Ofensiva dos EUA é teste à presença da China na América Latina alertam analistas chineses
A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela representa um teste à crescente presença da China na América Latina, alertam analistas chineses, perante o risco de retração regional suscitado pelo retomar da Doutrina Monroe por Washington.
Num ataque surpresa no sábado, forças norte-americanas realizaram uma operação de precisão na Venezuela, capturando o Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a esposa, que foram transportados para Nova Iorque. Sem apresentar calendário para novas eleições, o Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que Washington vai "assumir a gestão" do país e tornar-se "presença chave" na sua indústria petrolífera.
A ação, a mais direta intervenção militar norte-americana na região em quase 40 anos, foi interpretada como parte de uma estratégia mais ampla de contenção da presença chinesa na América Latina, onde Pequim tem aprofundado laços através de investimentos em infraestruturas, cooperação financeira e tecnológica.
"A competição entre China e EUA em países terceiros, especialmente no hemisfério ocidental, que Trump valoriza imensamente, tende a tornar-se mais direta e intensa", afirmou Zhao Minghao, diretor-adjunto do Centro de Estudos Americanos da Universidade de Fudan, em Xangai, citado pela imprensa local.
O académico espera que Washington alargue a pressão sobre Pequim para além da economia e comércio, afetando também os setores tecnológico e de segurança.
Zhao considera que a cooperação da China no âmbito da Iniciativa Faixa e Rota poderá ser particularmente atingida: "Não se trata apenas de infraestrutura, mas também de comércio, finanças e relações estratégicas".
Nas últimas décadas, a China ampliou a presença na região, estabelecendo parcerias com grandes economias como o Brasil e posicionando-se como voz influente do Sul Global. A nova estratégia de segurança norte-americana sublinha, porém, o objetivo de impedir que potências não ocidentais ganhem terreno nas Américas, recuperando o princípio da Doutrina Monroe, uma política de relações externas dos Estados Unidos, proclamada em 1823 pelo então Presidente James Monroe.
Nas últimas semanas, vários países sinalizaram um realinhamento. A Argentina assegurou um pacote de ajuda de 40 mil milhões de dólares (34 mil milhões de euros) dos EUA, após suspender projetos espaciais e de telecomunicações apoiados por Pequim. A Bolívia anunciou a revisão de contratos de lítio com a China e a Rússia.
O ataque à Venezuela gerou reações mistas. O Chile expressou "profunda preocupação", a Colômbia reforçou medidas de segurança fronteiriça, e o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, criticou os EUA por atentarem contra a soberania venezuelana.
Cui Hongjian, diretor de Estudos Europeus na Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, alertou para os riscos de uma retração regional face à China. "Se Maduro for usado como tiro de aviso, o efeito dissuasor pode ser generalizado", disse.
"A prioridade para Pequim passa por salvaguardar os investimentos e relações construídas ao longo dos últimos anos", acrescentou.
A crescente dependência chinesa da América do Sul para abastecimento agrícola, sobretudo em contexto de guerra comercial com os EUA, poderá também ser afetada. Segundo o analista Ren Yi, popular comentador sob o pseudónimo "Tuzhuxi", a América Latina pode tornar-se um dos principais focos de fricção indireta entre Washington e Pequim em 2026.
"O espaço para confronto direto entre China e EUA pode ser limitado, mas a competição será cada vez mais canalizada para países terceiros", escreveu.