País Basco pediu "Guernica" emprestado mas peritos dizem que quadro não pode viajar
O País Basco quer ver "Guernica", de Pablo Picasso, exposto em Bilbau durante oito meses, mas o quadro, num estado frágil e já com danos, não pode viajar, dizem os ténicos do Museu Rainha Sofia de Madrid.
"Entendo a sensibilidade por trás deste pedido. Estamos a falar de uma obra vinculada à memória de Gernika e a dor que simboliza", reconheceu hoje o ministro da Cultura de Espanha, Ernest Urtasun, numa declaração no Senado (câmara alta das Cortes espanholas).
"A minha obrigação como ministro é garantir o acesso à cultura mas também garantir a proteção do património. Em questões como esta é preciso ouvir sempre os técnicos e particularmente aqueles que há 30 anos cuidam a obra para a conservar devidamente. Os relatórios são claros e desaconselham de forma rotunda o transporte da peça com critérios estritamente técnicos por causa dos riscos que acarretam as vibrações inevitáveis em qualquer transporte e que podem provocar novas fissuras, levantamentos, perda de camadas pictóricas ou até mesmo rasgos", acrescentou o ministro.
Ernest Urtasun confirmou esta tarde, no Senado, a resposta negativa do Governo de Espanha ao pedido do governo regional basco, que pediu o "Guernica" emprestado, para o expor no Museu Guggenheim, em Bilbau, entre 01 de outubro de 2026 e 30 de junho de 2027.
O objetivo era ter no País Basco a obra de Picasso coincidindo com os 90.º aniversários do primeiro governo basco, em 07 de outubro de 1936, e do bombardeamento da cidade basca Gernika, pela aviação nazi, durante a guerra civil espanhola.
O primeiro governo basco foi constituído em Gernika, poucos meses após o levantamento militar contra a República espanhola que desembocou na guerra civil de 1936-39 e, depois, na ditadura liderada por Francisco Franco até 1975.
Esse executivo era uma coligação de partidos leais à República liderada por José Antonio Aguirre, que passou a viver no exílio em 1937.
A obra de Picasso, um quadro de 1937 com cerca de 340x776 centímetros adquirido pelo Estado espanhol no mesmo ano, invoca o bombardeamento de Gernika e esteve sob tutela do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), nos EUA, até 1981, quando foi entregue a Espanha.
Picasso entregou o quadro ao MoMa e pediu que só fosse para Espanha quando fosse restabelecida a democracia no país.
"Guernica" está no Rainha Sofia desde 1992 e desde então nunca mais saiu deste museu, que recusou sempre qualquer pedido de empréstimo, invocando os riscos de um novo transporte e os danos e deterioração que a obra sofreu no passado com várias viagens, que o levaram a 11 países.
"Celebrar o 90.º aniversário de Gernika deve ser também garantir que esta obra possa cumprir mais 90 anos. Que continue a explicar às gerações futuras o horror da guerra e do fascismo que Picasso quis denunciar", defendeu hoje o ministro da Cultura de Espanha.
Ernst Urtasun disse que este "não é um quadro qualquer", é "provavelmente umas das obras do século XX mais frágeis e complexas de conservar", sublinhando que por isso não sai do Rainha Sofía desde 1992.
O ministro, citando os relatórios dos técnicos do museu de Madrid, referiu "a deterioração acumulada" nos transportes anteriores e sublinhou que há unanimidade por parte dos técnicos em desaconselhar novos transportes.
O senador Igotz Lopez, do Partido Nacionalista Basco (PNV, na sigla em espanhol), apelou ao ministro que seja feito um novo relatório envolvendo peritos internacionais e não apenas os do Museu Rainha Sofia, sublinhando que tem havido muitos avanços técnicos nas últimas décadas no transporte de obras de arte.
O "Guernica" já andou por 11 países e foi transportado mais de 40 vezes, nas nunca esteve no País Basco, lamentou o senador, que sublinhou o significado "simbólico emocional" que a obra tem "para o povo basco".
Nos últimos dias, o pedido dos bascos levou a uma troca de acusações de provincianismo entre os dirigentes do PNV e do Partido Popular (PP) de Madrid.
O ministro da Cultura manifestou hoje "respeito institucional e empatia" com o pedido feito pelo País Basco e condenou as declarações da líder do PP de Madrid e do governo regional madrileno, Isabel Díaz Ayuso.