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"O meu Sangue é Palestiniano". Canção é censurada e gera protesto árabe contra plataformas de streaming
Mohammed Assaf é aos 34 anos um dos cantores mais populares do mundo árabe. Em 2013 venceu a edição árabe do programa Ídolos, sendo logo após nomeado Embaixador da Boa-Vontade pelas Nações Unidas e Embaixador das Artes e da Cultura pela Autoridade Palestiniana. Na semana passada, o cantor palestiniano voltou a ser notícia pela censura de que vem sendo alvo ao longo da sua carreira, agora por causa da canção "Ana Dammi Falastini" (O meu Sangue é Palestiniano), vista como um hino de resistência contra a ocupação israelita.
Um porta-voz do Spotify disse ao Middle East Eye (MEE), o site de notícias sobre o mundo árabe sediado em Londres, que a decisão não partiu da plataforma e passou responsabilidades ao distribuidor. A disponibilidade de certas músicas pode variar ao longo do tempo e por país, acrescentou o responsável.
“A remoção de parte do conteúdo de Mohammed Assaf não foi determinada pelo Spotify, mas sim pelo distribuidor. Antecipamos o seu regresso num futuro próximo e pedimos desculpa por qualquer inconveniente causado”, declarou ao MEE.
“A remoção de parte do conteúdo de Mohammed Assaf não foi determinada pelo Spotify, mas sim pelo distribuidor. Antecipamos o seu regresso num futuro próximo e pedimos desculpa por qualquer inconveniente causado”, declarou ao MEE.
A decisão levou já, contudo, a uma manifestação de insatisfação por parte dos fãs de Mohammed Assaf, que questionam as razões para o Spotify, mas também outras plataformas de streaming, retirar a canção “Ana Dammi Falastini”. A Apple Music e a francesa Deezer também seguiram o caminho do Spotify.
Mohammed Assaf declarava este domingo ao site de notícias The New Arab, com sede em Londres, que recebeu um email referindo que as razões dessa decisão têm a ver com “o incitamento contra Israel”.
“Recebi um e-mail oficial sobre isso, referindo o pretexto de que a canção incita o inimigo sionista, o que me deixa mais honrado por as minhas canções expressarem a resistência do povo palestiniano à ocupação”, referiu Assaf, nascido de pais palestinianos na Líbia, onde viveu até aos quatro anos até a família regressar a Gaza para crescer na cidade de Khan Younis.
Os fãs deixaram entretanto várias ameaças de boicote e exigem que a canção seja recolocada nas listas de streaming com um pedido de desculpas das plataformas digitais.
“É bom que tenham uma explicação sólida – peçam desculpa ou eu e provavelmente muitos outros cancelaremos a nossa subscrição”, refere um fã, dirigindo-se ao Spotify.
Mais importante é talvez o facto de a decisão da Apple e do Spotify ter desencadeado o debate sobre a censura de vozes palestinianas na Internet.
Por exemplo, relativamente a Mohammed Assaf, não é a primeira vez que o cantor originário da Faixa de Gaza incomoda as plataformas mainstream, vendo as suas músicas alvo de censura.
Este episódio ocorre numa semana em que, pela primeira vez, as Nações Unidas assinalaram em Nova Iorque um aniversário da Nakba, termo palestiniano para tragédia e que assinala o que os novos historiadores israelitas dizem ser os verdadeiros acontecimentos de 1948: quando o recém-formado Estado de Israel terá forçado o exílio forçado de mais de 700 mil palestinianos e destruído aldeias e vilas palestinianas e praticamente todas as suas cidades.
Israel deixou um forte voto de protesto contra a decisão da ONU, mas não teve já força para impedir que este ano de 2023 a Nakba tivesse integrado o léxico dos trabalhos da sede da organização em Nova Iorque.