Papa Francisco admite culpas da Igreja no genocídio do Ruanda

| Mundo

O presidente ruandense, Paul Kagame, com o papa
|

O papa admitiu os "pecados e erros da Igreja e dos seus membros" durante o genocídio de 1994, que em pouco mais de três meses causou quase um milhão de mortes no Ruanda.

O papa falava depois de um encontro com o presidente actual do Ruanda, Paul Kagame, tendo pedido desculpa pelo papel desempenhado por aqueles padres católicos que, disse, "sucumbiram ao ódio e à violência".

Segundo uma declaração emitida pelo Vaticano, o sumo pontífice "expressou o desejo de que este humilde reconhecimento dos erros daquele período, que infelizmente desfiguraram a face da Igreja, possa contribuir para a 'purificação da memória' e possa promover um futuro de paz, na esperança e na confiança renovada".

A mesma declaração refere que o papa "implorou novamente o perdão de Deus para os pecados e erros da Igreja e dos seus membros, entre os quais padres, religiosos e religiosas, que sucumbiram ao ódio e à violência, traindo a sua própria missão evangélica". E acrescentea que "esta atitude foi facilmente interpretada pelos simples cristãos como uma aprovação implícita dos assassínios, tal como o foi a estreita ligação de dirigentes da Igreja aos dirigentes do genocídio".

A declaração referia-se ao genocídio de 800.000 tutsis e também de um certo número de hutus, por fanáticos tribalistas hutus - uma série de massacres instigados em 1994 pela guarda pretoriana do presidente hutu Juénal Habyarimana, quando este morreu ao ser abatido por um míssil o avião em que seguia.

Os hutus que se recusavam a participar nos massacres contra amigos, colegas ou vizinhos tutsis eram também massacrados. E algumas das vítimas foram freiras e padres católicos, que não quiseram tornar-se cúmplices da orgia de violência. Calcula-se em 200 os padres e freiras assassinados por esse motivo.

Mas outros envolveram-se no genocídio, a começar na cúpula da Igreja com o arcebispo Vincent Nsengiyumva, membro dirigente durante 15 anos do partido governante, completamente dominado pelos hutus e discriminador dos tutsis. Nsengiyuma presenciou o assassínio de padres e freiras que se recusavam a matar tutsis e foi depois uma peça chave no branqueamento do genocídio, que se recusava a designar com esse nome.

Alguns dos padres cúmplices do morticínio chegaram a utilizar os recursos e instalações da Igreja para realizar os massacres. Na igreja católica de Ntarama foram mortas cerca de 5.000 pessoas em 15 de agosto de 1994.

O padre católico Athanase Seromba mandou demolir e terraplanar o recinto da sua igreja, onde estavam abrigados 2.000 tutsis. Um outro prelado, Wenceslas Munyeshyaka, elaborou listas de homens para serem mortos e mulheres para serem violadas, segundo apurou em 2005 um tribunal da ONU para os crimes contra a humanidade no Ruanda.

A informação mais vista

+ Em Foco

Em 9 de abril de 1918, a ofensiva alemã varre a resistência portuguesa. O dossier que se segue lança um olhar sobre o antes, o durante e o depois.

    Quase seis décadas depois, a Presidência de Cuba deixou de estar nas mãos de um membro do clã Castro.

    Porto Santo tem em curso um projeto para se transformar na primeira ilha do planeta livre de combustíveis fósseis.

    Uma caricatura do mundo em que vivemos.