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Papa Francisco vai nomear duas mulheres para o Dicastério para os bispos
O Sumo Pontífice da Igreja Católica promete mais mudanças na Cúria, de forma a dar às mulheres um papel mais relevante na administração da Santa Sé, incluindo cargos elevados. Em entrevista exclusiva à Agência Reuters, o papa Francisco revelou que se prepara para por fim à hegemonia masculina no comité que o ajuda a selecionar os futuros pastores diocesanos.
“Estou aberto a que seja dada a oportunidade. Agora o Governatorato [a secretaria-central do Vaticano] tem uma vice-governadora… Agora, na Congregação para os bispos [anterior designação do actual Dicastério] , na comissão para eleger os bispos, duas mulheres irão para lá pela primeira vez. Abre-se um pouco desta forma”, disse o Papa.
A decisão ainda não foi anunciada oficialmente e é um marco histórico pois até agora a escolha dos prelados cabia inteiramente a homens. Os membros do comité são habitualmente cardeais, bispos e sacerdotes, que se reúnem duas vezes ao mês em Roma. Francisco não revelou contudo quem serão as duas mulheres que irão integrar o comité nem quando a sua nomeação será revelada.
A decisão segue uma tendência que o papa pretende implementar e tornar habitual. Em junho passado entrou em vigor a Praedicate Evangelium, nome dado à nova Constituição que rege a administração da Santa Sé, conhecida como Cúria, e a qual abre a todos os batizados católicos incluindo leigos, tanto homem como mulheres, a direção da maioria dos departamentos do Vaticano.
Na ocasião, o cardeal irlandês-americano Kevin Joseph Pharrell, Prefeito para o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, instituído pelo Santo Padre Francisco em 15 de agosto de 2016, reagiu com uma gargalhada dizendo que ele seria provavelmente o último clérigo e dirigir o departamento.
Outras mulheres na Cúria
Questionado sobre os departamentos que poderão vir a ser entregues a leigos, tanto homens como mulheres, o papa mencionou como prováveis a Biblioteca Vaticana, atualmente dirigida pelo cardeal português José Tolentino Mendonça, e os Dicastérios para a Educação e para a Cultura Católicas.
Na entrevista de 90 minutos, dada no início do mês de julho, sobre as novas disposições para a administração do Vaticano e a valorização da mulher na Cúria, o Santo Padre lembrou aliás a nomeação o ano passado da irmã Raffaella Petrini, pela primeira vez, para o cargo de vice-governadora da secretaria central do Vaticano.
Raffaella Petrini é desde então a mulher com a posição mais elevada na Santa Sé, entre diversas outras mulheres, tanto religiosas como leigas, que desempenham atualmente funções em vários departamentos do Vaticano.
Francisco nomeou a Irmã Nathalie Becquart, membro francês das Irmãs Missionárias Xavierianas, como subsecretária do Sínodo dos Bispos. A irmã italiana Alessandra Smerilli foi por sua vez nomeada número dois do Departamento que lida como questões de Justiça e Paz.
Entre as leigas que já ocupam altos cargos no Vaticano estão Barbara Jatta, a primeira diretora dos Museus Vaticanos, e Cristiane Murray, vice-diretora da Sala de Imprensa Vaticana. Ambas foram nomeadas pelo atual Pontífice.
Renúncia e saúde
Na entrevista exclusiva dada a Phil Pullella em italiano e em Santa Marta, a sua residência no Vaticano, o Papa Francisco negou ainda que esteja a pensar renunciar nos tempos mais próximos, lembrando a sua viagem apostólica ao Canadá e revelando que esperar poder ir logo depois a Kiev, na Ucrânia, e a Moscovo, na Rússia. O Santo Padre já prometeu que estará presente em Lisboa para as Jornadas Mundiais da Juventude em 2023 "de cadeira de rodas, maca ou padiola".
A possibilidade de renúncia surgiu depois de várias reuniões nos últimos meses sobre a nova Constituição, a nomeação de novos cardeais e de uma visita a Aquilla, lugar associado com Celestino V, o primeiro Papa a renunciar, em 1294, e visitada igualmente por Bento XVI, que renunciou em 2013 numa decisão que chocou o mundo.
“Todas estas coincidências fizeram alguns pensar que iriam ocorrer a mesma liturgia”, reconheceu o Papa. “Mas nunca me passou pela cabeça. Para já, não, para já, não. Verdade” garantiu ainda Francisco, que já assumiu a liberdade de se afastar caso a sua saúde não lhe permita continuar a servir a Igreja. “Não sabemos. Deus dirá”.
Com 85 anos, o Santo Padre negou ainda rumores sobre a possibilidade de sofrer de cancro, hipótese levantada em 2021 quando teve de se submeter a uma cirurgia de seis horas para remoção de uma parte do cólon devido a diverticulitis, uma doença comum entre os idosos. Francisco referiu, a rir, que os médicos não me disseram nada e respondeu no mesmo tom à pergunta como se sente?, com um alegre ainda estou vivo!
O Papa falou ainda pela primeira vez do problema que lhe afetou o joelho, revelando estar a recuperar de uma fratura menor feita quando os ligamentos estavam inflamados. “Estou bem a melhorar aos poucos”, garantiu.
Aborto e comunhão
O Papa falou ainda sobre a guerra na Ucrânia, que considerou “cruel e sem sentido”.
Já sobre a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América em anular Roe v Wade, Francisco recusou pronunciar-se sobre a questão jurídica em causa mas reiterou a sua oposição frontal ao aborto, que comparou à contratação “de um assassino”: “eu pergunto, é legítimo, é lícito, eliminar um ser humano para resolver um problema?”.
Já sobre a polémica que grassa nos Estados Unidos sobre dar a comunhão a católicos que apoiam o direto a decidir sobre o ato de abortar, Francisco recorreu ao seu próprio entendimento do que considera a verdadeira pastoral.
“Quando a Igreja perde a sua natureza pastoral, quando um bispo perde a sua natureza pastoral, pode causar um problema político”, afirmou. “É só o que posso dizer”.