Novo parlamento de Myanmar reúne-se sob a sombra da junta militar
O parlamento de Myanmar (antiga Birmânia) reuniu-se hoje pela primeira vez desde o golpe de Estado militar de 2021, com uma larga maioria de deputados favoráveis às Forças Armadas, eleitos recentemente nas legislativas organizadas pela junta.
O Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento (USDP), pró-militares, venceu amplamente as eleições legislativas realizadas em várias fases entre dezembro e janeiro.
A maioria dos restantes lugares nas duas câmaras do parlamento será ocupada por membros das Forças Armadas, que recebem automaticamente um quarto dos assentos ao abrigo da Constituição redigida pelos militares.
Os deputados da câmara baixa iniciaram hoje os trabalhos ao eleger Nanda Kyaw Swar, do USDP, como presidente.
Já a câmara alta deverá escolher o seu presidente dentro de dois dias.
As últimas eleições legislativas, realizadas em 2020, foram amplamente vencidas pelo partido da antiga líder civil Aung San Suu Kyi, mas os militares anularam os resultados, detiveram a vencedora do Prémio Nobel da Paz e dissolveram o partido, desencadeando uma guerra civil.
As eleições organizadas em dezembro e janeiro, após cinco anos de regime militar, ficaram marcadas pela repressão de vozes dissidentes e por listas dominadas por partidos favoráveis ao exército, tendo sido condenadas por vários países e observadores internacionais.
Enquanto os deputados próximos da junta tomavam posse no parlamento, em Naypyidaw, parlamentares eleitos em 2020 e atualmente no exílio realizaram uma sessão paralela, defendendo que o seu autoproclamado Governo de Unidade Nacional (NUG) continua a ser a autoridade legítima do país.
"Estamos a assistir a uma tentativa de enganar o povo através de uma representação fraudulenta resultante destas falsas eleições", afirmou o presidente interino do NUG, Duwa Lashi La, durante uma reunião realizada `online`.
O responsável acusou ainda os líderes do golpe de tentarem obter legitimidade internacional "por todos os meios" e disse que a reunião do parlamento não deve ser considerada uma evolução política normal.
Vários analistas consideram também que o novo parlamento serve sobretudo para dar uma aparência de legitimidade ao poder militar.
O chefe da junta, Min Aung Hlaing, deverá abandonar o uniforme militar e assumir o cargo de Presidente quando o novo Governo tomar posse no próximo mês.
O chefe de Estado será escolhido por votação das duas câmaras do parlamento, dominadas por deputados próximos dos militares ou provenientes das suas fileiras.
Alguns especialistas admitem, no entanto, que Min Aung Hlaing possa manter-se à frente das Forças Armadas enquanto controla o Governo nos bastidores.
"Não sabemos exatamente qual será o seu papel, mas é evidente que estará no comando e que os militares continuarão a mandar", afirmou Tom Andrews, relator especial das Nações Unidas para os direitos humanos em Myanmar.
"Será uma junta militar sob vestes civis", acrescentou.
O exército governou Myanmar durante grande parte da história do país desde a independência, em 1948, com exceção de um período de abertura democrática entre 2011 e 2021, que gerou expectativas de reformas no país do Sudeste Asiático.
Analistas consideram que o golpe de Estado de 2021 foi motivado pelo receio dos militares perante a crescente influência do movimento político liderado por Aung San Suu Kyi.
O golpe desencadeou uma guerra civil, com ativistas pró-democracia a pegar em armas ao lado de movimentos armados de minorias étnicas historicamente hostis ao poder central.
O USDP, que conquistou mais de 80% dos lugares em disputa nas últimas eleições, foi fundado por um antigo general e inclui nas suas fileiras vários ex-altos oficiais militares reformados.