O charme da City pós-Brexit

Londres. A capital do Reino Unido é a quinta maior área económica metropolitana do mundo, o grande centro financeiro para negócios internacionais e comércio da Europa e um dos principais centros de liderança da economia global. E corre o risco de ser desmantelada.

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A cidade tem mais de oito milhões e meio de habitantes e acolhe mais de 800 mil empresas privadas – muitas delas de pequena e média dimensão - 18 por cento das quais ligadas a atividades científicas e técnicas e 15 por cento ao sector da construção.

A atividade económica de Londres – sobretudo devido à City – é responsável por cerca de 22 por cento do PIB britânico. A economia de Londres vale aproximadamente tanto como a da Suécia.

O sector financeiro emprega 1,1 milhões de pessoas – que sobem para 2,2 milhões, se forem incluídos os empregos gerados pelas indústrias que os apoiam – as quais pagam 12 por cento dos impostos britânicos e geram lucros anuais superiores a 63 mil milhões de euros.



O Brexit ameaça acabar com tudo isto.

Desde logo porque o futuro é nebuloso. John Cryan, diretor executivo do Deutsche Bank na City, resumia esta semana os receios subjacentes. “Na verdade não sabemos o que é o Brexit”, referiu ao City A.M.

Os efeitos da incerteza já se fazem sentir em vários domínios. A construção abrandou e, por exemplo, o sindicato nacional dos agricultores já avisou os seus associados de que os subsídios – a União Europeia transferiu o ano passado quase 2,8 mil milhões de euros aos agricultores britânicos - deverão descer 20 por cento nos próximos três anos.

A banca fala em cortes de milhares de empregos e na deslocalização de efetivos para a Europa, para não perder o acesso ao passaporte financeiro que facilita as transferências e as transações financeiras em toda a Europa.

Mais de um quarto dos empregadores abordados pelo Chartered Institute of Personnel and Development (CIPD), ligado à indústria, revela que os seus trabalhadores da União Europeia admitem abandonar a Grã-Bretanha. Um décimo das empresas estudadas pelo CIPD está a considerar deslocar para fora do país parte das suas operações. E mais sete por cento afirmam que poderão mudar as suas prioridades para desenvolver os seus negócios fora do Reino Unido.

As startups, uma das maiores forças da economia londrina, começam a olhar para outras cidades. E até o sector académico, um dos maiores ativos da economia britânica com 30 mil cidadãos europeus nos quadros, está ameaçado.



Milhares de professores universitários e investigadores, há mais de duas décadas no Reino Unido, resolveram à cautela e devido ao Brexit contactar os serviços britânicos para obter uma nova autorização de residência.

Na volta do correio tem aparecido uma carta-tipo onde, erradamente, os serviços do Home Office negam ao candidato a legalidade da residência e o aconselham a “iniciar preparativos para se ir embora”.
A caça às empresas já abriu
Londres está vulnerável e isto atrai atenções em todo o mundo, com grandes interesses a movimentar-se para conseguir pelo menos uma boa fatia da City e dos seus recursos.

Paris e Frankfurt apresentam-se como as melhores cidades alternativas a Londres. E já começaram a lançar operações de charme.



A semana passada, por exemplo, os reguladores financeiros alemães reuniram-se com 50 representantes de bancos estrangeiros, para lhes explicar como poderão, depois do Brexit, deslocar os seus negócios para a maior economia europeia, revelou o regulador alemão Bafin.

E já esta semana Valerie Pecresse, líder da região de Paris, e Gerard Mestrellet, presidente do lobby da indústria francesa Europlace, deslocaram-se a Londres para reuniões com executivos da Black Rock, do Bank of America, da Merrill Lyinch e outros, para apresentar um estudo da McKinsey sobre as atrações de Paris.

Mas há alternativas. Dublin, por exemplo, ou Madrid. Até Lisboa apresenta vantagens, embora o Executivo não pareça – oficialmente - interessado em concorrer com outras urbes e economias aparentemente mais favorecidas.

No final de 2016 o Governo português formou um grupo de trabalho transversal a ministérios e confederações, para estudar o impacto do Brexit nas relações económicas e financeiras bilaterais de Portugal com o Reino Unido.

O grupo é liderado pelo diplomata João de Vallera, que nos últimos 30 anos foi embaixador de Portugal em Londres, em Dublin, na Alemanha e nos EUA. Esteve ainda oito anos na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER) e foi diretor geral dos Assuntos Europeus, em Lisboa.

Esta task force deverá perceber os “interesses nacionais defensivos, ofensivos e estratégicos” em jogo, referiu a Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus à revista Visão em novembro.

Quisemos saber junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros que planos – se é que existem – está o Governo a desenvolver especificamente com vista a chamar a atenção para Lisboa, de forma a captar pelo menos parte dos tesouros britânicos.

A resposta foi lacónica.

“Portugal está preparado para a negociação que se fará a 27”, referiu genericamente o email enviado pelo MNE. Está ainda “atento a todas as oportunidades de investimento e de atração de valor para o nosso país” e - remata - “por isso não faz sentido dar detalhes do que está a ser feito”.

Aparentemente, o segredo é a alma de negócio.

É uma receita mas, estranhamente – ou talvez não –, não é a seguida por Paris ou por Frankfurt. Tanto o Governo francês como o alemão estão já a admitir abertamente alterar as leis laborais ou financeiras dos seus países para acomodar os interesses das multinacionais e grandes grupos financeiros.



A ofensiva de Paris até já tem o slogan Tired of the fog? Come to the frogs! – “Cansado do nevoeiro? Venha ter com as rãs!” – que brinca com o som das palavras e o epíteto com que os britânicos se referem aos franceses – frogs, ou rãs.

As autoridades francesas lembram, por exemplo, que Paris dispõe de uma rede de firmas internacionais de advocacia e de gestão e é a sede da ESMA – European Securities and Markets Authority – a autoridade da UE para o comércio. Tem ainda o seu próprio supervisor financeiro, que cuida de alguns dos maiores bancos da Zona Euro.

As autoridades francesas enchem ainda a boca com o estatuto de Paris como cidade “do mundo”, a par de Londres, e com o facto de diversas multinacionais terem ali a sua sede. Um argumento reforçado pelo Facebook, que escolheu a capital francesa para sediar a sua mais recente aventura, uma incubadora de startups.

A ofensiva de Frankfurt é mais discreta, talvez porque a maioria dos bancos londrinos já ali tem representação, o que facilitaria a transferência de empregos. A cidade alemã está igualmente no meio da maior economia europeia, o que só por si é um fator de atração.

Mas a língua e a localização horária da cidade alemã em relação aos outros grandes centros dos mercados mundiais são elementos dissuasores. Tal como a carga de impostos e a legislação laboral mais restrita do que a britânica.



Já Dublin partilha a linguagem da City – o inglês – e um sistema legal semelhante, além de um sistema bancário reforçado, de laços especiais aos Estados Unidos e de ser sede europeia de empresas como a Google. Contudo, já perdeu a Web Summit a favor de Lisboa.

Na corrida à City, a capital portuguesa tem a seu favor a localização geográfica, os laços a África, à América do Sul e à Ásia, a mesma hora de Londres – que permite fazer a ponte entre o funcionamento dos mercados asiáticos e americanos – o clima ou a segurança.

Lisboa está igualmente muito bem posicionada entre as startups e o recente acolhimento da Web Summit atraiu – favoravelmente – à região os olhares do mundo das novas tecnologias informáticas e do digital.

Do lado contra, a capital portuguesa mostra deficiências a nível de desenvolvimento urbanístico e económico, de uma fraca rede de transportes e de baixa qualificação laboral, a par de impostos pesados e um setor bancário fragilizado.



Em 24 de janeiro último a capital da Irlanda acolheu o Fórum Financeiro Europeu, tendo um executivo do Citigroup admitido que abordou a deslocalização dos funcionários com as autoridades da Irlanda, de França, Alemanha, Holanda e Espanha.

No entanto o Brexit poderá colocar obstáculos sérios à Irlanda, por exemplo devido a obstáculos aduaneiros. Fala-se de uma barreira contínua ao longo da fronteira com a Irlanda do Norte e a primeira-ministra da Grã-Bretanha, Theresa May, anunciou a 17 de janeiro planos para o país estabelecer as suas próprias regras no sector, aproveitando algumas das facilidades do Mercado Único - mas nada garante que Bruxelas lhe faça a vontade.

Também as atrações parisienses enfrentam desvantagens de monta. Por exemplo, as restrições à mobilidade laboral, mas também os impostos sobre os ordenados auferidos pelos banqueiros – de acordo com a Autoridade Bancária Europeia, 80 por cento dos financeiros europeus que ganharam mais de um milhão de euros em 2015 estão na City: são cerca de quatro mil. As taxas pagas pelas empresas são outro problema: Paris já baixou as suas de 33 para 28 por cento, mas Londres exige 20 por cento e deverá descer para 17 por cento até 2020.

As severas leis laborais francesas e a força dos sindicatos e dos contratos coletivos de trabalho são igualmente um enorme obstáculo. É aqui que o Governo francês poderá mexer, mas só depois das presidenciais desta primavera poderão ser estudadas alterações, como por exemplo a facilidade de despedimentos.

O ano de 2017 é péssimo para negociar o Brexit: há uma catadupa de eleições nos Estados europeus e são admitidas grandes alterações no espectro político em França e na Alemanha.



É por isso expectável que nenhum acordo se comece a desenhar antes de essas questões estarem resolvidas, pelo que, no melhor dos casos, o período de dois anos para a conclusão do Brexit – prevista para 2019 – será encurtado para ano e meio. O mais provável é que tenha de ser prolongado, assim como o correspondente período de incerteza.

Por outro lado, o debate na própria Grã-Bretanha está longe de ser pacífico e o país está mais dividido do que nunca.

Sondagens recentes revelam que muitos britânicos estão revoltados e sentem-se enganados. Se pudessem, milhares fariam marcha atrás no Brexit. Também não se entendem quanto ao tipo de Economia que pretendem: existem os globalistas – onde se inscreve a própria Theresa May, que já admitiu mesmo tornar Londres uma espécie de paraíso fiscal – e os protecionistas.


Uma nova identidade
As autoridades de Londres estão a lutar para manter a City e garantir a sua importância num mundo global. A região votou maciçamente contra o Brexit e algumas vozes levantaram a hipótese de a zona metropolitana londrina se propor um estatuto particular que lhe permitisse manter-se na União Europeia.

De facto, cada vez mais as grandes cidades estão a demarcar-se das ligações tradicionais ao país onde se integram geograficamente. A identidade cultural dos cidadãos é muitas vezes difusa, fazendo, à semelhança das cidades gregas, com que se assumam mais da cidade do que de uma nação. Diversos analistas aventam a hipótese de as grandes metrópoles virem a transformar de forma decisiva a forma de exercer o poder a nível planetário.

Para já, a desanexação de Londres do resto da realidade britânica está fora de cogitação. O Governo da Grã-Bretanha deverá acionar até final de março o artigo 50 do Tratado de Lisboa para abandonar a União Europeia. Ao mesmo tempo vai deixar o mercado único e o Tribunal Europeu.

Apesar de se ter oposto, a primeira-ministra britânica está agora a apresentar o Brexit como a grande oportunidade de libertar a Grã-Bretanha das amarras europeias e o início de uma nova era de crescimento.

A única certeza é que nada está decidido. Uma babel de opiniões domina todas as conversas e abrange todo o espectro – desde a convicção de que o Brexit significa a destruição da economia britânica até ao otimismo delirante de uma Grã-Bretanha finalmente livre para decidir o seu destino e assumir ainda mais importância num mundo global.

Seguindo a tendência, também o destino de Londres oscila entre a grandiosidade futura e a ruína. Para já, um dos indicadores de possíveis problemas para a cidade britânica – o índice do valor das propriedades em Paris – mantém-se estável, sinal de que “ninguém está a correr para se mudar”. Para Paris ou outra cidade qualquer.

“Vai demorar”, referia na semana passada Nordine Hachemi à agência Reuters.

Presidente executivo da Kaufman& Broad, uma firma de desenvolvimento urbanístico, Hachemi é realista e lembra ainda que “há competição com outras cidades europeias, não há para já nenhum impacto”.

Os próximos seis meses poderão ser cruciais.

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