ONU tenta evitar reacender da guerra civil na Líbia

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reuniu-se perto de Bengazi com Khalifa Haftar, o comandante das tropas do leste da Líbia, esta sexta-feira, numa tentativa de evitar o seu avanço sobre a capital, Tripoli, contra o Governo reconhecido pela comunidade internacional.

Graça Andrade Ramos - RTP /
As defesas de Tripoli, capital da Líbia, foram reforçadas contra o avanço das forças lideradas pelo comandante Khalifa Haftar, do LNA - Exército Nacional da Líbia Reuters

A ofensiva de Haftar, que lidera as forças do Exército Nacional da Líbia (LNA) aliadas do governo alternativo do leste do país, marca uma perigosa escalada num conflito pelo poder na Líbia, que se arrasta desde a queda de Muammar Khadafi, em 2011.O avanço desta primavera apanhou de surpresa o secretário-geral da ONU, que esteve a semana passada em Tripoli para preparar uma conferência de reconciliação nacional dentro de três semanas. Haftar anunciou-o numa transmissão televisiva.

As forças do LNA tomaram quinta-feira a região de Gharyan, 80 quilómetros a sul de Tripoli, depois de alguns confrontos com forças aliadas do primeiro-ministro declarado, Fayez al-Serraj.

Fracassaram, contudo, na conquista da chamada Porta 27, um posto de controlo a 30 quilómetros a oeste da capital, que lhes permitiria cortar a estrada costeira que liga à Tunísia.

Forças aliadas de Tripoli capturaram também mais de uma centena de soldados do LNA em Zawiya, a oeste da cidade - 145, de acordo com o comandante de forças ocidentais, Mohamed Alhudair, ou 128, de acordo com o LNA. Sessenta veículos foram também apreendidos, de acordo com declarações de Alhudair à Agência Reuters.

Grupos armados aliados do Governo de al-Serraj, reforçaram entretanto as defesas da capital com metralhadoras montadas em pickups.

Os esforços do secretário-geral da ONU não surtiram efeito imediato. Já esta sexta-feira, forças de Haftar tomaram uma aldeia, Suq al-Khamis, 40 quilómetros a sul de Tripoli.
Guterres em missão de paz
António Guterres, que passou a noite num recinto fortificado das Nações Unidas num subúrbio de Tripoli, viajou por via aérea para Bengazi tendo depois seguido por estrada até a base de Haftar.

Foi ainda a Tobruk, uma outra cidade do leste da Síria, para se reunir com Aguila Saleh, presidente da Câmara dos Representantes, aliado de Haftar em desafio à autoridade de Tripoli.

Saleh, que aplaudiu quinta-feira a ofensiva de Haftar, não comentou o encontro. O seu porta-voz referiu apenas que foram debatidos meios para por fim à crise, assim como a conferência de reconciliação.

"O meu objetivo permanece o mesmo: evitar um confronto militar. Reitero que não há uma solução militar para os líbios, apenas uma política", escreveu Guterres na sua página Twitter.

Na quinta-feira apelou à contenção.

Desde a morte de Khadafi que a Líbia vive uma paz podre, com reduzido domínio do Governo de Tripoli, reconhecido pela ONU, e o leste do país organizado de forma alternativa, sob o comando de Haftar e dos seus aliados.

Estes alargaram recentemente a sua influência ao sul do país. Detêm o apoio, incluindo militar, do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, que o veem como defesa contra os islamitas.
Esforços internacionais
O mês passado, Haftar e Serraj reuniram-se em Abu Dhabi, para debater um acordo de partilha de poder apadrinhado pela comunidade internacional, pouco interessada num renovar dos confrontos. A ofensiva de Haftar desta semana provocou apreensão generalizada.

"Temos de lançar água no fogo, não petróleo", reagiu o primeiro-ministro de Itália, ex-poder colonial da Líbia. "Espero que as pessoas, devido a interesses económicos pessoais, não estejam a considerar uma solução militar, que seria devastadora", acrescentou Matteo Salvini.

A Líbia é um produtor de petróleo e é atravessada por migrantes africanos que superam os rigores do deserto do Sahara para tentar alcançar a Europa.

A Tunísia já reforçou as suas fronteiras com a Líbia. OS EAU manifestaram a sua preocupação com os confrontos e a Alemanha pediu uma reunião de urgância do Conselho de Segurança da ONU.

A Rússia comentou que não está a ajudar as forças de Haftar e que apoia um acordo político que não implique derramamento de sangue.

"Estamos a acompanhar a situação na Líbia com muita atenção, e muita preocupação, e a tentar maximizar a influência europeia e britânica na situação", reagiu por seu lado o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, numa conferência de imprensa ao lado da sua homóloga do Canadá, Chrystia Freeland, antes da reunião do G7.

Os sete representantes diplomáticos do G7 irão debater a situação na Líbia nos próximos dias.
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