O lado negro do acolhimento de refugiadas ucranianas no Reino Unido

Desde que começou a guerra na Ucrânia, foram vários os países que se organizaram para acolher refugiados daquele país. No Reino Unido, através do programa Homes for Ukraine, são muitas as famílias que se têm candidatado para receber quem está a fugir ao conflito. Esta quarta-feira o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) alertou para os esquemas de cariz sexual em que homens solteiros se oferecem para receber mulheres que venham sozinhas e até mesmo com os filhos.

RTP /
Reuters

Já chegaram ao Reino Unido mais de mil refugiados sob o programa Homes for Ukraine, mas têm sido relatadas dezenas de “falhas de correspondência”. O alerta não é novo, mas após a denúncia de vários indivíduos do sexo masculino terem alegadamente usado este esquema de acolhimento para exploração sexual de mulheres, os receios da agência para os refugiados aumentaram.

O responsável pelo ACNUR afirmou ao Guardian que devia ser implementado “um processo de correspondência mais apropriado” para garantir que mulheres que venham sozinhas ou fujam com os filhos possam ser recebidas por famílias ou casais e não alegados predadores.

Para receber pessoas que estão a fugir da Ucrânia através deste programa, os anfitriões britânicos devem entrar em contacto com os refugiados diretamente, incluindo através de grupos não regulamentos nas redes sociais.

Num comunicado, o ACNUR alertou para a necessidade de adequar medidas de verificação destes grupos e de combater tentativas de exploração.

“O ACNUR acredita que um processo de correspondência mais apropriado poderia ser implementado, garantindo que mulheres sozinhas e mulheres com filhos sejam contactadas por famílias e casais, em vez de homens solteiros”, indica o documento. “As combinações sem a devida supervisão podem levar ao aumento dos riscos que as mulheres podem enfrentar, para além do trauma do deslocamento, da separação da família e a violência que já vivenciaram”.
Facebook usado por predadores
Uma das formas de os refugiados procurarem um lar que os acolha no Reino Unido é através do Facebook, acabando por se tornar alvos fáceis para os predadores sexuais. A revelação é do Times, que investigou vários grupos desta rede social.

Uma jornalista fez-se passar por Natalya, de 22 anos, que fugia de Kiev e procurava um lar no Reino Unido. Foi bombardeada com mensagens impróprias e sexualmente sugestivas de homens. Alguns destes utilizadores mentiram ao dizer que possuíam habitações com bastantes quartos. Outro propôs à alegada requerente de asilo que dividissem a cama.

“Eu tenho uma cama grande. Podíamos dormir juntos”, dizia.

Uma outra pessoa enviou uma mensagem por áudio onde se ouvia: “Estou pronto para a ajudar e talvez me possa ajudar também”.

A falsa Natalya publicou em vários grupos a pedir um lar seguro e apoio, incluindo no Alojamentos no Reino Unido para refugiados ucranianos, e três minutos depois recebeu uma mensagem: “Está solteira?”.

Numa outra mensagem, um homem dizia que recebia Natalya mas esperava “um relacionamento físico”.

Perante as provas desta investigação, o ACNUR reiterou que é necessária formação e informação apropriada para garantir que os anfitriões “tomam uma decisão informada”.”

“Abrigar um estranho em um quarto extra por um longo período não é, para algumas pessoas, sustentável”
, disse a organização.
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