Organização acusa China de censurar informação sobre cheias no Tibete
O Observatório dos Direitos Humanos (ODH) acusou as autoridades chinesas de censurarem informações e impedirem jornalistas de contactar familiares das vítimas das cheias no Tibete, defendendo que os sobreviventes têm "direito a ser ouvidos".
Num texto publicado na segunda-feira, a organização não-governamental (ONG), conhecida em inglês como Human Rights Watch (HRW), também afirmou ter recebido informações segundo as quais jornalistas na China foram impedidos de entrar na zona atingida pelo desastre e de entrevistar familiares das vítimas, ficando dependentes da versão oficial dos acontecimentos.
"As vozes das próprias vítimas estão, em grande medida, ausentes" dos temas mais populares nas redes sociais chinesas, afirmou a organização, segundo a qual estes se concentram no número de mortos, nas operações de resgate e nas causas da catástrofe.
Segundo o ODH, vários dos temas em destaque na rede social Weibo apresentam de forma positiva a atuação das forças de segurança, enquanto os testemunhos de sobreviventes surgem sobretudo quando coincidem com a narrativa dos órgãos de comunicação oficiais.
A ONG afirmou ainda que pelo menos dez pessoas foram punidas pelas autoridades por alegadamente difundirem "rumores" relacionados com o desastre.
O ODH acusou também os órgãos estatais de recorrerem a imagens produzidas através de inteligência artificial para ilustrar as possíveis origens da enxurrada, enquanto imagens originais da inundação do porto fronteiriço de Gyirong, no lado chinês, estariam a ser censuradas.
"As restrições à informação podem dificultar às famílias a localização dos seus entes queridos e prejudicar a compreensão do desastre e qualquer resposta futura", alertou a organização.
O ODH lembrou que a censura e a autocensura são generalizadas na China, particularmente nas regiões tibetanas, onde jornalistas estrangeiros e investigadores independentes não podem entrar sem autorização e cidadãos chineses podem ser detidos por partilharem determinadas informações com o exterior.
"Tal como em desastres anteriores, a coreografia é familiar: restringir a informação, controlar a narrativa e elogiar a determinação da liderança e os esforços de resgate", criticou a organização.
As autoridades do Nepal elevaram hoje o balanço provisório da cheia devastadora ocorrida na quarta-feira na fronteira com a China para 939 mortos e 3.925 desaparecidos.
A China reportou 16 mortos e 546 desaparecidos do lado do Tibete, elevando o balanço provisório da catástrofe nos dois países para 955 mortos e 4.471 desaparecidos.
O balanço anterior era de 919 mortos e 4.793 pessoas por localizar.
Entre os desaparecidos no Nepal encontram-se peregrinos e turistas de mais de três dezenas de países, incluindo três portugueses, segundo o ministério dos Negócios Estrangeiros português.
Do lado chinês, um cidadão português integra uma lista de 261 estrangeiros de 23 países dados como desaparecidos no Tibete.
O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, afirmou que o país dos Himalaias "enfrenta um desastre natural de uma dimensão inimaginável e dolorosa".
O Presidente chinês, Xi Jinping, que se encontra no Quirguistão, assegurou na segunda-feira que as autoridades estão a fazer tudo o que é possível para encontrar os desaparecidos.
"A China tem a capacidade e a confiança para superar o desastre e reconstruir as áreas afetadas", afirmou Xi.