Órgãos de soberania da Guiné-Bissau estão em sintonia

Bissau, 24 Jul (Lusa) - O primeiro-ministro de transição da Guiné-Bissau afirma que tem as melhores relações com os restantes órgãos de soberania, embora admita que por vezes haja discordâncias em algumas matérias, nomeadamente com o Parlamento.

Lusa /

Ainda que afirmando que tudo se tem resolvido através do diálogo numa entrevista à Agência Lusa, Rui de Barros dá como exemplo dessa discordância a taxa de exportação do caju (conhecida por Funpi), que o Governo desceu de 50 para 10 francos (0,015 cêntimos) por quilo mas que o Parlamento voltou a subir para 50 francos.

"Deve-se deixar a autoridade encarregue da questão do caju (Governo) trabalhar e evitar interferências", afirma sobre uma matéria que tem gerado confusão e uma acesa troca de acusações e críticas entre os principais envolvidos na venda de caju, o principal produto de exportação da Guiné-Bissau.

Na atual campanha de caju, diz Rui de Barros que ainda estão mais de 20 mil toneladas de castanha no interior do país e que mais 120 mil toneladas estão em armazéns em Bissau. Já foram exportadas, diz, 70 mil toneladas.

Este ano, a campanha de caju, é reconhecido por todos os intervenientes, correu mal e há notícias de que populações do sul do país estão a passar fome. Porém Rui de Barros nega que haja fome na Guiné-Bissau, um país onde "quando não há arroz há fome". "Temos de começar a educar as pessoas de que há alternativas ao arroz", frisa, lembrando que o país é rico em termos agrícolas.

Mas nos 14 meses que leva como primeiro-ministro de transição Rui de Barros teve outros problemas, como as sucessivas ondas de greves. Ainda assim é um dirigente satisfeito com os resultados, tendo em conta o que encontrou "em carteira, em termos de reivindicações, e sem nenhum tipo de apoio" (os principais doadores cortaram os apoios após o golpe de Estado).

"Primeiro salvámos o ano escolar (marcado por sucessivas greves de professores). E são reivindicações que vinham de há muito tempo. A nível da saúde também conseguimos acalmar as coisas", diz.

Outra greve recente, na empresa estatal de telecomunicações Guiné Telecom/Guiné Tel, trouxe à tona outro "problema gravíssimo". Diz Rui de Barros que foi feito um empréstimo para sanear a empresa e depois privatizá-la e que esse dinheiro foi gasto noutras coisas, como para pagamento de salários. "Estamos a trabalhar para privatizar o mais rapidamente possível", diz.

Otimista mas também sem ilusões, Rui de Barros diz à Lusa que estava ciente da "situação difícil" que ia encontrar quando aceitou ser primeiro-ministro. "Não dei o golpe (de Estado), os que o deram que o justifiquem, nós assumimos a posição de salvar a situação, porque não seria bom que o poder ficasse na rua".

E acrescenta: "felizmente, com o diálogo a nível do governo, com os militares, com a sociedade civil, conseguimos levar. Houve no início quem desse ao Governo três meses".

Com eleições na data marcada e "condições para que quem ganhar possa concentrar-se no desenvolvimento do país" Rui de Barros pensa que cumpriu a sua parte. Mas reconhece que um dos objetivos do Governo, o de levar a julgamento os crimes de sangue ocorridos no passado recente, não foi ainda cumprido.

"O que estava na nossa alçada fizemos tudo. Os processos, a auditoria, tudo está na Justiça, mas não queremos interferir. Eu penso que fiz o que devia fazer, cabe à outra parte fazer o trabalho deles. Criámos as condições mínimas para que os tribunais funcionassem", diz.

É que, se a Guiné-Bissau conseguir ter instituições fortes na Justiça "muitos problemas podiam ser evitados", diz o primeiro-ministro, realçando que nãos e compreende que um chefe de Estado, um chefe das Forças Armadas ou deputados sejam assassinados e que ninguém diga nada, que "todo o mundo esteja a passear".

"Nós fizemos o que compete ao governo, respeitando a separação de poderes, fizemos tudo", garante Rui de Barros.

Está por isso de consciência tranquila, segundo as suas palavras com o objetivo maior de levar o país a eleições presidenciais e legislativas a 24 de novembro. E depois? "Eu sempre quero continuar a dar o melhor para o país mas como técnico, não como político".

 

 

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