Oito em cada 10 mortos em ações policiais no Brasil são negros diz relatório
Oito em cada dez pessoas mortas em 2025 em ações policiais em nove estados brasileiros monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança eram negras, segundo relatório divulgado na quarta-feira.
O estudo "Pele Alvo: Entre Racismo e Letalidade, o Amanhã" mostra que 86,3% das vítimas com raça identificada eram negras (pretos e pardos) entre as 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial registadas.
A Rede de Observatórios, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) afirma que esse total de mortes representa aumento de 6,4% em relação a 2024 e constitui o maior número da série histórica iniciada em 2019.
Desde o início do monitoramento foram contabilizadas 28.799 mortes provocadas por policiais nos nove estados acompanhados pela organização entre 2019 e 2025.
O levantamento reúne dados das secretarias estaduais de segurança pública do Amazonas, Baía, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, estados onde a rede está presente.
A Baía registou o maior número absoluto de mortes com 1.570 vítimas seguida por São Paulo com 834, Rio de Janeiro com 800, e Pará com 632.
Segundo o relatório a desproporção racial aparece em todos os estados monitorados com participação de vítimas negras superior ao peso dessa população em cada unidade da federação.
No Amazonas pessoas negras representam 73,7% da população, mas responderam por 96% das mortes decorrentes de intervenção policial enquanto Pernambuco registrou 94,4% Bahia 93,9% e Pará 93,3%.
O estudo afirma que pessoas negras tiveram em média quatro vezes mais probabilidade de morrer em ações policiais do que pessoas brancas nos estados analisados.
Em Pernambuco esse risco foi 11 vezes maior do que para brancos enquanto no Rio de Janeiro chegou a ser seis vezes superior segundo os pesquisadores.
Os jovens permaneceram como principal grupo atingido pelas ações policiais com 64,8% das vítimas tendo até 29 anos, sendo que entre os mortos do ano passado estavam 310 adolescentes de 12 a 17 anos.
Os autores do estudo afirmam que a concentração de mortes entre jovens negros revela uma política de segurança baseada no confronto bélico e com impacto sobretudo sobre moradores de periferias e favelas.
Para o coordenador da pesquisa da Rede Observatórios da Segurança, Jonas Pacheco, e especialista em ciências sociais e segurança pública, os números são "assustadores e assombrosos".
"Então, o desafio é olhar para o futuro dessa juventude, desses jovens moradores de periferia, homens, jovens, negros", afirmou em entrevista à Lusa.
"Como que a gente consegue consolidar e reestruturar uma ressignificação social para que essas pessoas consigam ter os seus direitos assegurados, a sua vida assegurada e alguma perspetiva de dignidade preservada para o futuro", realçou.
Para o especialista, um dos caminhos para redução da letalidade policial seria a melhor articulação entre os órgãos do sistema de Justiça e o controle da atividade da polícia, mas que ainda assim, "falta vontade política".
Jonas Pacheco também defendeu o uso de câmaras corporais nos agentes, como já acontece, em alguns estados brasileiros, e reiterou a importância de fiscalizar essas gravações.