Operação no Brasil mira financiamento do filme "Dark Horse" e aliado de Flávio Bolsonaro
A Polícia Federal do Brasil realiza hoje uma operação para investigar um suposto financiamento, com recursos públicos, do filme "Dark Horse", uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A operação foi autorizada pelo juiz Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, cuja decisão de 150 páginas, consultada pela Lusa, mostra que entre os alvos estão o ex ator da TV Globo e atual deputado federal bolsonarista Mário Frias.
Ao todo, os agentes cumprem 49 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal, visando empresas, empresários, ex-funcionários do gabinete de Frias, além da empresária e produtora do filme Karla Gama.
A organização-não governamental Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karla Gama, recebeu 2 milhões de reais, o equivalente a 336 mil euros no câmbio atual, obtidos por via de duas emendas parlamentares (instrumento que o Congresso Nacional pode utilizar na fase de apreciação legislativa do orçamento anual) de Mário Frias.
Os agentes identificaram indícios de desvio de finalidade das verbas públicas, ao identificar que o dinheiro da emenda parlamentar foi gasto em hospedagem de hotel, refeições e pagamentos a outras produtoras ligadas à rodagem de "Dark Horse".
O relatório aponta que houve "desvio, em proveito próprio ou de terceiros, de recursos públicos federais (...) mediante contratações com indícios de simulação, pagamentos sem comprovação suficiente da efetiva contraprestação dos serviços contratados, utilização de fornecedores com vínculos pessoais, políticos ou comerciais com o núcleo investigado".
A Polícia Federal também identificou que Marcello de Oliveira Lopes, o ex-responsável de marketing da campanha de Flávio Bolsonaro e amigo pessoal do candidato a presidente do Brasil, enviou um milhão de reais (168 mil euros) em 2025 à Go Up Entertainment, empresa de Karina Gama.
A Go Up Entertainment, responsável pela produção de "Dark Horse", tem Mário Frias como produtor executivo, segundo o relatório da PF, que constatou "movimentações consideradas atípicas" em contas da empresa, da ordem de 19 milhões de reais (3 milhões de euros).
O relatório financeiro produzido pela polícia mostra que o próprio Mário Frias enviou 645,4 mil reais (108,5 mil euros) à Go Up em menos de 60 dias.
Esse montante chamou a atenção dos investigadores sobre a sua origem, uma vez que o valor é muito superior ao salário de Mário Frias como deputado federal.
O relatório policial cita o "circuito financeiro fechado" entre Frias, que foi secretário de Cultura no Governo Bolsonaro, e a empresa produtora do "Dark Horse".
"Essa circulação de recursos entre o parlamentar, a entidade executora, a empresa contratada e outra organização beneficiária não se compatibiliza com relações negociais independentes e economicamente justificadas", salienta.
"Ao contrário, evidencia um circuito financeiro fechado, característico de estruturas destinadas à circulação, fragmentação e reintrodução de valores entre integrantes de um mesmo núcleo de atuação", conclui.
Numa ação de campanha, Flávio Bolsonaro criticou Flávio Dino e acusou o juiz de "tentativa de interferência política", ao lembrar que o magistrado foi indicado para o Supremo brasileiro pelo Presidente, Lula da Silva.
"O Lula já abandonou a campanha política. Ele agora está a contar com os seus amigos no Supremo", acusou.
A operação foi autorizada por Flávio Dino no passado dia 03, mas só foi realizada hoje pela PF com a ajuda de agentes da Controladoria-Geral da União (CGU), órgão de fiscalização e apuramento de irregularidades.
Mário Frias e Karla Gama não se pronunciaram até ao momento.
O financiamento da cinebiografia do seu pai é um calcanhar de Aquiles na campanha de Flávio, desde que o portal The Intercept Brasil revelou áudios em que pede dinheiro a Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso por fraude no sistema financeiro.
À época das revelações, Flávio admitiu ter pedido e recebido dinheiro de Vorcaro para financiar o filme, e prometeu, mas não cumpriu, fazer a prestação de contas financeiras do filme em até 30 dias.