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ONG acusam líder da Venezuela de violar Estado de Direito ao terminar amnistia

ONG acusam líder da Venezuela de violar Estado de Direito ao terminar amnistia

Várias organizações não governamentais (ONG) venezuelanas acusaram a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, de violar o Estado de Direito ao anunciar o fim da Lei de Amnistia.

Lusa /
Pedro MATTEY - AFP

"O recente anúncio sobre a revogação da Lei de Amnistia constitui uma grave violação do Estado de Direito", disse na quinta-feira a ONG Encontro, Justiça e Perdão (EJP), na rede social X.

"Uma lei desta natureza não possui limites temporais implícitos nem pode ser revogada por uma declaração administrativa do Executivo; a sua vigência é inerente à existência das situações de perseguição e detenção arbitrária que se destina a corrigir", explicou a organização.

"Pretender dar por concluído este instrumento de forma unilateral representa um ato de insegurança jurídica que deixa as vítimas em absoluta vulnerabilidade e envia um sinal alarmante ao sistema judicial, ao instruir de facto os tribunais a indeferir pedidos de liberdade com base numa premissa inexistente na ordem jurídica", acrescentou a EJP.

"Esta medida não só é discriminatória, anula o princípio da progressividade dos direitos humanos e aprofunda a lacuna da impunidade", afirmou a organização.

"Infelizmente, este desfecho confirma a nossa preocupação inicial de que a lei acabou por ser um exercício de retórica política mais do que um instrumento genuíno para devolver a liberdade aos presos políticos", lamentou a ONG.

A EJP disse ainda que "uma verdadeira reforma judicial e uma reconciliação nacional não podem ser construídas com base na restrição dos direitos vigentes", mas que "exigem o cumprimento rigoroso da lei e a abertura de canais transparentes que garantam justiça real".

"A liberdade e a justiça não têm data de validade e não podem ser sacrificadas em nome da conveniência política", sublinhou.

Também o Programa Venezuela de Educação e Ação em Direitos Humanos (PROVEA), defendeu que "a revogação da lei não é da competência do Executivo nacional".

"Trata-se de uma medida arbitrária e inconstitucional, que não contribui para o processo de convivência e paz que tem vindo a ser anunciado", sublinhou, também na X.

A PROVEA afirmou ainda que "apesar das suas limitações, a Lei de Amnistia é um primeiro passo para desmantelar o aparato repressivo que tem oprimido os direitos da população venezuelana nos últimos anos".

"A Lei de Amnistia deve fazer parte do processo de reinstitucionalização de que o país necessita. Deve ser um primeiro passo nessa direção, mas não é um requisito para que se verifique a libertação total de todas as pessoas privadas de liberdade por motivos políticos", sublinhou a ONG.

Muitos venezuelanos questionaram o anúncio nas redes sociais.

"Pôr fim à Lei da Amnistia não é um trâmite: é um retrocesso. Aumenta a insegurança jurídica, deixa as vítimas sem proteção e enfraquece os direitos humanos. A justiça não tem prazo de validade", escreveu um cibernauta, na X.

Perkins Rochou explicou que "a Lei de Amnistia para a Convivência Democrática não estabelece qualquer prazo para que os beneficiários solicitem a amnistia, nem prevê no seu texto uma data de validade ou caducidade. Trata-se de uma lei com vigência indefinida".

"A Lei de Amnistia não prevê, nos seus artigos, qualquer prazo de validade", confirmou Victor Amaya, que questiona a que processo se refere a presidente interina da Venezuela.

Delcy Rodríguez anunciou o fim da amnistia, dois meses depois da aprovação da lei, e numa altura em que, segundo ONG, ainda há 473 presos políticos.

A chefe de Estado assegurou que os casos que "foram expressamente excluídos" da amnistia podem ser tratados noutros fóruns, como o Programa de Paz e Convivência Democrática e a Comissão de Reforma da Justiça Penal, criada na quinta-feira.

Segundo dados da EJP, na Venezuela estão detidas por motivos políticos 674 pessoas, incluindo 28 estrangeiros e 30 venezuelanos com dupla nacionalidade.

Entre os estrangeiros encontram-se cinco cidadãos portugueses.

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