Países mais pobres estão a ficar à margem da globalização
Os países menos desenvolvidos (PMD) estão a ficar à margem da globalização, vendo decrescer o seu peso no comércio e no investimento a nível mundial, segundo as Nações Unidas (ONU).
O alerta foi hoje feito por Harriet Schmidt, do Gabinete do Alto Representante da ONU para os países menos desenvolvidos, numa conferência que reúne representantes de perto de 50 PMD, em Istambul, Turquia.
"Ao longo dos últimos 30 anos, a globalização intensificou o comércio, aumentou a produção económica e criou uma riqueza sem precedentes no plano mundial, mas os PMD não chegaram a beneficiar. Esta é a triste realidade", afirmou hoje a responsável da ONU.
A ONU considera menos desenvolvidos 34 Estados africanos, 15 asiáticos e o Haiti.
Em África, exceptuando Cabo Verde, que passa para o grupo dos países de desenvolvimento médio, os outros quatro Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) - Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique - pertencem ao grupo dos menos desenvolvidos, o mesmo acontecendo relativamente a Timor-Leste (entre 15 Estados asiáticos)
No seu conjunto estes 50 países representam perto de 12 por cento da população mundial.
Segundo os dados hoje apresentados, o peso deste agrupamento no investimento directo estrangeiro a nível mundial é inferior a dois por cento.
Além disso, do total de investimento estrangeiro nos PMD, a grande maioria dos investimentos é canalizado para os sectores petrolífero e de extracção mineral, recursos não-renováveis.
O peso dos PMD nas exportações mundiais de mercadorias recuou de três por cento, na década de 50, para 0,7 por cento, na actual década.
A percentagem nas exportações agrícolas passou de 3,3 por cento para 1,5 por cento entre os anos 1970 e 1990.
"Se as forças da globalização continuam pelo caminho dos últimos trinta anos, vão completamente varrer os PMD" do cenário económico mundial, afirmou hoje Harriet Schmidt.
Para o Kermal Dervis, que chefia o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), nos últimos anos os progressos na integração económica dos PMD "foram muito ténues, quase nulos".
"É frustrante ver aqueles que promovem o livre comércio e o mercado liberal adoptar por vezes as medidas mais radicalmente proteccionistas, que bloqueiam completamente todas as oportunidades para os países em desenvolvimento".
A solução, adiantou o mesmo responsável, passa por "uma refundação geral da arquitectura internacional".
Também para o ex-presidente tanzaniano Benjamin Mkapa o problema está nas instituições internacionais, que, acusa, foram criadas para benefício dos países do norte.
"Estou menos convencido de que a comunidade internacional, em particular o mundo industrializado rico, é sério e resoluto no cumprimento das suas promessas (...) de apoiar o desenvolvimento das populações mais pobres da humanidade", afirmou o antigo chefe de Estado africano na conferência realizada na Turquia.