ONU denuncia casos de xenofobia a refugiados nas inundações no sul do Brasil
O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) denunciou hoje a existência de casos de xenofobia, "não pontuais", a refugiados afetados pelas inundações sem precedentes que se fazem sentir no sul do Brasil.
"Não têm sido pontuais, infelizmente", disse Sílvia Sander, que integra a equipa de proteção do ACNUR, durante um pequeno-almoço promovido pela agência, em Brasília, para jornalistas locais e internacionais.
Por causa dos "relatos de xenofobia e discriminação" as autoridades ponderam criar espaços de acolhimento específico por nacionalidade, afirmou a responsável brasileira.
A organização internacional estima existirem 43 mil pessoas refugiadas de proteção internacional (principalmente haitianos e venezuelanos, mas também cubanos) afetadas pelas cheias no estado do Rio Grande do Sul, a região mais afetada pelo desastre ambiental e também aquela com mais refugiados no país.
Segundo Sílvia Sander, os refugiados queixam-se de tratamento diferenciado relativamente aos nacionais brasileiros, nomeadamente na dificuldade em aceder a espaços de atendimento, abrigo, água e alimentos.
A oficial de proteção da agência da ONU para os refugiados avisa que os "conflitos nos abrigos" e os "riscos de violação dos direitos tendem a aumentar" até porque a situação das cheias no estado está ainda longe de melhorar.
A consciencialização dos voluntários sobre a xenofobia e como melhor lidar com os refugiados para mitigar riscos nos abrigos, o mapeamento destas pessoas, restabelecer o contacto com os refugiados isolados, o apoio relativo à perda de documentação, a divulgação das informações da Defesa Civil em várias línguas e a produção de materiais informativos têm sido algumas das funções da organização internacional no terreno.
O número de mortos devido às inundações do sul do Brasil subiu para 150, havendo ainda 112 pessoas desaparecidas e cerca de 620 mil deslocadas, indicaram na terça-feira as autoridades.
Com 2,12 milhões de pessoas afetadas, o estado do Rio Grande do Sul continua o mais afetado depois de mais de uma semana de uma forte tempestade ter afetado 446 municípios, causando grandes devastações em quase dois terços do seu território.
Nesta região que faz fronteira com o Uruguai e a Argentina, foram registadas 149 mortes, enquanto no estado vizinho de Santa Catarina, também afetado por fortes chuvas, embora em menor escala, foi registada a outra vítima mortal.
No Rio Grande do Sul, com uma população total estimada em 11,3 milhões de habitantes, cerca de 620.000 pessoas fugiram das suas casas e estão agora a viver em abrigos improvisados, com recurso a donativos ou em casa de familiares.
As chuvas persistentes dos últimos dias fizeram com que os rios voltassem a encher, dificultando ainda mais os esforços de salvamento e aterrorizando os vizinhos que se tinham aventurado a regressar às suas casas.
Desde o início desta tragédia climática, a maior da história do sul do Brasil, cerca de 80.000 pessoas e 11.000 animais foram resgatados pelas autoridades, enquanto 806 pessoas ficaram feridas.
Porto Alegre, a capital regional, continua parcialmente inundada, com o principal aeroporto da cidade fora de serviço, o centro histórico inundado e milhares de pontos sem eletricidade.
A mesma situação repete-se em municípios mais pequenos, como Rio Grande, a cerca de 360 quilómetros de Porto Alegre, onde atualmente se constroem pontes rudimentares com paletes de madeira para ligar infraestruturas críticas.