OMS. "Ensaio clínico" na população de um país sem saída

OMS. "Ensaio clínico" na população de um país sem saída

Foram enviadas para a República Democrática do Congo (RDC) milhares de vacinas que combatem uma estirpe do Ébola que não é a que está a matar pessoas naquele país. A Organização Mundial da Saúde anuncia que 20.000 doses são "destinadas a um ensaio clínico de fase 3 que visa avaliar o impacto da vacina Ervebo sobre o vírus Bundibugyo" que assola a RDC.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Elementos da equipa de Proteção Civil equipados com equipamento de proteção individual. Foto: Gradel Muyisa Mumbere - Reuters

No entanto, esta Ervebo está apenas aprovada contra a estirpe Zaire do vírus que não foi identificada na República Democrática do Congo (RDC). Também vão ser enviadas “50.000 doses para os trabalhadores da linha da frente e os profissionais de saúde” na RDC, explicou a OMS num comunicado.Os especialistas da OMS ainda não sabem se a Ervebo protege contra a estirpe Bundibugyo nos seres humanos.

A 7 de agosto, a OMS recomendou que se avaliasse, num ensaio clínico, a Ervebo, produzido pela empresa farmacêutica norte-americana Merck

Os primeiros dados obtidos em laboratório e em animais sugerem que poderá oferecer alguma proteção.

Uma semana depois da recomendação da OMS, a RDC solicitou o fornecimento de vacinas Ervebo provenientes do stock mundial do Grupo Internacional de Coordenação (GIC) para o Abastecimento de Vacinas.

A resposta surgiu no dia 17, segunda-feira, quando “o GIC informou o governo da RDC de uma primeira disponibilização imediata de 70.000 doses”, indica a OMS no comunicado.

No entanto, “é essencial que as pessoas a quem a vacina é proposta, no âmbito do ensaio clínico ou fora dele, sejam informadas dos riscos, dos potenciais benefícios e das limitações”, sublinha a organização.

Isto para que “possam dar o seu consentimento informado”.
A Organização Mundial de Saúde acredita que este ensaio “deverá fornecer novos dados importantes” e “indispensáveis” para orientar as decisões relativas à futura utilização da vacina Ervebo.

O diretor-geral da OMS saudou o envio das 70.000 doses na rede X, qualificando-a de “exemplo importante da solidariedade internacional em ação”.Outros dados
A República Democrática do Congo declarou, a 15 de maio, com várias semanas de atraso, a 17.ª epidemia de Ébola. Este surto de Ébola é considerado o mais mortífero de sempre registado no país.

Esta epidemia atinge regiões do país onde a presença do Estado é frágil, as infraestruturas de saúde são precárias e a resposta foi ultrapassada pela explosão de casos.

Mais de 2.400 pessoas morreram em 5.105 casos confirmados, de acordo com os dados mais recentes publicados pela OMS.

O Ébola, que se transmite pelo contacto com fluidos corporais e provoca uma febre hemorrágica, matou mais de 15.000 pessoas em África nos últimos 50 anos.

Em fase de ensaios clínicos encontram-se duas vacinas específicas contra a estirpe de Bundibugyo: uma está a ser desenvolvida pelo grupo norte-americano Moderna e a outra pela Universidade de Oxford (Reino Unido).

Do Grupo Internacional de Coordenação (GIC) para o Abastecimento de Vacinas fazem parte a OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICR) e a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), com o apoio financeiro da Aliança para as Vacinas (Gavi).

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