Ondas de calor podem tornar a China inabitável no futuro

Segundo uma nova investigação científica, a planície do norte da China, uma das regiões mais povoadas da Terra, pode tornar-se inabitável no futuro. As ondas de calor húmidas podem atingir o país no final do século devido às mudanças climáticas, caso não existam fortes cortes nas emissões de carbono.

RTP /
A China é actualmente o maior contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa, com implicações potencialmente sérias para a própria população China Daily - Reuters

"Este local [China] será o ponto mais quente para ondas de calor mortais no futuro", disse o professor Elfatih Eltahir, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, que liderou o novo estudo.

A investigação, publicada na revista Nature Communications, informa que a mudança climática criará ondas de calor húmidas que poderão empurrar a China "contra os limites da habitabilidade" até 2070.

"A China é actualmente o maior contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa, com implicações potencialmente sérias para a própria população", disse Eltahir.

"A continuação das atuais emissões globais pode limitar a habitabilidade da região mais populosa do país mais populoso da Terra", acrescentou.
Principal produtora de alimentos

As projeções para a planície norte da China são preocupantes. Para além de ser uma das regiões mais povoadas do mundo, a China produz todos os alimentos que consome. Muitos dos 400 milhões de habitantes da região são agricultores e têm poucas alternativas para trabalhar fora do país.

“O trabalho ao ar livre será quase impossível em grande parte das regiões agrícolas da China”, disse ao The Guardian Chris Huntingford, professor do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, não envolvido no estudo.

O trabalho ao ar livre é extremamente útil, na medida em que “permite que os governos consigam planear melhores futuras práticas agrícolas, encontrar o que é necessário para apoiar os agricultores a trabalhar em segurança e, como consequência, garantir segurança alimentar", acrescentou Huntingford.
Temperaturas mortais

As projeções são baseadas em investigações que mostram que os seres humanos não podem sobreviver para além de um certo limite de temperatura e humidade. A nova análise foi determinada por uma medição chamada temperatura de bulbo úmido (WBT).
Uma WBT acima dos 31ºC é classificada pelo Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA como “perigo extremo”.
Quando a WBT atinge 35ºC, o ar torna-se tão quente e húmido que o corpo humano não se consegue arrefecer através do suor. Além disso, as pessoas à sombra podem morrer em seis horas.

Segundo a investigação, uma WBT de 35ºC pode atingir o norte da China repetidamente entre 2070 e 2100, a não ser que as emissões de carbono sejam cortadas.

No entanto, mesmo que cortes significativos de carbono sejam feitos, o “perigo extremo” da WBT seria excedido muitas vezes.
Controlo da mudança climática é o fator chave

Em 2013, uma grande onda de calor na região persistiu por 50 dias, durante os quais Xangai quebrou um recorde de temperatura de 141 anos.Em 2017, o mesmo grupo de cientistas já tinha analisado o sul da Ásia. Os investigadores descobriram que alguns lugares da zona estava em risco de ondas de calor mortais.

Três quartos dos 1,7 mil milhões de pessoas, particularmente os habitantes que cultivam nos vales Ganges e Indus, podem estar expostos a níveis de calor extremo no final do século.

No entanto, a planície norte da China pode ser o pior lugar. "A resposta [às mudanças climáticas] é significativamente maior do que nas outras duas regiões", frisou o responsável pelo estudo.

Mesmo com cortes nos gases do efeito estufa, Eltahir disse que seria necessário implementar novas medidas de saúde pública na China, como locais com ar condicionado e educar a população sobre os perigos do calor extremo.

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