Oposição egípcia rejeita mão estendida do Presidente Morsi

A oposição egípcia rejeita o apelo do Presidente Morsi ao diálogo voltando a promover uma concentração na Praça Tahrir esta sexta-feira em protesto contra o presidente islamista. As pressões aumentam para que Morsi congele o decreto constitucional. O próprio campo islamista abre fendas. Morsi está cada vez mais isolado. A crise egípcia parece ter vindo para ficar.

Eduardo Caetano, RTP /
Os egipcios não arredam pé da Praça Tahir e querem obrigar Morsi a retirar proposta constitucional Andre Pain, EPA

Amr Moussa, antigo líder da Liga Árabe, já anunciara em declarações à agência Reuters que, “decidimos encontrar-nos esta tarde [quinta-feira] para discutir a proposta e o discurso do Presidente. Queremos ter uma posição coletiva”.

Candidato presidencial derrotado nas eleições que conduziram Mohamed Morsi ao Palácio presidencial, Moussa juntou-se ao grupo que aglomera grande parte da oposição laica coordenado por Mohamed El Baradei e que surgiu na sequência da aprovação por Mohamed Morsi de um decreto que expande os seus poderes presidenciais e dá às suas decisões total imunidade face à justiça.

A Frente de Salvação Nacional, que então se constituiu, já se reuniu e analisou o apelo presidencial. “A Frente de Salvação Nacional não tomará parte no diálogo. Essa é a posição oficial da Frente” informava esta sexta-feira Ahmed Said, o líder do partido dos egípcios libres e membro da coligação.

Morsi anunciara na quinta-feira que se iria reunir “sábado com peritos legais e com figuras da oposição para encontrar uma solução que salve a nação” mostrando-se disponível para negociar alguns artigos do polémico decreto, mas, no entanto, não aceitando em circunstância alguma pôr em causa a realização no dia 15 de dezembro de um referendo constitucional.

Ora, esta iniciativa do presidente islamista tem poucas “pernas para andar”. À revolta popular, que se traduziu e ainda se traduz em manifestações nas principais cidades egípcias, juntaram-se os incêndios das sedes dos "Irmãos Muçulmanos" em várias localidades. A acrescer à indignação popular, que parece não se aplacar, junta-se agora a recusa terminante da oposição de responder positivamente aos apelos presidenciais de diálogo.

Para se sentar à mesa com o Presidente Morsi, a oposição exige uma série de concessões. “Esperávamos que o presidente respondesse às repetidas exigências de anular declaração constitucional e que adiasse o referendo constitucional até que se conseguisse um consenso nacional sobre o seu texto”, afirma a Frente de Oposição em comunicado tornado público na passada quinta-feira.

O tom desafiante que foi utilizado por Mohamed Morsi na sua comunicação ao país, também não ajudou a desanuviar o clima, já de si pesado. A acusação dirigida à oposição, de se ter aliado a forças contrarrevolucionárias, não caiu nada bem no seio das forças que combatem as intenções concentracionárias do presidente.

“Investigações e confissões demonstraram que os presos tinham ligações a partidos políticos. Outros assaltantes foram pagos. Os responsáveis serão castigados”, foram as palavras duras de Morsi que a oposição qualifica de arrogantes e que não serviram para apaziguar os ânimos.

A reação aliás, não se fez esperar. Na noite de quinta-feira uma multidão irada de oposicionistas incendiou a sede do partido dos Irmãos Muçulmanos” do bairro de Muqatan. Outras cidades conheceram as mesmas cenas dantescas dos incêndios nas sedes islamistas.

Não muito simpático para o Presidente e para o seu partido é o facto de a revolta popular usar as mesmas frases de ordem que foram gritadas pelos egípcios quando exigiram a queda de Hosni Mubarak. “O povo quer a queda do regime” é a frase que “pinta” a Praça Tahrir.
Pressão aumenta sobre Mohamed Morsi
O clima de instabilidade que se vive no Egito leva os seus ecos além-fronteiras. Os Estados Unidos estão preocupados com a instabilidade que se vive no país dos faraós. Barack Obama telefonou ao seu homólogo egípcio a quem instou a dialogar com a oposição.

Todo este clima foi agravado quando os egipcios acordaram quinta-feira e ficaram a par das notícias que davam conta que os recontros com a polícia na noite anterior tinham causado mais de um milhar de feridos e sete mortos um dos quais um jornalista que fazia a cobertura da manifestação.

Aos incidentes e revolta popular soma-se a deserção de vários conselheiros presidenciais. A revolta contra o polémico decreto presidencial alastra à rede consular com os 200 embaixadores espalhados pelo mundo a recusaram cumprir a ordem presidencial e a organizar o referendo constitucional nas suas embaixadas.

O próprio presidente do comité judicial que supervisionaria o referendo, Zaglul al-Balshi, apresentou a sua demissão e recusou supervisionar um referendo que “tanto sangue egípcio tinha derramado”.

Acresce a greve da maioria dos tribunais do país que fecharam as portas até que, dizem, o Presidente recue na sua intenção de promover o referendo constitucional que aprove o decreto que dá maiores poderes ao presidente.
Campo islamista abre fendas
A pressão é tanta que até no próprio seio da comunidade islâmica mais radical se ouvem vozes discordantes. A Universidade de Al-Azhar – principal instituição islâmica no Egito e ponto de referência de toda a comunidade Sunita islâmica – veio a público afirmar que “o Presidente da República deve congelar a recente declaração constitucional e impulsionar de imediato um diálogo que inclua todas as forças políticas sem exceção e sem condições prévias”.
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