Obama defende a "guerra justa" no discurso de Oslo

Um preâmbulo de "grande humildade" e uma longa apologia da "guerra justa", contra "um adversário que não conhece regras", cunharam esta quinta-feira, em Oslo, a intervenção de Barack Obama na cerimónia de entrega do Nobel da Paz. Ao receber o Prémio, o Presidente dos Estados Unidos reconheceu a "considerável controvérsia" gerada pela decisão do Comité.

RTP /
Barack Obama recebeu a medalha e o diploma, acompanhados de um cheque de dez milhões de coroas (um milhão de euros) Sigurdson Bjorn, EPA

Nas imediações do Instituto Nobel, em Oslo, uma faixa erguida por activistas dos Direitos Humanos resumia esta quinta-feira a ambivalência suscitada pela escolha do Comité norueguês: "Obama, ganhaste o Prémio. Agora merece-o".

Ao atribuir o Prémio Nobel da Paz de 2009 ao primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos, o Comité quis, antes de mais, fazer "um apelo à acção em nome de todos", capitalizando as esperanças de um desanuviamento das Relações Internacionais, após os oito anos da Administração republicana de George W. Bush. Foi essa a pedra de toque do discurso de Thorbjørn Jagland , que antecedeu a entrega do galardão. A História, justificou o presidente do Comité Nobel, "está cheia de ocasiões perdidas": "É agora, hoje, que temos a oportunidade de apoiar as ideias do Presidente Obama".

Os críticos da decisão, como reconheceu Jagland, consideram que o Prémio "chega demasiado cedo". O Nobel da Paz é atribuído apenas nove dias depois de Barack Obama ter decidido destacar mais 30 mil soldados para o Afeganistão, uma das duas frentes de combate de um Presidente em guerra. Longe de reunir a unanimidade, a escolha do Comité é também um factor de fractura nos Estados Unidos, onde os estudos de opinião mostram que dois em cada três norte-americanos entendem que o sucessor de Bush ainda não deu provas de merecer a distinção.

"Profunda gratidão e grande humildade"

Pouco antes do início da cerimónia, durante uma conferência de imprensa, Barack Obama ensaiou o discurso oficial, deixando uma primeira nota de "grande humildade". Depois de salientar que "outros seriam mais merecedores", o Presidente norte-americano não tardou em defender algumas das grandes linhas para a política internacional da sua Administração, do combate ao aquecimento global aos esforços para travar a proliferação de armamento nuclear. Na primeira linha, a cada vez mais improvável estabilização do Afeganistão.

O objectivo, sublinhou Obama, "não é ganhar uma prova de popularidade, ou receber um Prémio, mesmo se é assim tão prestigioso como o Prémio Nobel da Paz". "Se for bem sucedido nas minhas missões, espero que as críticas diminuam de intensidade. Se falhar, nenhum cumprimento ou prémio no Mundo poderão esconder o fracasso".

Já com a medalha nas mãos, Barack Obama começou por se dizer "honrado" e tomado de uma "profunda gratidão e grande humildade". O Prémio, assinalou, "fala às nossas maiores aspirações, de que, mesmo com toda a crueldade e dificuldade do nosso Mundo, não somos meros prisioneiros do destino": "As nossas acções importam e podem dobrar a História na direcção da justiça".

"E no entanto seria omisso se não reconhecesse a considerável controvérsia que a vossa generosa decisão gerou. Em parte, isto acontece porque estou no início, não no fim, do meu trabalho no palco do Mundo. Em comparação com alguns dos gigantes da História que receberam este Prémio, Schweitzer e King, Marshall e Mandela, as minhas conquistas são pequenas", aquiesceu.

"Regras de conduta" onde "a força é necessária"

O Presidente norte-americano lembrou, depois, "os homens e as mulheres em todo o Mundo que foram aprisionados ou agredidos na luta pela justiça, aqueles que trabalham em organizações humanitárias para aliviar o sofrimento, os milhões sem reconhecimento cujos actos silenciosos de coragem e compaixão inspiram até os cínicos mais empedernidos". "Não posso discutir com aqueles que consideram estes homens e estas mulheres, alguns conhecidos, outros desconhecidos por todos menos aqueles que ajudam, bem mais merecedores desta honra do que eu".

Concluído o preâmbulo, Obama passou ao tema da guerra, que admitiu ser "a questão mais profunda em torno" do Prémio Nobel. Uma das frentes herdadas da Administração republicana, o Iraque, "está a acalmar", argumentou o Presidente dos Estados Unidos, 48 horas depois de uma série de acções terroristas coordenadas terem causado mais de 120 mortos em Bagdade. A outra frente, o Afeganistão, "é o conflito que a América não procurou". Uma guerra, disse, em que a América "é acompanhada por outros 43 países, incluindo a Noruega, num esforço para defender todas as nações de futuros ataques".

"Onde a força é necessária, temos um interesse moral e estratégico em estarmos vinculados a certas regras de conduta. E mesmo quando enfrentamos um adversário feroz que não conhece regras, acredito que os Estados Unidos da América devem continuar a ser portadores de padrões na conduta de guerra", vincou Barack Obama.

"Noções da guerra justa"

Adiante Barack Obama frisou: "Não trago, hoje, uma solução definitiva para os problemas da guerra. O que eu sei é que ir ao encontro destes desafios vai exigir a mesma visão, trabalho árduo e persistência dos homens e mulheres que agiram tão corajosamente há décadas. E vai exigir que pensemos de outra maneira sobre as noções da guerra justa e dos imperativos de uma paz justa".

Na condição de "única superpotência militar do Mundo", acrescentou o Presidente norte-americano, a América suscita, hoje, "suspeição".

Ainda assim, Obama reitera que os Estados Unidos não podem actuar a sós perante os desafios globais. Um conceito que abarca, a um tempo, a guerra e a paz, a economia global e a diplomacia mais ou menos musculada, de mira apontada a países como o Irão e a Coreia do Norte, parte do "eixo do mal" outrora enunciado por George W. Bush: "Os regimes que quebram as regras devem ser responsabilizados. Cabe-nos insistir para que nações como o Irão e a Coreia do Norte não joguem com o sistema. Aqueles que procuram a paz não podem permanecer indiferentes enquanto há nações que se armam para uma guerra nuclear".

Operação de segurança sem precedentes

Milhares de pessoas preencheram as ruas de Oslo para saudar o Presidente dos Estados Unidos. Os grupos de activistas foram mais reduzidos, mas fizeram-se ouvir. Alguns ambientalistas instaram Obama a colocar a sua assinatura num acordo ambicioso para o combate às alterações climáticas, quando tomar, em breve, o seu lugar na conferência de Copenhaga.

As autoridades da Noruega prepararam a maior operação policial da história do país para a recepção a Barack Obama. Apertados controlos nas fronteiras, aviões de combate e de vigilância e helicópteros formaram o dispositivo. Em redor de Oslo, foram instaladas baterias de mísseis terra-ar.

"Entendemos que Obama recebeu o Prémio de forma prematura, mas agora que o tem é preciso que se mostre digno", afirmou à France Presse Benjamin Endré Larsen, dirigente da organização Fredsinitiativet, um dos movimentos por detrás das manifestações em Oslo.

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