Onde está Kim Jong-un?

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quinta-feira que as notícias sobre uma eventual degradação do estado de saúde do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, são falsas. As notícias sobre problemas de saúde são desvalorizadas, mas permanece a pergunta: onde está Kim Jong-un?

RTP /
Athit Perawongmetha - Reuters

“Julgo que essa informação estava errada. Penso que foi uma falsa informação da CNN”, declarou aos jornalistas o Presidente norte-americano durante a habitual conferência sobre o novo coronavírus, citado pela Agência France Presse.

Na terça-feira, Trump desejou que o seu homólogo norte-coreano, Kim Jong-un, estivesse bem, reagindo às informações sobre alegados problemas de saúde do líder da Coreia do Norte.

“Só quero dizer a Kim Jong-un que espero que esteja bem”. “Se o seu estado de saúde é o mencionado nos meios de comunicação social é uma situação muito preocupante”, afirmou o Presidente norte-americano nesse dia. No entanto, afirmou que não tinham fontes de confiança sobre o assunto.
Há uma semana que Kim Jong-un, de 36 anos, desapareceu completamente dos olhares públicos.

A cadeia de televisão norte-americana CNN tinha noticiado esta semana, citando um responsável norte-americano, que os EUA tinham acesso a informações de que Kim Jong-un estaria “em estado grave”, devido a complicações pós-operatórias.

As dúvidas sobre os possíveis problemas de saúde do líder norte-coreano surgiram após a sua ausência na tradicional visita ao mausoléu de Pyongyang, onde permanece o corpo do seu avô Kim Il-sung, de acordo com as imagens divulgadas pelos media do país.

Por tradição, no dia 15 de abril, aniversário do nascimento do seu avô e a principal festividade nacional, Kim Jong-un visita o Palácio do Sol de Kumsusan e presta tributo ao fundador da Coreia do Norte, com ampla cobertura dos media controlados pelo regime. Mas desta vez, não esteve na cerimónia, nem houve comunicado com citações do líder norte-coreano.

Esta é a cerimónia tida como mais importante para o próprio ditador, que vê no avô o modelo a seguir, até mesmo na forma de vestir e legitimação do poder.

Na terça-feira, um porta voz do Governo da Coreia do Sul veio desvalorizar estas informações, dizendo não ter informações que confirmem o “rumor”, garantindo não ter detetado atividades fora do normal na Coreia do Norte.

Um artigo publicado pelo Daily NK, um jornal digital produzido em Seul por dissidentes norte-coreanos com rede de contactos no país tinha assegurado na segunda-feira que Kim “se submeteu recentemente a uma operação cardiovascular”. As causas da alegada intervenção tinham a ver com “tabagismo, obesidade e excesso de esforço”.

Inicialmente, o jornal falou em várias fontes, mas mais tarde corrigiu a informação para uma única fonte, anónima, dentro da Coreia do Norte. A notícia foi amplificada pela agência de notícias Reuters. A CNN contou essa versão sobre problemas de saúde do líder norte-coreano, mas desta vez citando fontes norte-americanas e dizendo que os EUA estavam a “acompanhar a situação de perto”, citando fontes anónimas.

Vários analistas convergem na análise de que foi a história contada pela CNN que tornou um rumor numa obsessão global.

Os media estatizados da Coreia do Norte não têm feito qualquer referência aos rumores de que o líder do país poderia estar doente, desaparecido ou mesmo morto. Agem como se a vida continuasse como habitualmente. No entanto, publicam declarações antigas de Kim Jong-un sobre economia ou outros assuntos.

A especulação avoluma-se, mas a verdade é que não é a primeira vez que Kim desaparece durante semanas, aparecendo depois em público como se nada fosse.
Uma explicação
A explicação pode passar simplesmente por questões de precaução e proteção do líder face ao novo coronavírus.

Por outro lado, o estado de saúde geral de Kim Jong-un é conhecido e não é o mais saudável: é obeso e fumador e acredita-se que sofra de gota com gravidade. Ou seja, os rumores de problemas de saúde ganham em plausibilidade. Ainda mais quando nem as Coreias, nem a China confirmaram o estado do ditador.

“Para Kim Jong-un, não visitar o Palácio Kunsusan no dia 15 de abril é impensável na Coreia do Norte. É a coisa mais perto de blasfémia naquele país”, assegura Cheong Seong-chang, um perito sobre a Coreia do Norte, do Instituto Sejong na Coreia do Sul, citado pelo New York Times.

Estranho ainda é o silêncio dos media norte-coreanos sobre os testes balísticos que foram conduzidos na véspera, sem as usuais fotos de Kim a acompanhar os testes.

Um jornalista da Vox, Alex Ward, afirma ter contactado a Casa Branca e o Departamento de Estado e ambos disseram que apenas sabiam o que estava a ser contado nos jornais. Os líderes da Coreia do Sul não reagiram com qualquer sentido de alarme. Mas ninguém confirmou que estava bem.

Não é a primeira vez que Kim desaparece. Em 2014, ninguém o viu durante cinco semanas, depois de ter falhado a comemoração de uma data importante do partido. Na altura, chegou-se a especular de um golpe de Estado. Já este ano, desapareceu durante três semanas, reaparecendo em fevereiro.

Mas podemos também lembrar que em 2011 demorou dois dias até que as autoridades norte-coreanas anunciassem a morte de Kim Jong-il.
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