ONU chumba resolução sobre a Síria
Com onze votos a favor, dois votos contra e duas abstenções, o projeto de resolução das Nações Unidas escrito pelos britânicos e subscrito por Portugal, Alemanha, França e EUA "não foi adotado devido aos votos negativos de membros permanentes do Conselho de Segurança". É terceira vez que a Rússia e a China usam o seu poder de veto para bloquear os planos da ONU no sentido de sancionar o Governo da Síria pela perpetuação da violência no país. A votação dá-se no mesmo dia em que o chefe da equipa de supervisão da ONU na Síria disse que a missão de observação é "irrelevante" e um dia depois de um atentado em Damasco resultar na morte de três figuras-chave do regime.
Basta que um dos cinco membros permanentes da Organização das Nações Unidas - China, França, Federação Russa, Reino Unido e EUA - vote contra uma resolução para esta não ser aprovada.Com a abstenção do Paquistão e da África do Sul e os votos contra da China e da Rússia, fica também vetada a prorrogação por 45 dias do mandato do grupo de 300 homens com a missão de vigilância (UNSMIS) que termina já sexta-feira.
Na quarta-feira, após o atentado, Kofi Annan pediu para adiar um dia a reunião marcada para essa tarde numa tentativa falhada de ganhar tempo para conseguir mudar o sentido de voto da Rússia, aliado próximo da Síria, que não concorda com a intervenção da ONU no país e que avisou que vetaria qualquer texto relacionado com o Capítulo VII.
A Rússia acusou o Ocidente de incitar o movimento de oposição da Síria. Após o atentado, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, citado pela agência de notícias RIA Novosti, disse que, "em vez de acalmar a oposição, alguns dos nossos parceiros estão a incitá-la a avançar”.
Sergey Lavrov diz que a resolução redigida pelos britânicos, que iria impor sanções e permitir a intervenção militar internacional no território sírio, "equivaleria a dar apoio direto ao movimento revolucionário”, com o qual o Kremlin não concorda.
Mesmo depois dos presidentes Barack Obama e Vladimir Putin terem chegado, ao telefone, a um entendimento sobre a necessidade de se atingirem mudanças políticas na Síria, e de Vitaly Churkin, embaixador russo na ONU, ter dito que na sequência do adiamento, os cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança iriam partir para negociações sobre o projeto de resolução na tentativa de chegar a um consenso, a posição da Rússia manteve-se inalterada.
"Missão da ONU na Síria é irrelevante"
Atentado
Na quarta-feira, um atentado suicida ao Edifício da Segurança Nacional em Damasco, noticiado pelos media estatais da Síria, resultou na morte do ministro sírio da Defesa, Daoud Rajiha, do seu vice e cunhado do Presidente Assad, Assef Shawkat, e do chefe da célula de controlo de crises e adjunto do vice-presidente, Hassan Turkomani.
A explosão surgiu depois de 3 dias de confrontos na capital e de 16 meses de manifestações e confrontos violentos por todo o país, desde que começou a revolta contra o regime de Bashar al-Assad, considerada guerra civil pela Cruz Vermelha desde dia 15 de Julho.
Pelo menos 214 pessoas, entre as quais 124 civis, 62 soldados e 28 rebeldes, foram mortas na quarta-feira na Síria, 38 na capital, indicou o Observatório sírio dos Direitos Humanos.
O Governo prometeu “vingança” depois de dois grupos reclamarem a autoria do atentado, um deles o Exército Sírio Livre, a organização que encabeça a ofensiva do povo sírio contra Assad.O chefe da equipa de supervisão da ONU na Síria, o major-general Robert Mood, diz que a missão de observação é irrelevante sem um processo político que procure terminar a guerra civil naquele país.
Questionado por jornalistas em Damasco no dia seguinte ao atentado suicida na capital de onde resultou a morte de três figuras-chave do regime de Bashar al-Assad, Mood avisou que "não caminhamos no sentido da paz”, referindo os intensos confrontos entre as forças de segurança sírias e os rebeldes em torno de Damasco esta semana.
Todos os países do Conselho, à excepção da Rússia e da China, querem partir para sanções pesadas ao Governo de Bashar al-Assad, no sentido de por termo à violência no país. A maioria apoia também uma intervenção militar internacional.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, condenou "firmemente" o atentado, sublinhando a "urgência extrema" de que se reveste o fim da violência armada por parte das duas partes.
Através de um comunicado do seu porta-voz, Ban Ki-moon declara-se "muito inquieto com as informações que dão conta da utilização de armas pesadas pelas forças governamentais contra civis" apesar dos compromissos assumidos pelo regime no âmbito do plano de paz do enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan.
Sobre a votação da nova resolução pelo Conselho de Segurança, Ban Ki-moon tinha pedido ao Conselho para "assumir as suas responsabilidades e a agir de forma coletiva e eficaz. (...) Há muito tempo que o povo sírio está a sofrer, e o banho de sangue deve parar imediatamente", concluiu.
Regime vinga-se do atentado
Armas químicas e Al Qaeda
Declarações do rei da Jordânia vêem recuperar as preocuações do político desertor da Síria, Nawaf Fares, sobre a possibilidade de utilização de armas químicas.
"A informação que temos é que a Al Qaeda está presente em algumas regiões da Síria, desde há algum tempo", disse o rei jordano, Abdullah, à CNN. "Um dos piores cenários seria o de algumas das armas químicas do regime sírio caírem em mãos não amigáveis", alertou.
"Estou seguro de que [nesse caso] iriam aceitar uma ação internacional", disse Abdullah, referindo-se aos repetidos vetos da Rússia e da China na ONU.Forças do governo sírio retribuíram fogo contra os rebeldes com helicópteros e munições de ataque militar em torno da cidade de Damasco depois do atentado à bomba que matou três membros do regime no poder. É o quinto dia de combate na capital, marcado eplo o uso de artilharia pesada por parte das forças de segurança do Governo.
O presidente sírio, Bashar al-Assad mudou-se para a cidade costeira de Latakia, noticiou a Associted Press, citando fontes da oposição e um diplomata do Ocidente. Apesar de ainda não ter feito nenhuma declaração desde a explosão no Edifício da Segurança Nacional em Damasco, Assad marcou presença esta tarde na tomada de posse do novo ministro da Defesa, nomeado depois da morte de Daoud Rajiha no atentado.
"A informação que temos é que ele está no seu palácio em Latakia”, disse um opositor do regime à agência.
EUA e Reino Unido recorrem a sanções financeiras
Visto que já se previa o veto do projeto de resolução das Nações Unidas esta tarde, pelo veto da Rússia e da China, ao EUA e o Reino Unido recorreram a sanções financeiras para pressionar o regime de Bashar al-Assad a parar a violência contra o povo e abdicar do poder.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, apelou esta quinta-feira ao presidente da Síria que desista do cargo e dirigiu-se aos chefes de Estado da Rússia e da China para pedir apoio para esta nova resolução da ONU, já chumbada pelos dois países.
O ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, diz que Israel vai bloquear a entrada de refugiados sírios na região israelita de Golan caso estes tentem fugir para lá. Depois de visitar a área, Barak respondia aos jornalistas que falavam do povo que tenta fugir à onda de violência que se vive na Síria.
"Se já fugiram para a Turquia e a Jordânia também podem fugir para território israelita. Se tivermos que parar os refugiados vamos pará-los."Já prevendo que os aliados do Executivo sírio utilizariam o poder de veto, bens de Basahar al-Assad, no valor de 100 milhões de libras (aproximadamente 128 milhões de euros) foram congelados em território britânico.
A Casa Branca considerou que as autoridades locais "estão em vias de perder o controlo da Síria". Tommy Vietor, porta-voz do Conselho de segurança nacional, acrescentou ser urgente uma transição política "para um regime democrático a fim de evitar uma guerra civil longa e sangrenta".
Nos EUA ficam congelados quaisquer bens que 28 dos ministros e oficiais do regime sírio tenham em território norte-americano, sanção à qual se acrescenta um embargo comercial com a Síria, segundo anunciou comunicado da Casa Branca na manhã de quinta-feira.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, também emitiu um comunicado na consequência da violência vivida na capital síria esta semana. "O atentado contra altos responsáveis sírios do exército e das forças de segurança em Damasco sublinha a necessidade de uma ação concertada do Conselho de Segurança da ONU e da comunidade internacional para a aplicação do plano de paz de Kofi Annan", considerou.
Atentado exalta sírios de todo o mundo
Revolta chega ao Líbano
Mais de 20 mil sírios atravessram a fronteira com o Líbano nas passadas 24 horas, tentando escapar aos confrontos violentos que se têm vivido.
Os membros do Conselho de Segurança da ONU manifestaram, logo após o atentado de quarta-feira, a sua "profunda preocupação" com o impacto do conflito na Síria sobre o Líbano. O texto cita "vários incidentes fronteiriços, incursões, sequestros e tráfico de armas na fronteira" entre o Líbano e a Síria.
Os 15 países membros do Conselho, em comunicado, "salientam a importância de um respeito total da soberania, unidade e integridade territorial" do Líbano. "O compromisso dos dirigentes do país em preservar o Líbano do impacto das tensões regionais é particularmente importante neste período difícil", conclui o texto.Depois da notícia do atentado desta quarta-feira surgem notícias do "início do fim do regime" e de protestos contra Bashar al-Assad junto às embaixadas sírias do Egito e da Roménia.
Esta quinta-feira, Georges Sabra, um porta-voz do Conselho Nacional Sírio, um grupo da oposição a Assad, disse que "o que se passou ontem (quarta-feira) é um sinal do princípio do fim deste regime (...) é um enorme golpe para ele (Assad) e para o aparelho de segurança e de repressão do regime”.
"É mais um sinal de que o regime caminha para o fim, uma vez que o atentado aconteceu a menos de 500 metros do palácio presidencial, de onde Bashar al-Assad dá as ordens para dispararem sobre as pessoas", declarou.
As forças de segurança egípcias dispararam gás lacrimogéneo para dispersar várias centenas de manifestantes que tentavam invadir a embaixada da Síria no Cairo e hastear a bandeira de riscas verdes que representa o movimento rebelde da Síria. Segundo a Associated Press, 14 pessoas foram detidas.
Em Bucareste, capital da Roménia, manifestantes sírios gritaram palavras de ordem contra o presidente sírio e queimaram fotografias em frente à Embaixada da Rússia, horas antes dos representantes do Kremlin votarem contra a resolução da ONU. A Reuters publica que a manifestação foi organizada pela Comunidade Síria Livre da Roménia.