OLÍMPICOS - CRÓNICA DE BASTIDORES "O mérito de um cigarro"

Nenhum o tem, literalmente. Um cigarro, em si, podia até ser o símbolo do demérito e ninguém se zangava. Mas, no meu caso de fumador que cobre Jogos Olímpicos, acaba por conquistá-lo numa peculiaridade.

João Pedro Mendonça RTP /
Foto: Ricardo Passos Mota - RTP

Desde Sidney 2000 que lhes encontro uma utilidade. Um fumador, para apaziguar o vício, tem que percorrer as instalações olímpicas antes de quase todos para perceber, naquelas construções enormes, feitas para servir multidões e marcar o status do país organizador, em que canto escondido se fuma. Assim, sou sempre dos primeiros a conhecer os cantos à nova casa, as regras de passagem pela segurança, onde mora a televisão deste ou do outro sítio. A ver caras repetidas. Porque os fumadores partilham as mesmas necessidades com relativa frequência, antes de quase todos os outros ganham familiaridade com novos rostos. Assim unidos pela fragilidade do vício, em mais lado olímpico algum me habituei a tão rapidamente criar laços, como se escreve em "O Principezinho", entre turcos, alemães, americanos, russos e sei lá que mais. Unidos pela necessidade, num curto espaço mas durante algum tempo, quanto muito separa-nos o tipo de tabaco. Até o distinto odor se mistura numa nuvem comum de fumarenta comunidade. Quem dera à politica conseguir uma plataforma de igualdade tão rápido assim.

Em Tóquio, ainda antes de me autorizarem a ir trabalhar para o neu escritório oficial, foi já assim que fiz os meus primeiros amigos. Smoke friends. No fumódromo do hotel, assim chamo à guarita que temos para usar, o Markus, finlandês descontraído de metro e noventa, loiro como manda a lógica, de olhos azul marinho e cansados, foi o meu primeiro contacto olímpico. Ele, ao terceiro cigarro, já sabe onde fica Monsanto e hoje mesmo, já me disse que irá lá para que a filha - os olhos riram-se e ganharam humidade quando falou nela - desenhadora inveterada, a possa retratar.

Foi ele quem me deu a boa nova: há colegas dele que já cumpriram os 14 dias de quarentena férrea e, imagine-se, já estão a ir à cidade jantar! Luxo longínquo, entrar no Metro e ir beber do sabor de Tóquio, poder mostrá-lo... deixou-me a salivar. Mas, sobretudo, fiquei animado com a novidade de estar, eventualmente, a 10 dias de poder ter a Liberdade de ver para mostrar.
 
A segunda amizade fumada chama-se Sonja. Terá uns 58 anos, cabelo cinza e curto, tês e ascendente javanês, um sorriso encantador. Já me explicou que a cor de praia se ganha no sol japonês, que há um terraço ao ar livre onde se fuma no Internacional Broadcast Center onde ela já passa os dias e onde irei "morar". Que os procedimentos de segurança já se fazem com fluidez, que o transporte olímpico funciona bem e que a Televisão alemã já tem equipas a trabalhar numa quase normalidade. Mesmo que uns 40% tenham optado por narrar as modalidades sem vir a Tóquio, disse com ar pesaroso. Quando lhe expliquei que essa é a nossa realidade desde que o "Mundo existe", primeiro franziu a testa e depois libertou o tal sorriso encantador:

Ah... o orçamento. Sim, estamos tão entre iguais nos cigarros que, brevemente, nos esquecemos das diferenças que retomamos com um sorriso sentido quando se apaga... o cigarro.

Curioso: estou a acabar esta crónica em pleno fumódromo. Sentado no chão, num canto, acaba de entrar o Markus. Vem ao telefone. Imita-me. Deixa-se descair e está agora sentado, de perna estendidas. Ocupa metade do espaço. O meu cigarro acabou. Aceno uma despedida e ele responde com um sorriso de olhos. Estão húmidos, como o clima de Tóquio. Estava capaz de apostar, por isso e pelo tom meigo e quente da voz, que está a falar com a ... futura desenhadora de Monsanto.



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