitas quatro votações e o futuro Papa deverá ter pelo menos dois terços dos boletins contados.