Novo Presidente da Coreia do Sul disposto a visitar Pyongyang

Moon Jae-in tomou posse esta quarta-feira como Presidente da Coreia do Sul para um mandato de cinco anos. Poucas horas depois de ter assumido funções, o novo líder disse estar disponível para ir a “qualquer lado” pela paz.

Andreia Martins - RTP /
Moon Jae-in, de 64 anos, é o primeiro liberal a chegar ao poder ao fim de dez anos de presidentes conservadores Jung Yeon-Je - Reuters

Se os problemas de política interna e corrupção dominaram grande parte da campanha presidencial em Seul, as primeiras palavras do novo Presidente foram dirigidas ao arqui-inimigo da Península Coreana.

O novo Presidente sul-coreano foi eleito com 41,08 por cento dos votos. O principal adversário, o conservador Hong Joon-pyo, do Partido da Liberdade, arrecadou 24,03 por cento.

Moon Jae-in, do Partido Democrático da Coreia, tem sido crítico da atuação de anteriores governos e governantes conservadores sobre a posição tomada perante a Coreia do Norte, acusando-os de “ineficácia” perante o desenvolvimento de armamento nuclear e a realização constante de ensaios balísticos.
“Política do Sol”

Na cerimónia de tomada de posse, esta quarta-feira em Seul, horas depois de ter sido indicado como vencedor pela comissão eleitoral com uma margem histórica de votos, Moon Jae-in mostrou-se disposto a tentar amenizar as tensões entre os dois países, estando mesmo disposto a visitar a capital da Coreia do Norte.

“Estou disponível para ir a qualquer lado pela paz na península coreana para resolver a crise de segurança. Se necessário irei imediatamente a Washington, a Pequim e a Tóquio. Se as condições estiverem reunidas irei a Pyongyang”, completou. 

No início do mês, o Presidente norte-americano fez saber que estaria disponível para um encontro com o líder norte-coreano, sob condição de Pyongyang desistir do programa nuclear e lançamentos de mísseis balísticos. 

Moon Jae-in, de 64 anos, é o primeiro liberal a chegar ao poder ao fim de dez anos de Presidentes conservadores e propõe-se a “agir rapidamente para resolver os problemas de segurança nacional” que ameaçam a estabilidade de Seul e do continente asiático.

A tentativa de aproximação à Coreia do Norte e o atenuar de tensão no Paralelo 38N é visíveis não só nas palavras, mas também nas principais nomeações anunciadas por Moon, ao apontar dois antigos responsáveis com ligações à “Política do Sol”, um programa que promoveu maior contacto político entre as duas Coreias desde 1998 até 2008. 

Sun Hoon, anteriormente responsável pela organização de conferências e encontros entre responsáveis de Seul e Pyongyang, foi indicado para o lugar de chefe dos secretos. Lee Nak-yon, foi apontado para o lugar de primeiro-ministro, tendo sido particularmente interventivo nas relações entre os dois países desde 2000 até 2007. Esta última nomeação aguarda agora a aprovação pelo Parlamento. 
Aliados e rivais

Ainda no plano externo, o novo Presidente sul-coreano não esqueceu a tensão dos últimos meses entre a China e os Estados Unidos, dois aliados fulcrais no plano diplomático, comercial e económico. 

A relação entre os dois países tem conhecido momentos de grande tensão desde que Washington iniciou a instalação do sistema de defesa antimíssil THAAD em território sul-coreano, uma vez que a infraestrutura de defesa perante um eventual ataque de Pyongyang é vista por Pequim – única aliada da Coreia do Norte - como uma “intromissão” nos problemas regionais. 

Na China, a ingerência por parte dos norte-americanos já levou a promessas de retaliação contra a Coreia do Sul no plano económico, ao mesmo tempo que a República Popular tenta conter a irreverência de Kim Jong-un.

Em reação ao resultado das eleições de terça-feira, a presidência dos Estados Unidos felicitou Moon e desejou desde logo uma "pacífica e democrática transição do poder".

Washigton manifesta vontade de manter a colaboração estreita entre os dois países, apesar de Moon se ter manifestado contra o desenvolvimento do sistema antimíssil THAAD pelos norte-americanos.

O atual Presidente reitera que cabe ao atual Governo a decisão final sobre a instalação da infraestrutura em território sul-coreano, uma vez que a situação pode colocar em causa a relação com a China. 

No despertar da eleições, o presidente chinês Xi Jinping e o primeiro-ministro Shinzo Abe congratularam o novo líder sul-coreano. Se Pequim pretende lidar com as disputas entre os dois países de forma “apropriada” e com base na confiança mútua, Tóquio enfatiza em comunicado que a Coreia do Sul “é um dos mais importantes vizinhos do Japão”. 
“Sairei de mãos vazias”

O mandato presidencial de Moon, que assumiu funções como o 13.º presidente da Coreia do Sul, inicia-se num momento muito particular na história do país. A sua antecessora, Park Geun-hye, foi destituída pelos deputados e colocada em prisão preventiva em março. 

Desde o início do mês, Park, de 65 anos, está a ser julgada no âmbito de um escândalo de corrupção e tráfico de influências. Em causa está a relação da Presidente destituúida com uma amiga de infância, Choi Soon-sil, que se terá aproveitado da relação próxima com a anterior líder para conseguir obter milhões de dólares de grandes aglomerados, envolvendo mesmo a própria Samsung.

Depois do impeachment, a antiga líder democraticamente eleita poderá mesmo enfrentar uma pena de prisão perpétua. 

Perante a marcação de eleições antecipadas e a situação de crise política sul-coreana, o novo Presidente sul-coreano não dispôs do habitual período de transição de dois meses, mantendo-se para já com os ministros e assessores de Park Geun-hye. 

Na chegada à Casa Azul, residência oficial do presidente sul-coreano, Moon compromete-se a cortar os laços “conspiratórios” entre o Governo e as empresas e mostrou-se como um líder “incorruptível”.

“Assumo esta função de mãos vazias e sairei da Presidência de mãos vazias”, afirmou durante a cerimónia de tomada de posse.

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