Obama vai nomear equipa "centrista" para a segurança e diplomacia

** José Pestana, da agência Lusa **

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Washington, 26 Nov (Lusa) -- O presidente eleito norte-americano, Barack Obama, vai anunciar nos próximos dias uma equipa de segurança e diplomacia caracterizada pela presença de elementos "centristas", senão mesmo conservadores, provocando já protestos de alguns dos seus apoiantes.

Se o nome mais famoso da lista, a ser anunciada sexta ou segunda-feira, é o de Hillary Clinton para Secretária de Estado, a continuação de Robert Gates na Defesa, a nomeação do General na reserva James Jones para o importante posto de Conselheiro de Segurança Nacional e a do Almirante na reserva Dennis Blair para director dos Serviços de Informações (National Intelligence) indicam claramente que Obama continua a fazer escolhas baseadas mais na experiência e capacidade intelectual dos candidatos do que na lealdade política.

"Esta equipa dá a Obama experiência na burocracia e credibilidade junto dos militares, embora possa levar a críticas da esquerda do seu partido de que se trata de uma equipa de falcões e muito menos revolucionária do que aquilo que os seus apoiantes esperavam," comentou o jornal Politico, especializado na cobertura da cena política norte-americana.

Enquanto senadora, Hillary Clinton votou a favor da guerra no Iraque e durante a campanha eleitoral disse que, como presidente, não hesitaria em atacar o Irão caso este país atacasse um dos aliados dos Estados Unidos. Hillary Clinton criticou também Obama por este ter defendido o princípio de um diálogo sem condições prévias com Teerão

Melvin Goodman, que durante 25 anos foi analista dos serviços de espionagem (CIA) e que se tornou num acérrimo crítico da administração Bush, disse que as escolhas de Obama "apontam para a continuidade e não para mudanças na política de segurança nacional".

"A manutenção de Gates por qualquer período de tempo indica o apoio de Obama a políticas que ele próprio questionou em público," escreveu Goodman no diário Washington Times.

Goodman fez eco de acusações de que durante a administração Bush houve uma crescente militarização da diplomacia dos Estados Unidos, afirmando que Obama deveria "fortalecer o papel da Casa Branca na definição da política dos Estados Unidos e assegurar que é o Conselho de Segurança Nacional que coordena a aplicação dessa politica", já que "demasiado poder está nas mãos dos militares".

Analistas consideram que a crescente simbiose do Departamento de Defesa com a diplomacia, particularmente no envolvimento em programas de reconstrução, deverá continuar. O General na reserva James Jones é conhecido por defender a teoria de que os militares têm que ser mais do que apenas forças de combates, envolvendo-se em operações de reconstrução e ajuda.

Jones foi, aliás, um dos principais promotores do recém-criado Comando Africano (Africom) do Pentágono, que, ao contrário dos outros comandos regionais, engloba ao mais alto nível pessoal do Departamento de Estado e de agências de ajuda do governo norte-americano.

Mas Jones traz para o importante posto de Conselheiro de Segurança Nacional algo a que Obama dá grande importancia, nomeadamente, o conhecimento pessoal da realidade internacional .

James Jones cresceu em França, dominando o francês. Enquanto comandante supremo da NATO esteve estacionado na Alemanha e nessa posição deslocou-se várias vezes a países africanos para explorar a possibilidade da criação do Africom. Foi ainda enviado especial para o Médio Oriente do Presidente George Bush.

A presença de Jones, a manutenção de Gates na defesa e a nomeação do Almirante Blair para a "intelligence" servirá tambem para tornar mais fáceis as relações do novo presidente com os comandos militares, numa altura em que Obama terá que tomar decisões difíceis quanto ao Iraque e Afeganistão.

Um aspecto intrigante da máquina burocrática da segurança nacional e diplomacia dos Estados Unidos é que não existe uma hierarquia estabelecida, pelo que os três elementos dessa burocracia (Departamento de Estado, conselheiro de Segurança Nacional e Departamento de Defesa) entram frequentemente em choque.

Todos aqui fazem notar as lutas por influência na administração Bush entre o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld (apoiado pelo vice-presidente Dick Chenney), o Departamento de Estado de Colin Powell e a então conselheira de Segurança Nacional Condoleezza Rice.

David Gergen, antigo conselheiro político dos presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton disse à cadeia de televisão CNN que, em discussões de política externa, "todos os egos estão na mesma sala e pelo menos em um ou dois casos há sempre quem pense que só o seu ego é que deve ocupar a sala".

Para além de Hillary Clinton, James Jones e Robert Gates, Obama vai ter ainda que decidir qual o papel que vai dar ao seu vice-presidente Joe Biden, que foi escolhido precisamente pelos seus conhecimentos de política externa.

Embora ninguém preveja que Biden queira construir uma "presidência paralela", como foi descrita a actual vice-presidência de Dick Chenney, ninguém espera também que o vice-presidente volte a ter o papel diminuto do passado de - como disse o antigo vice-presidente Al Gore - "ir a inaugurações, funerais e perguntar diariamente pela saúde do presidente".

É neste choque de personalidades, ideias e interesses burocráticos que assenta a importância do Conselheiro de Segurança Nacional como coordenador de todas essas posições e informaçoes.

Paul Begala, um dos conselheiros políticos de Barack Obama durante a campanha eleitoral, disse à CNN ser por isso que considera a escolha de James Jones como acertada.

"Não há ninguém mais forte que um general de quatro estrelas dos fuzileiros. Ele vai ter a capacidade de juntar esta equipa de rivais e de os pôr a trablhar em conjunto," disse Begala.

Barack Obama deverá tambem anunciar a nomeação de Susan Rice para embaixadora nas Nações Unidas, James Steinberg para vice-Secretário de Estado e provavelmente Tom Donilon para vice-conselheiro de Segurança Nacional. Os três trabalharam para o presidente Bill Clinton. Rice foi secretária de Estado adjunta para assuntos africanos, Steinberg foi vice-conselheiro de Segurança Nacional e Donilon foi chefe de gabinete do secretário de Estado Warren Christopher.

Lusa/Fim


PUB