"O rosto foi desfigurado". Regime talibã inaugurou uma nova era de mulheres assassinadas

"O rosto foi desfigurado". Regime talibã inaugurou uma nova era de mulheres assassinadas

Uma investigação sobre 231 casos de femicídio destaca a situação desesperada no Afeganistão, onde os homens têm poder para matar e não enfrentam punição, enquanto os seus crimes são encobertos pelo Estado.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Morteza Nikoubazl - NurPhoto via AFP

Os talibãs não recolhem dados sobre quantas mulheres afegãs são mortas a cada ano. O gabinete do procurador-geral, que costumava reunir esta informação, foi extinto em 2023.

Para medir o que o Estado se recusa a medir, os repórteres do Zan Times, um coletivo de jornalistas que trabalham infiltrados no Afeganistão, recolheram casos de mulheres assassinadas em 10 das 34 províncias afegãs desde a ascensão dos talibãs ao poder, em agosto de 2021.

A pesquisa do Zan Times, em colaboração com o jornal inglês Guardian baseou-se em 174 ocorrências relatadas pelos meios de comunicação locais, além de 57 casos documentados diretamente pelos jornalistas, mas que não tinham sido divulgados anteriormente.

A investigação revelou que mulheres em todo o Afeganistão estão a ser assassinadas em casa por maridos, pais e irmãos, num sistema que praticamente garante a impunidade para o crime. Muitos casos nem sequer são registados oficialmente.

A equipa documentou 231 casos, dos quais 53 foram declarados suicídio. As províncias com o maior número de mortes registadas foram Jawzjan (36), Herat (32), Badakhshan (28) e Ghazni (26). A idade das vítimas variava entre raparigas de apenas cinco anos e mulheres de 65 anos.

Sete em cada dez vítimas – 165 em 231 – eram domésticas sem rendimentos próprios ou apoio institucional para apresentarem queixa por violência doméstica.

A maioria dos casos ocorreu na casa da vítima. Em todo o conjunto de dados, apenas foram registadas 58 detenções. Mais de um quinto dos casos foi oficialmente declarado suicídio, mesmo quando havia fortes indícios de crime. Apenas um em cada quatro dos 231 homicídios resultou em detenção, mas mesmo nesses casos, o suspeito era frequentemente libertado – por vezes apenas um dia após a detenção.

Os repórteres encontraram vários casos de morte que, segundo familiares ou testemunhas, foram resultado de violência doméstica, mas que estavam a ser oficialmente registados como suicídios.

Uma profissional de saúde em Jawzjan afirmou que muitas das mulheres mortas que chegaram ao hospital e foram consideradas suicidas apresentavam sinais claros de espancamento, com os corpos cobertos de feridas e hematomas.

Freshta Emady, de 33 anos, funcionária de uma agência da ONU em Cabul, foi encontrada morta em sua casa no dia 31 de maio. O seu marido terá dito à polícia talibã que ela se tinha suicidado, alegando um transtorno psiquiátrico.


No entanto, a sua família e amigos acreditam que foi assassinada pelo marido. Cinco pessoas que a conheciam disseram que Freshta, que tinha sido dada em casamento aos 17 anos, passou 15 anos a ser espancada, estrangulada e controlada. Uma colega relatou que Freshta descreveu o marido a estrangulá-la repetidamente e a dizer: "Vou cortar-lhe a garganta".Perigo para as famílias que intervêmFrequentemente, as famílias de raparigas que tentam intervir em nome das filhas podem enfrentar consequências fatais.

Em Kandahar, uma rapariga de 14 anos foi morta depois de ter sido dada em casamento a um homem muito mais velho. O seu marido era violento e ela fugiu de volta para a família do pai. Quando ele a foi forçar a regressar a casa, em outubro de 2024, ela recusou. Sacou de uma pistola e matou-a. O seu irmão mais novo, que correu para a socorrer, também foi baleado e morreu uma semana depois.

Os talibãs abriram um inquérito, mas o marido, um membro ativo do grupo, nunca foi preso.


Em maio, na província de Sar-e-Pol, Sara, de 16 anos, e a mãe, Chaman, médica formada no Irão, foram mortas a tiro por um oficial local talibã que tinha forçado Sara a casar com ele. Quando Chaman se recusou a entregar a filha sem o dote combinado, espancou-a com a sua espingarda e, enquanto Sara corria para a mãe, disparou sobre as duas. Foi capturado após uma intensa busca e permanece detido.

O novo código penal dos talibãs prevê que a pena para um marido que espanca a mulher ao ponto de provocar ferimentos visíveis, como fraturas ou ferimentos, é de um máximo de 15 dias de prisão. Se uma esposa for a casa da sua família sem a autorização do marido, e a sua família não a devolver quando solicitada, a esposa e a sua família ficam sujeitas a três meses de prisão. O código cria uma estrutura legal na qual procurar refúgio da violência doméstica acarreta uma punição pior do que a própria violência.

Mesmo antes dos talibãs, as mulheres afegãs sofriam violência de género numa proporção quase três vezes superior à média global. 

O Índice de Género do Afeganistão 2024 da ONU Mulheres, publicado em junho de 2025, constatou que, em 2018, quase 35 por cento das mulheres afegãs relataram violência por parte de um parceiro no ano anterior – em comparação com a média global de 13 por cento.

Desde que os talibãs assumiram o poder, as escassas proteções existentes para as mulheres vítimas de violência foram completamente eliminadas.

Após agosto de 2021, os talibãs dissolveram o Ministério dos Assuntos da Mulher, a procuradoria especial para casos de violência contra as mulheres e a rede de abrigos do país. Cerca de 250 juízas foram destituídas dos seus cargos; promotoras foram dispensadas.

A lei afegã já não permite que uma mulher seja parte direta no seu próprio processo judicial, pelo que as mães não podem procurar justiça para as suas filhas. 

Na província de Takhar, Shamsia (nome fictício), mãe de uma jovem de 23 anos que foi esfaqueada e incendiada pelo marido em maio de 2025, disse que foi obrigada pelo tribunal local a transferir a procuração para o marido para que este pudesse prosseguir o caso, “porque uma mulher não pode ser parte direta numa petição ou processo”. Meses depois, o caso não avançou. 

Os repórteres do Zan Times não conseguiram entrevistar a maioria das famílias das mulheres assassinadas. O medo fechou muitas portas; Em várias províncias, os jornalistas receberam ameaças mesmo depois de tentarem contactá-los.

Os 231 casos deste conjunto de dados não representam o total de femicídios no Afeganistão – fornecem apenas um panorama dos potenciais assassinatos, da dinâmica que os possibilita e da impunidade de que muitos assassinos gozam.
“O rosto foi desfigurado”. O caso de Liza Shams
Numa mensagem de voz gravada semanas antes da sua morte, Liza Shams, de 33 anos, pede a um familiar que reze por ela. 

"Os meus dias de infortúnio não têm fim", diz ela. "Rezem para que Deus envergonhe Hasib [o seu marido, Hasibullah Sarwari] perante o mundo inteiro pelo que me fez". Numa segunda gravação, descreve ter sido espancada por Sarwari enquanto estava grávida, mantida isolada durante dias e ferida ao ponto de não conseguir comer ou falar. "Sou uma mulher, tudo bem, não devia falar sobre o que acontece em minha casa", diz. "Mas não aguento mais."

Na tarde de 1 de fevereiro, os vizinhos de Liza ouviram gritos e alertaram a polícia. 

Pouco antes, o pai de Liza, Shamsuddin Shams, tinha recebido uma videochamada da filha. Os ferimentos eram chocantes: "O maxilar dela estava partido e mal conseguia falar", conta, mas ela conseguiu passar a mensagem de que o marido a tinha agredido novamente. Shamsuddin ligou imediatamente para as suas outras duas filhas, que viviam perto, e estas foram até à casa e levaram-na para o hospital de Rahmat, em Cabul. Cerca de uma hora após a chegada, Liza faleceu.

O relatório de óbito mostra que o rosto de Liza estava desfigurado. 
Os resultados da tomografia computorizada descrevem múltiplas fraturas nos ossos da face e nas paredes dos seios perinasais, um padrão de lesões compatível com um traumatismo contundente de grande magnitude na face. Fotografias do seu corpo e o exame físico, realizado na noite da sua morte, documentam extensas contusões, ferimentos e inchaço por todo o rosto e corpo.

Apesar da gravidade dos ferimentos, o relatório pericial aponta a ingestão de veneno para ratos como a causa provável da morte, referindo que a autópsia não foi realizada a pedido da família (o pai de Liza afirma que o pedido partiu dos sogros).

A família do marido não respondeu às perguntas, mas alega que Liza se suicidou e que os hematomas no corpo são um efeito secundário do veneno. 

O suicídio é frequentemente apontado como causa de morte no Afeganistão em casos de mulheres que morrem em circunstâncias violentas – uma designação que geralmente significa que ninguém será responsabilizado pela morte. O pai de Liza acredita que a sua morte foi um assassinato.

O caso de Liza Shams será provavelmente decidido por um tribunal talibã.
O pai, que tem poucas esperanças de que alguém seja responsabilizado, recorreu às redes sociais, publicando gravações, imagens do hospital e documentos numa campanha por justiça para a filha.

Shams afirma que falar abertamente já teve um preço. As filhas, que levaram Liza ao hospital, foram posteriormente convocadas pelos talibãs e estão agora escondidas. "É porque falamos com a imprensa que os talibãs não querem que questões como esta se tornem públicas."

Entre as gravações divulgadas pelo pai está uma mensagem de voz que Liza enviou ao cunhado, na qual fala sobre o seu casamento e a sua vida.

"Sinto que estou a sufocar", diz ela. “Sofro com estas coisas. Vou tentar todos os dias, vou tentar todos os dias, mas isto não está a resultar. A nossa vida não pode continuar assim. Não quero que a nossa vida seja amarga. Os meus filhos estão a crescer, vão olhar para nós e ver que estamos a discutir. Mas não pode continuar assim.”
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