Oito mortos durante pilhagens nas Filipinas

O desespero cresce nas zonas da Filipinas afetadas pelo tufão Haiyan, à medida que desaparecem os alimentos e a água potável e na quase ausência de auxílio apesar dos esforços. As forças governamentais tentam manter a ordem, no meio do caos e do odor dos corpos, em decomposição entre os escombros e ainda por recolher, mas a missão é cada vez mais difícil. Uma multidão assaltou esta quarta-feira um armazém onde se guardava arroz em Alangalang, perto de Tacloban, e oito pessoas morrerem na queda de um dos muros do edifício.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Os filipinos pedem ajuda que tarda em chegar, cinco dias após a passagem do tufão Haiyan Reuters

A multidão levou mais de 100 mil sacos de arroz de 50 quilos cada, de acordo com Rex Estoperez, porta-voz da Autoridade Nacional da Alimentação. Estoperez disse que a polícia e os soldados que guardavam o local foram totalmente dominados.Desde a tempestade, há cinco dias, foram já pilhadas milhares de casas, de garagens e de centros comerciais, por pessoas desesperadas por comida ou abrigo. Em Tacloban foi instaurado o recolher obrigatório e foram ali colocados centenas de soldados e de polícias, além de quatro carros blindados.

"A pilhagem não é crime. É sobrevivência", reagiu o administrador da cidade de Tacloban, Tecson John Lim.

Mas se a situação em Tacloban é aflitiva, noutras ilhas mais pequenas poderá ser ainda pior. "Há muitas e penso que vamos precisar de dias, se calhar de semanas, para fazer uma avaliação precisa das necessidades", diz Patrick Fuller, porta-voz da Cruz Vermelha.

Começam também a circular rumores de bandos armados organizados e o governo filipino estará preocupado com assaltos a comboios de ajuda humanitária por parte de alegados grupos comunistas rebeldes locais.
Pânico instala-se
Também na quarta-feira um grupo de sinistrados provocou confrontos no aeroporto meio arruinado de Tacloban, tentando embarcar à força num dos poucos aviões militares que traz auxílio humanitário e que levanta carregado de vítimas. Uma menina de sete anos desmaiou na pressão dos corpos. "Estamos aqui há três dias, mas continuamos sem número para apanhar um voo", explicou a mãe à France Presse. "Se calhar vamos morrer de fome", acrescenta.

"Estão todos a entrar em pânico. Dizem que não há comida, não há água, querem partir daqui", comentou a capitã Emily Chang, que trata os feridos como pode, num hospital de campanha montado no aeroporto.

A alegria e o alívio de uma mãe ao chegar a Manila, vinda de Tacloban, Filipinas; a população anseia fugir da devastação causada pelo Haiyan (Reuters)

Ao aeroporto de Tacloban, muito limitado, juntaram-se agora mais dois, limpos de destroços e tornados operacionais, o que poderá acelerar o socorro. Os ferries também não chegam para as necessidades, pelo que o auxílio da comunidade internacional tem chegado a conta-gotas.

No terreno, as pontes foram varridas pela água e as estradas estão cheias de escombros, o que atrasa ainda mais a distribuição de bens.

Canos subterrâneos foram desenterrados pelas populações de Tacloban, Filipinas, em busca de água para lavar roupa e cozinhar, cinco dias após a passagem do tufão Haiyan (Reuters)

Uma flotilha de navios de guerra ocidentais carregados de ajuda humanitária está a caminho, incluindo o porta-aviões norte-americano George Washington, com 7.000 homens e auxilio médico e mantimentos, mas deverá levar ainda dias a chegar.
Número de mortos revisto em baixa
A ONU calcula que deverá necessitar de 301 milhões de dólares (225 milhões de euros) para fazer face à tragédia. Acredita ainda que mais de 11 milhões de pessoas, um terço da população filipina, terão sido afetadas pelo tufão e que pelo menos 673.000 foram deslocadas.

As igrejas tornaram-se locais de refúgio para milhares de sobreviventes do tufão Haiyan nas Filipinas (Reuters)

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que cerca de três milhões perderam temporária ou definitivamente os meios de subsistência.

O mais recente balanço oficial aponta 2.275 mortos e 80 desaparecidos mas há milhares de corpos ainda por enterrar nas cidades destruídas e dezenas de localidades onde o socorro ainda não chegou.

A falta de sacos mortalha atrasou a recolha de corpos e algumas populações recorreram a valas comuns. O cheiro dos corpos em decomposição é insuportável.

O governo diz agora que já tem 4.000 sacos e que não deverão ser todos necessários, já que o número de vítimas está a ser revisto em baixa.

As primeiras estimativas apontavam mais de 10.000 mortos só na capital da ilha de Leyte, Tacloban, que ficou praticamente destruída. Mas o Presidente Aquino diz agora que o número deverá ser consideravelmente mais baixo, menos de três mil mortos. As dificuldades de recolha dos corpos e a possibilidade de muitos terem sido arrastados pelas águas dificulta, contudo, os cálculos.
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