Novo sismo abalou as ruínas da capital do Haiti

A população da capital do Haiti foi sobressaltada, na manhã de quarta-feira, por um novo sismo de magnitude 6.1 na escala de Richter. O epicentro do abalo, que semeou uma vaga de pânico em Port-au-Prince, foi localizado a 56 quilómetros a noroeste da cidade. Na sequência do sismo, o enviado especial da RTP Vítor Gonçalves ficou ferido sem gravidade.

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A assistência médica, a remoção de cadáveres das ruas e a distribuição de água e alimentos continuam a ser prioridades NEMA, EPA

Oito dias após o sismo de magnitude 7.0 que devastou o Haiti e matou dezenas de milhares de pessoas, a terra voltou a tremer em Port-au-Prince. Eram 6h03 (11h03 em Lisboa) quando os sobreviventes da catástrofe de 12 de Janeiro foram supreendidos com mais um abalo de magnitude 6.1. O tremor de terra foi registado pelo centro de Vigilância Geológica dos Estados Unidos, que situou o epicentro a 56 quilómetros a noroeste da cidade.

Na sequência do sismo, o jornalista da RTP Vítor Conçalves sofreu um acidente e ficou ferido sem gravidade. O repórter foi de imediato acompanhado por médicos de uma organização não governamental (ONG) no Universal Hospital de Port-au-Prince.

"Aquilo que nós sabemos é que foi um acidente na sequência da réplica do sismo desta madrugada. Ele sofreu alguns ferimentos, já foi visto por médicos americanos de uma ONG que está instalada em Port-au-Prince. Aquilo que sabemos é uma informação genérica por parte dos médicos e do próprio de que se encontrava bem, que estava a ser observado pelos médicos", explicava ao início da tarde o director de Informação da RTP, José Alberto Carvalho, em declarações à Antena 1.

A Autoridade Nacional de Protecção Civil indicou que o enviado especial da televisão pública foi "resgatado do hotel onde se encontrava por elementos da Força Conjunta (FOCON) Portuguesa que se encontra em Port-au-Prince".

Vítor Gonçalves sofreu um traumatismo cranioencefálico e tem uma lesão numa perna. Contudo, o seu estado não é considerado grave. O jornalista da RTP, que foi vítima de uma queda, encontrava-se no Hotel Plaza acompanhado do repórter de imagem Carlos Pinota, que não teve qualquer ferimento. O repórter foi entretanto encaminhado para o hospital das Nações Unidas em Port-au-Prince e assistido por médicos portugueses do INEM e da AMI. Nas próximas horas deverá ser evacuado para os Estados Unidos.

"Cada réplica é assustadora"

O tremor de terra desta quarta-feira levou centenas de pessoas a procurarem distanciar-se do que resta dos edifícios de Port-au-Prince, temendo novos desmoronamentos. A porta-voz do Gabinete de Coordenação da Ajuda Humanitária da ONU afirmou à France Presse que as equipas de socorro enviadas à capital do Haiti "partiram de imediato para esquadrinhar" a cidade em busca de eventuais vítimas da réplica.

"As equipas partiram imediatamente para verificar se há edifícios desmoronados e mais pessoas debaixo dos escombros", disse Elisabeth Byrs, a partir de Genebra. Um helicóptero das Nações Unidas, indicou ainda a responsável, "descolou também imediamente para sobrevoar Petit-Goave", uma localidade situada a escassos dois quilómetros do epicentro do novo sismo.

Lenis Batiste, sobrevivente do terramoto de 12 de Janeiro, descreveu à Reuters os momentos de pânico em Port-au-Prince: "Foi realmente forte. Cada réplica é assustadora. Nós sentimo-lo aqui mesmo (apontando para o estômago), porque depois da passada terça-feira nunca sabemos quão forte vai ser".

Violência localizada

Uma semana depois do primeiro terramoto, os Estados Unidos têm perto de 12 mil operacionais militares no terreno. Na terça-feira, duas dezenas de helicópteros Black Hawk aterraram no complexo do Palácio Presidencial de Port-au-Prince com mais soldados e material de assistência. A entrega de bens de primeira necessidade aos haitianos exige, agora, um acompanhamento por escoltas militares.

Segundo as Nações Unidas, os problemas de segurança mais significativos verificam-se em zonas que já eram consideradas de "alto risco" antes do sismo. Com a derrocada das instalações prisionais de Port-au-Prince, perto de quatro mil criminosos conseguiram evadir-se. Numa tentativa de apressar a distribuição de ajuda no Haiti, o Conselho de Segurança da ONU deu luz verde a um reforço temporário da missão de manutenção de paz em dois mil capacetes azuis e 1.500 polícias, a somar aos nove mil operacionais no terreno.

"Há pontos e locais onde se sente essa insegurança, junto ao perímetro do aeroporto, junto aos locais onde se faz a distribuição de água e junto aos locais onde se faz a distribuição de alimentos. Ontem a equipa da RTP andou por vários bairros tidos como complicados, violentos, e não sentimos essa insegurança", relatou por seu turno a enviada especial da estação pública a Port-au-Prince, Rosário Salgueiro.

"Nos locais, isso sim, onde os haitianos sabem que há comida ou pode haver água, o desespero dá azo a violência, dá azo a grandes confrontos e a polícia está massivamente na rua", acrescentou a jornalista da RTP.

"Plano Marshall" para o Haiti

A par dos compromissos financeiros e logísticos já assumidos por várias capitais internacionais, o director-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) exortou esta quarta-feira os países a porem em prática "uma espécie de Plano Marshall" para acudir ao Haiti.

"O meu sentimento é que o Haiti, atingido de forma exccepcional por diferentes acontecimentos, desde a crise dos preços dos alimentos e do petróleo, depois os furacões e depois o sismo, precisa de um plano em grande escala", sustenta Dominique Strauss-Khan numa entrevista publicada pelo site do FMI na Internet.

Strauss-Khan faz a apologia de "uma abordagem não apenas pontual, mas qualquer coisa de mais vasto, para tratar da reconstrução do país, uma espécie de Plano Marshall que deve ser agora aplicado ao Haiti".

O balanço provisório do desastre de 12 de Janeiro refere pelo menos 75 mil mortos e 250 mil feridos. Perto de um milhão de pessoas ficaram sem tecto. Quarenta e sete funcionários da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) morreram e outros 500 estão dados como desaparecidos.

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