Número dois do Vaticano criticado por defender que a pedofilia está ligada à homossexualidade
As declarações do cardeal Tarcisio Bertone estão a provocar a condenação de políticos e das associações que defendem os homossexuais. O secretário de estado do Vaticano declarou, numa conferência de imprensa, que os múltiplos casos de pedofilia que afligem a igreja católica não estão ligados ao celibato dos padres, e sim à homossexualidade.
O cardeal fez estas declarações em Santiago do Chile, onde se deslocou para inaugurar a conferência episcopal chilena. Na mesma altura garantiu também que a igreja nunca colocou entraves à investigação de casos de pedofilia que envolvem sacerdotes.
Os comentários acerca da homossexualidade provocaram reacções iradas por parte das associações chilenas de defesa dos direitos dos homossexuais. "Nem Bertone nem o Vaticano têm autoridade moral para oferecer lições de sexualidade" afirmou à Associated Press Rolando Jiménez , presidente do movimento para a integração e libertação homossexual do Chile. O mesmo responsável indicou também que não existem estudos bem elaborados que apoiem as declarações do cardeal "É uma estratégia perversa do Vaticano para evadir as suas próprias responsabilidades" declarou Jimenez, que indicou também que um dos maiores escândalos com padres pedófilos no Chile envolve um sacerdote que tinha relações sexuais com meninas jovens, entre elas uma adolescente que acabou por engravidar.
Condenação também em Itália
As declarações do secretário de estado do Vaticano provocaram também indignação entre a esquerda italiana. A deputada do Partido Democrata, Ana Paola Concia, exigiu que Bertone se retracte "das palavras violentas, desumanas e gravíssimas que proferiu". A mesma deputada lamentou que "nos tempos actuais, altos representantes religiosos se deixem arrastar por análises tão grosseiras e proponham teses falsas, prejudiciais e desmentidas pela Organização Mundial de Saúde, que não são partilhadas pela maioria dos católicos".
Alessandra Mussolini, presidente da comissão da infância da Câmara dos Deputados italiana contradisse directamente o cardeal Bertone, ao afirmar que "não se pode ligar a orientação sexual à pedofilia" . Alexandra Mussolini pertence actualmente ao partido de direita "Povo da Liberdade"(PDL) de Silvio Berlusconi.
O presidente do "Gaylib", um movimento de defesa dos homossexuais de centro-direita, considerou inquietante que o ministro dos negócios estrangeiros de um estado que ocupa o coração da capital italiana utilize argumentos ultrapassados até mesmo no terceiro mundo: "Já que falam a mesma língua, seria oportuno transferir o Vaticano para Teerão", desabafou Enrico Oliari, referindo-se às declarações homofóbicas por que é conhecido o Presidente do Irão.
Já o ex-presidente da "Arcygay", Aurélio Mancuso, estima que "o cardeal Bertone deveria tentar ser lógico consigo mesmo e expulsar todos os homossexuais do clero, a começar pela Cúria Vaticana". O antigo líder da maior organização de defesa dos homossexuais de Itália vai mais longe "a verdade é que Bertone tenta desastradamente desviar sobre a homossexualidade a atenção que actualmente se concentra sobre os novos crimes contra crianças que todos os dias vêm à superfície".
Por fim uma associação de luta contra a pedofilia, "La Caramella Buona" cita num comunicado a criminalista Roberta Bruzzone, que defende que "as ditas correlações entre a homossexualidade e a pedofilia são destituídas de qualquer fundamento científico".