Mundo
O fim da eternidade
A destruição parcial de Notre-Dame foi vista e chorada em tempo real em todo o mundo. Foi o maior choque de eras que já vivemos nas nossas vidas: o tempo durável das catedrais derretia à nossa frente, na voragem imediata do livestream.
“No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei vai ter que existir
Vai existir nosso lugar”
“Catedral”, versão brasileira de Zélia Duncan ao original “Cathedral Song”, de Tanita Tikaram
Este não é o tempo das catedrais. Na sociedade do consumo imediato em que vivemos, com reação em tempo real, a intemporalidade de um monumento como Notre-Dame fascinava-nos – porque nos oferecia, precisamente, o que os dias que correm nos roubam: tempo e controlo.
O Grande Incêndio de 15 de abril de 2019 teve um rescaldo um pouco menos trágico do que chegámos a temer: em tempo de Quaresma, e em semana de Páscoa, o monumento religioso mais visitado de França ardeu sem ter havido qualquer vítima mortal ou feridos a registar.
A estrutura da catedral salvou-se. As principais obras de arte foram preservadas. A coroa do rei Luís IX, conservada na Notre-Dame desde 1806, resistiu, assim como as vestes e alguns cálices. O Sacrário e o Tesouro (com várias relíquias de enorme valor simbólico e religioso) também terão sido salvos.
As primeiras peritagens apontam para que cerca de 60% da Catedral tenha sido destruído pelas chamas – balanço obviamente trágico, mas que ao mesmo tempo mantém a esperança viva de vermos, se calhar ainda em nosso tempo de vida, uma nova versão da Notre-Dame pronta a estrear, algures no futuro.
Mas nem o que o esforço e mérito dos bombeiros conseguiu salvar evita o peso simbólico do que ocorreu no final do dia 15 de abril na capital francesa.
A destruição parcial de Notre-Dame foi vista e chorada em tempo real em todo o mundo. Foi o maior choque de eras que jávivemos nas nossas vidas: o tempo durável das catedrais derretia à nossa frente, na voragem imediata do livestream.
A Catedral de Notre-Dame demorou 200 anos a construir e somava 850 anos de existência. Simbolizava uma escala sobrehumana, de um tempo longo e durável. Mas vimo-la a desfazer-se, entre chamas e jatos de água, ali mesmo, nas nossas casas, nos nossos empregos, nos nossos smarthpones. No drama do “tempo real”.
O livestream é velozmente destruidor - e até destrói a ilusão protetora que tínhamos de que as catedrais eram eternas.
Em poucas horas assistimos a uma espécie de fim da eternidade.
Os momentos, amplamente documentados em direto, da queda do pináculo que simbolizava o auge da Catedral, vergado pelas chamas, seguido um quarto de hora depois pelo colapso de todo o telhado e da destruição da Nave Central, fizeram-nos lembrar, por analogia, o acontecimento-choque, que julgávamos irrepetível, do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque.
Sem a carga assustadora do terrorismo, é certo, mas com um peso simbólico igualmente penalizador – o da decadência europeia.
Para mais, com o lado entre cómico e trágico de vermos o atual Presidente dos EUA a mandar, via twitter, palpites tecnicamente errados sobre o modo como os bombeiros deviam atacar o fogo.
Em período tão conturbado da vida política e social da Europa em geral, e da França em particular, o Grande Incêndio da Notre-Dame surge como um terrível símbolo da incapacidade de assegurar o essencial.
Conseguirá a Europa, a Europa da Cultura e das Luzes, da História e da Razão, a mesma Europa que Steiner identificou numa “Ideia” comum, proteger-se do “fogo” dos populismos?
Salvar-se-á o projeto europeu, que teve na eleição presidencial de Macron o último sinal positivo de esperança entre tantos alertas e recuos nos últimos anos, do “incêndio” de contestação propagada pelo Brexit e pelo crescimento de partidos nacionalistas?
Depois do 9/11, a sociedade norte-americana foi capaz de sarar feridas e reagiu à destruição com uma capacidade regeneradora simplesmente impressionante.
Hoje, em Nova Iorque, no lugar que eram das Torres Gémeas e durante anos foi de um “Ground Zero”, emerge um Novo World Trade Center, com edifícios modernos, prósperos e uma torre futurista – para lá de um museu e um memorial sóbrio às vítimas do 9/11. “Não podíamos deixar aquele espaço em ruínas. Ruínas não é connosco”, atalhou Erika Doss, historiadora norte-americana.
Terão os franceses, neste tempo de divisão maniqueísta entre “coletes amarelos” e Macron a simbolizar a “elite dominante”, a mesma capacidade de união e renascimento?
Apenas dez dias antes do desastre, no passado dia 5 de abril, a BBC Travel emitiu uma reportagem tristemente profética, na qual se avisava para a "urgência" de se restaurar a Catedral de Notre-Dame, perante a erosão da poluição, das chuvas ácidas e do envelhecimento da estrutura.
Nessa peça apontava-se um prazo de "dez anos" como provável para "o colapso completo" do monumento, caso nada se fizesse e previa-se um plano de restauro que exigiria "custos massivos".
O Grande Teste
Sim, é sempre possível reconstruir. A capacidade de reconstrução será o Grande teste à resiliência que os franceses terão por esta altura.
O “15 de abril de 2019” será recordado na capital francesa como o grande momento de abalo. Uma metáfora dramaticamente real, depois de meses de contestação que puseram, literalmente, Paris a arder.
Entre o “fim da eternidade” que a destruição da principal Catedral significa e os focos de esperança do que se conseguiu evitar e preservar,
Até pode ser que tenhamos “sempre Paris”. Mas já não teremos sempre Notre-Dame.