Países Baixos devolvem artefactos da era colonial à Indonésia e Sri Lanka

Os Países Baixos anunciaram esta quinta-feira que vão devolver centenas de valiosos artefactos removidos da Indonésia e do Sri Lanka durante o período colonial. Entre os bens encontra-se o chamado "tesouro de Lombok", conjunto de pedras preciosas e joias de ouro e prata pilhadas pelas tropas neerlandesas de um palácio real em Bali.

RTP /
Freek van den Bergh - EPA

Os 484 objetos são os primeiros a serem devolvidos pelos Países Baixos às suas antigas colónias asiáticas. A decisão acontece depois de, em 2020, um relatório de um comité ter aconselhado o Governo a devolver artefactos culturais saqueados caso os países de origem o pedissem.

O secretário de Estado neerlandês para a Cultura fala num “momento histórico”. “É a primeira vez que seguimos as recomendações do comité para devolver objetos que nunca deveriam ter sido trazidos para os Países Baixos”, declarou.

Para além do “tesouro de Lombok”, serão devolvidas quatro estátuas de pedra do antigo reino de Singhasari, um punhal indonésio e 132 objetos de arte moderna de Bali, conhecidos por “coleção Pita Maha”.

Todos estes serão formalmente entregues ao Governo indonésio no Museu Nacional de Etnologia, nos Países Baixos, a 10 de julho.

Fica por devolver, porém, um artefacto que Jacarta pediu em 2022: o “Homem de Java”, composto pelos mais antigos fósseis da espécie homo erectus já descobertos. Entre os restos mortais encontra-se um crânio.
"Há coisas que levam mais tempo"
O “Homem de Java” foi encontrado pelo paleoantropólogo neerlandês Eugène Dubois na Indonésia no início dos anos 1890. Agora está exposto no Museu de História Natural de Leiden, nos Países Baixos, e continua a ser considerado uma descoberta histórica no estudo da evolução humana.

O museu justifica a recusa em devolver os fósseis com o argumento de que o “Homem de Java” nunca teria sido descoberto se não fosse pela iniciativa de Eugène Dubois. Diz ainda que os objetos que datam da pré-história não contam como património nacional.

Um porta-voz do Governo dos Países Baixos afirmou entretanto que não foi tomada uma decisão final. “Nada foi recusado ainda, mas há coisas que levam mais tempo do que outras”, explicou ao Guardian.

A devolução de artefactos a antigas colónias começou em 2017, quando o presidente francês, Emmanuel Macron, estabeleceu como prioridade a entrega de objetos africanos. Para além de França, também a Alemanha, Bélgica e Países Baixos começaram então a investigar as coleções dos seus museus e a transferir objetos para os respetivos países de origem.

Têm, desde aí, surgido algumas polémicas quanto às devoluções. Em dezembro do ano passado, a Alemanha entregou à Nigéria 21 Bronzes do Benim, esculturas provenientes desse antigo reino africano. No entanto, o Governo do país transferiu os bens para o palácio real, na sua posse, em vez de os expor ao público num museu que Berlim estava a financiar.
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