Países do Mercosul nervosos com «parceria estratégica» do Brasil com Europa

A decisão da União Europeia (UE) tornar o Brasil um novo «parceiro estratégico», por iniciativa da presidência portuguesa dos 27, está a causar nervosismo no Mercosul, tendo o Uruguai pedido hoje explicações sobre o alcance desta nova parceria.

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Na próxima quarta-feira, a União Europeia e o Brasil reúnem-se em Lisboa, sob a presidência portuguesa da UE, para a sua primeira cimeira de sempre, onde será formalizado o novo acordo bilateral entre as duas partes.

A iniciativa europeia marcará o ritmo das suas relações com o Brasil nos próximos cinco anos e será a questão central da primeira cimeira entre ambas as partes, altura em que a parceria será formalmente apresentada ao presidente brasileiro, Luíz Inácio Lula da Silva.

Os restantes membros do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai, mais a Venezuela, que se encontra em processo de adesão) receberam com preocupação a iniciativa da presidência portuguesa da UE.

Mas o governo brasileiro afirma que o seu acordo não implica compromissos comerciais ou políticos que possam prejudicar o bloco sul-americano.

Trata-se de um estatuto político semelhante ao que gozam aliados como os Estados Unidos, Canadá, Rússia, China, Japão e Índia e que permite negociar mais aceleradamente acordos de cooperação.

O Uruguai, que pediu informações ao governo do presidente Lula sobre o alcance do título "parceiro estratégico", não tem objecções à iniciativa desde que a mesma fortaleça a relação entre o Mercosul e a UE, mas a sua posição mudaria se essa parceria abarcasse aspectos comerciais, segundo fontes do governo.

O director de Integração e Mercosul do ministério das Relações Exteriores do Uruguai, Carlos Amorim, disse hoje que é prioridade absoluta (durante a presidência rotativa do seu país) tentar reanimar negociações com a UE.

Alguns parceiros do Mercosul temem que este será o caminho para acordos comerciais bilaterais entre Brasília e Bruxelas, que pretendam arrastar o resto do bloco.

Para o Brasil, o acordo com a UE implica um ansiado reconhecimento como principal potência latino-americana e como membro do bloco das grandes economias emergentes que ocuparão nos próximos anos um papel mais activo na cena internacional.

Segundo a Comissão Europeia, entre as prioridades do acordo com o Brasil incluem-se "avanços na agenda do Mercosul", reforço da estabilidade e prosperidade da América Latina, o impulso das relações multi-laterais, a energia e o meio ambiente.

Portugal, que a partir do dia 01 de Julho assume a Presidência rotativa da UE e que foi o principal promotor da iniciativa, considera que o acordo pode entrar em vigor em 2008.

O governo de Lula, através do Ministério das Relações Exteriores, destacou que a proposta "está em sintonia" com associações estratégicas que Brasil já mantém com a Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Portugal e Itália.

"O governo brasileiro entende que esta associação, que tem carácter estritamente bilateral, poderá representar um impulso político às negociações Mercosul-UE", segundo o ministério brasileiro.

O Brasil é o 11º parceiro comercial da UE no mundo e o bloco europeu investiu 80 mil milhões de euros (108 mil milhões de dólares) neste país sul-americano, muito acima do investido nas restantes economias emergentes do chamado "Bric" (Brasil, Rússia, Índia e China).

A Europa recebe 22 por cento de todas as exportações do Brasil, e agora reconhece o país como "líder natural" e motor económico de América do Sul.

"Dado o peso do Brasil no Mercosul, o reforço da relação política da UE contribuirá para a integração dentro do próprio Mercosul, assim como para as relações UE-Mercosul", segundo um documento da Comissão Europeia.

O diálogo comercial da UE com o Mercosul está paralisado desde 2004 por falta de acordo em pontos nevrálgicos como investimentos, licenças para produtos industriais e agrícolas, serviços e propriedade intelectual.

A Europa também reconhece o papel do Brasil no G-20, grupo das nações em desenvolvimento que respondem por boa parte do comércio mundial e que reclamam avanços mais profundos nas negociações para flexibilizar esse intercâmbio.

As negociações da Ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) estão bloqueadas há vários meses e o último esforço para as revitalizar voltou a falhar no passado dia 21 de Junho, em Postdam (Alemanha) por desacordo entre a União Europeia, Estados Unidos, Índia e Brasil.

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