Obama em Lisboa. Desafio da IA, guerra e "humanidade comum"

Obama em Lisboa. Desafio da IA, guerra e "humanidade comum"

O antigo Presidente norte-americano Barack Obama esteve este sábado em Lisboa, onde foi o orador principal na sexta edição do Game Changers Forum.

RTP com Lusa / Adicionar como fonte informativa
Fotos: Nuno Ramos - Game Changers 

Obama começou a sua intervenção a agradecer em português ao público, que o aplaudia de pé, e recordou que a sua administração foi a que teve mais luso-americanos, como o diretor político, o secretário da Energia ou o fotógrafo oficial. E, "mais importante", os seus dois cães Bo e Sunny, da raça cão de água português.

Obama abordou vários temas da atualidade e, a um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos, Obama lembrou que presidentes não podem começar guerra sem aprovação do parlamento.

"Tecnicamente, um presidente não pode começar uma guerra sem aprovação do parlamento", comentou, recebendo fortes aplausos da audiência, durante a conversa no Meo Arena.

Obama, que ocupou a Casa Branca durante dois mandatos, entre 2009 e 2017, e recebeu o Nobel da Paz em 2009, não se referiu explicitamente ao atual Presidente norte-americano, Donald Trump, que não pediu autorização legislativa para desencadear os ataques contra o Irão.

O antigo Presidente democrata fez este comentário quando recordava "um dos problemas mais difíceis" que enfrentou nos seus mandatos: a guerra civil na Síria, onde o ex-ditador Bashar al-Assad estava "a matar o próprio povo".

Obama descreveu que se encontrava perante um dilema: como aliviar o sofrimento do povo sírio, mas respeitando a lei internacional, porque a Síria não tinha atacado os EUA e por isso não era possível "tomar uma ação para proteger as pessoas".

"Havia temas ligados à nossa Constituição", mencionou.

Obama reconheceu que, para a maioria das decisões que tomou, "não havia uma resposta clara, porque eram problemas difíceis".

Também relatou que trabalhou para travar as armas nucleares, nomeadamente com acordos com o Irão, que Donald Trump revogou.

"Não se pode ter um modelo sem intervenção humana a decidir quando lançar uma arma nuclear. É uma decisão de várias pessoas e não apenas de uma",
salientou.
Inteligência Artificial e o desafio da coordenação
"Ainda não temos as guias de segurança de que precisamos. (A regulação) tem de começar nos Estados Unidos, a China é outro país", comentou o antigo presidente.

Obama apontou EUA e China como os países mais avançados em termos de inteligência artificial (IA), mas ressalvou que "não há neste momento muita confiança entre eles".

"Temos de regular e coordenar entre nações e isso vai ser um grande desafio", comentou.

O antigo Presidente democrata advertiu que a evolução tecnológica vai provocar "uma enorme mudança, a nível económico, social e político, mas vai acontecer em 10 anos, não em 30 ou 50 anos".

"O problema", disse, "é que a tecnologia move-se muito depressa, mas os governos e as sociedades movem-se devagar", defendendo a necessidade de criar "um quadro regulatório" para responder a "assuntos sérios sobre segurança".

Os modelos de inteligência artificial avançam em três meses e ensinam-se a si próprios, acrescentou.

"Alguém pode entrar no sistema financeiro ou de controlo de tráfego aéreo. Alguém pode desenvolver uma nova pandemia, um patógeno", comentou.

Mas, sublinhou, há realidades em que as máquinas nunca poderão substituir os humanos, como a educação ou cuidados de enfermagem.

"O problema é que, como sociedade, desvalorizámos essas profissões", afirmou. "Temos de reavaliar o que valorizamos e o que tem maior posição nas nossas sociedades", considerou.

Além disso, sublinhou, "outra coisa que as máquinas não podem fazer é ter discernimento e sabedoria".

"Há coisas em que há uma solução muito estreita e em que as máquinas serão melhores", admitiu, salientando que "o que é unicamente humano é ter discernimento sobre o que é importante na vida: amizade, família, cuidar de alguém, mesmo que seja um estranho, ter um sentido de perspetiva".

"Talvez a máquina pense que deve fazer da forma mais eficiente, mas se calhar não queremos eficiência em certas coisas", acrescentou.
Obama pede líderes que reconheçam "humanidade comum" 
O antigo Presidente norte-americano Barack Obama defendeu hoje, em Lisboa, a necessidade de líderes políticos que reconheçam uma "humanidade comum", lamentando a "nostalgia" da "América real" que se observa hoje nos Estados Unidos.

"O que precisamos agora é (de líderes) que representem o seu próprio povo e apreciem as tradições, cultura e história, mas também que vejam que quem está noutro país também tem esperanças e sonhos, que temos uma humanidade comum, mais do que desconfiança", afirmou o antigo líder democrata.

"É o tipo de liderança de que precisamos no palco internacional", insistiu.

Nos Estados Unidos, referiu, "tem havido um esforço de dizer que há uma América real, uma nostalgia de quando as pessoas negras eram silenciosas e não estavam na Casa Branca e as mulheres sabiam o seu lugar, na cozinha e em casa", recebendo fortes aplausos.

"O que precisamos agora é de líderes suficientemente confiantes que digam: 'eu quero viver num mundo onde as minhas filhas têm as mesmas oportunidades que os meus filhos, onde o meu vizinho não me ameaça e eu não sinto que tenha de ser superior'", comentou.

"Precisamos desse impulso democrático na nossa liderança e de líderes que compreendem os valores da democracia e da igualdade", salientou, acrescentando que são necessárias também "novas instituições que possam mover-se mais depressa para realmente entregar resultados às pessoas".

c/Lusa

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