Mundo
Papa usa esmoler para chegar aos mais pobres de Roma
Começa a ser habitual ver o esmoler do Papa Francisco à noite entre os sem-abrigo e os mais pobres de Roma. Impossibilitado de fazer em pessoa o que fazia enquanto cardeal Bergoglio nas ruas de Buenos Aires, Francisco envia em seu nome o arcebispo Konrad Krajewski para confortar os que mais precisam.
"Acima de tudo as pessoas necessitam que as escutem" comenta o padre Krajewski (como prefere ser chamado) à reportagem da Associated Press. "E quando dizemos que somos do Vaticano e que estamos a fazer isto em
nome do Santo Padre," acrescenta, "os seus corações abrem-se ainda
mais."
Aponta depois o grupo de guardas suíços, de folga, que o acompanham nestas rondas e que transporta no seu modesto Fiat. "Além do seu entusiasmo sabem pelo menos quatro idiomas" explica o responsável pela Esmolaria do Vaticano.
Além dos guardas, o padre Konrad leva também sobras da messe do Vaticano, algum dinheiro entregue pelo Papa e faz, por vezes, alguns convites especiais.
A missão confiada por Francisco
"O meu trabalho é ser uma extensão da mão do Papa estendida aos pobres, aos necessitados, aqueles que sofrem," diz Krajewski. "Ele não pode sair do Vaticano, por isso escolheu uma pessoa que sai para abraçar aqueles que sofrem," em seu lugar.
Foi exatamente essa a missão que lhe foi confiada, de acordo com o L'Osservatore Romano. Francisco foi muito explícito ao explicar a Konrad Krajewski o cargo de Esmoler do Vaticano, para o qual o renomeara a três de agosto de 2013.
"Não serás um bispo de secretária, nem te quero ver atrás de mim nas celebrações. Quero-te sempre no meio das pessoas. Tu deverás ser o prolongamento da minha mão para levar uma carícia aos pobres, aos deserdados e aos últimos. Em Buenos Aires com frequência saía para ir ao encontro dos mais pobres. Agora já não posso: é difícil sair do Vaticano. Então tu fá-lo-ás por mim, serás o prolongamento do meu coração que os alcança e lhes leva o sorriso e a misericórdia do Pai celeste," cita o jornal.

Uma esmola "tem de me custar"
O padre Konrad leva a sua missão a sério e já visitou todas as localidades mais pobres de Roma e da sua periferia, desde lares de idosos às estações de caminhos de ferro onde 400 a 500 pessoas se enfileiram todas as noites à espera da sopa dos pobres, distribuída por organizações de caridade e de solidariedade.
"Enche-me de alegria" afirma ao L'Osservatore Romano, "saber que agora, quando abraço um desses nossos irmãos mais necessitados, lhe transmito todo o calor, o amor e a solidariedade do Papa. E ele, o Papa Francisco, com frequência me pede o balanço. Quer saber."
À Associated Press o Esmoler do Vaticano confia algumas ações mais próximas do Papa Francisco e revela o segredo do seu cargo. O Vaticano tem meios próprios para organizar e financiar projetos de caridade maiores ou de longo prazo. O esmoler, um cargo criado há centenas de anos, encarrega-se do auxílio de proximidade, pequenos gestos de ajuda realizados sem complicações burocráticas mas que vêm do coração e devem implicar algum sacrifício.
"Para dar uma esmola, tem de me custar alguma coisa para poder mudar-me," explica aos jornalistas o arcebispo de 50 anos e de origem polaca, que acompanhou o Papa João Paulo II nos últimos anos do seu pontificado.
E, para ser mais claro, dá o exemplo de um cardeal, não identificado, que, há alguns anos, se ufanava de dar todos os dias dois euros a um pedinte de uma rua próxima do Vaticano.
"Disse-lhe, Eminência, isso não é dar uma esmola. Talvez consiga dormir à noite, mas para dar uma esmola tem de lhe custar. Dois euros não é nada para si. Pegue nessa pobre pessoa, leve-o para o seu apartamento de três casas de banho, deixe-o tomar um banho - e a sua casa-de-banho irá ficar a cheirar mal por três dias - e quando ele estiver no duche faça-lhe café e sirva-lho e dê-lhe talvez uma camisola sua. Isso é que é dar uma esmola," afirma o padre Krajewski.
Um contacto direto
Seguindo esta recomendação, o Papa usa o Esmoler do Vaticano para ajudar milhares de pessoas por ano, sem fazer alarde, no silêncio e na discrição, tal como a pobreza envergonhada e escondida a que se destina.
Quanto àqueles que vai ajudar em nome de Francisco nas suas excursões noturnas, o Padre Konrad sublinha ao L'Osservatore que "o Papa quer que eu tenha contacto direto com eles, que os encontre nas suas realidades existenciais, nos refeitórios, nas casas de acolhimento, nos lares ou nos hospitais."
"Cito-lhe um exemplo. Se alguém pedir ajuda para pagar uma conta, é melhor que eu vá, se possível, a sua casa levar pessoalmente o auxílio, para fazer compreender que o Papa, através do esmoler, lhe está próximo; se alguém pede ajuda porque se sente sozinho e abandonado, devo correr até ele e abraçá-lo para lhe fazer sentir o afeto do Papa, portanto da Igreja de Cristo. Ele gostaria de o fazer pessoalmente, como fazia em Buenos Aires, mas não pode. Por isso quer que eu faça por ele."

Missão diária
Todas as manhãs um polícia vai da Casa de Santa Marta onde vive Francisco até aos escritórios da Esmolaria, atravessando os jardins do Vaticano com um molho de cartas que o Papa recebeu dos fiéis, a pedir auxílio. Em cada envelope o Papa poderá ter escrito "sabe o que tem a fazer", "vá ter com eles" ou "vá falar com eles."
Krajewski poderá então levar um cheque de 200 euros para uma mulher a quem roubaram a carteira com todo o dinheiro que tinha ou visitar uma família que tem um filho a morrer.
Por vezes nem a intervenção do esmoler é suficiente.
Recentemente, um caso tocou o Papa de forma especial, a história de Noemi Sciarretta, de 18 meses, que nasceu com Atrofia Muscular Espinhal, uma condição genética incurável. Os pais de Noemi escreveram ao Papa em outubro. Estavam desesperados porque os médicos nada podiam fazer pela sua filha.
Uma família especial
Krajewski passou o dia um de novembro com os pais de Noemi em casa deles, em Abruzzo. Cinco dias depois, quando o estado da criança piorou a família foi até ao Vaticano, jantando com Francisco em Santa Marta e dormindo igualmente no mesmo edifício.
Momentos após o primeiro encontro com a família, Francisco encaminhou-se para a audiência geral das quartas-feiras na Praça de S.Pedro. E deu início às celebrações pedindo a dezenas de milhares de pessoas que ali se encontravam que rezassem pela pequena Noemi.A posição de Esmoler do Vaticano existe há centenas de anos, sendo mencionada numa bula papal por Inocêncio III, no século XIII e tendo sido criada como um gabinete da Santa Sé pelo Papa Gregório X (1271-1276), especialmente para gerir os seus gestos de caridade.
A Esmolaria do Vaticano é financiada pela venda de exemplos de pergaminhos pontifícios, ou certificados artesanais incluindo fotografias assinadas do Pontífice e portadoras de uma benção apostólica escrita, que podem ser adquiridas para uma ocasião especial como um casamento, um batismo ou uma ordenação,
Em 2013, o gabinete gastou um milhão de euros em 6.500 pedidos de auxílio. Krajewski diz que este ano os pedidos mais do que duplicaram.

E Francisco fica só no Vaticano?
Em nome do Papa, o Esmoler deslocou-se à ilha de Lampedusa, depois do naufrágio que matou 350 emigrantes clandestinos. Esteve lá quatro dias e distribuiu 1.600 cartões de telefone aos sobreviventes, para contactarem as famílias na Eritreia para as sossegarem e dizerem que estavam vivos. Rezou ainda com os mergulhadores da polícia que tentavam recuperar os corpos das vítimas.
"O objetivo é este, estar com as pessoas e partilhar as suas vidas, nem que seja por 15, 30 minutos, uma hora" diz Krajewski.
O Esmoler de Francisco evita contudo responder quando lhe perguntam se o Papa argentino já se escapuliu do Vaticano para visitar os pobres, como fazia em Buenos Aires.
"Próxima pergunta!" disse apenas.
Aponta depois o grupo de guardas suíços, de folga, que o acompanham nestas rondas e que transporta no seu modesto Fiat. "Além do seu entusiasmo sabem pelo menos quatro idiomas" explica o responsável pela Esmolaria do Vaticano.
Além dos guardas, o padre Konrad leva também sobras da messe do Vaticano, algum dinheiro entregue pelo Papa e faz, por vezes, alguns convites especiais.
A missão confiada por Francisco
"O meu trabalho é ser uma extensão da mão do Papa estendida aos pobres, aos necessitados, aqueles que sofrem," diz Krajewski. "Ele não pode sair do Vaticano, por isso escolheu uma pessoa que sai para abraçar aqueles que sofrem," em seu lugar.
Foi exatamente essa a missão que lhe foi confiada, de acordo com o L'Osservatore Romano. Francisco foi muito explícito ao explicar a Konrad Krajewski o cargo de Esmoler do Vaticano, para o qual o renomeara a três de agosto de 2013.
"Não serás um bispo de secretária, nem te quero ver atrás de mim nas celebrações. Quero-te sempre no meio das pessoas. Tu deverás ser o prolongamento da minha mão para levar uma carícia aos pobres, aos deserdados e aos últimos. Em Buenos Aires com frequência saía para ir ao encontro dos mais pobres. Agora já não posso: é difícil sair do Vaticano. Então tu fá-lo-ás por mim, serás o prolongamento do meu coração que os alcança e lhes leva o sorriso e a misericórdia do Pai celeste," cita o jornal.
Uma esmola "tem de me custar"
O padre Konrad leva a sua missão a sério e já visitou todas as localidades mais pobres de Roma e da sua periferia, desde lares de idosos às estações de caminhos de ferro onde 400 a 500 pessoas se enfileiram todas as noites à espera da sopa dos pobres, distribuída por organizações de caridade e de solidariedade.
"Enche-me de alegria" afirma ao L'Osservatore Romano, "saber que agora, quando abraço um desses nossos irmãos mais necessitados, lhe transmito todo o calor, o amor e a solidariedade do Papa. E ele, o Papa Francisco, com frequência me pede o balanço. Quer saber."
À Associated Press o Esmoler do Vaticano confia algumas ações mais próximas do Papa Francisco e revela o segredo do seu cargo. O Vaticano tem meios próprios para organizar e financiar projetos de caridade maiores ou de longo prazo. O esmoler, um cargo criado há centenas de anos, encarrega-se do auxílio de proximidade, pequenos gestos de ajuda realizados sem complicações burocráticas mas que vêm do coração e devem implicar algum sacrifício.
"Para dar uma esmola, tem de me custar alguma coisa para poder mudar-me," explica aos jornalistas o arcebispo de 50 anos e de origem polaca, que acompanhou o Papa João Paulo II nos últimos anos do seu pontificado.
E, para ser mais claro, dá o exemplo de um cardeal, não identificado, que, há alguns anos, se ufanava de dar todos os dias dois euros a um pedinte de uma rua próxima do Vaticano.
"Disse-lhe, Eminência, isso não é dar uma esmola. Talvez consiga dormir à noite, mas para dar uma esmola tem de lhe custar. Dois euros não é nada para si. Pegue nessa pobre pessoa, leve-o para o seu apartamento de três casas de banho, deixe-o tomar um banho - e a sua casa-de-banho irá ficar a cheirar mal por três dias - e quando ele estiver no duche faça-lhe café e sirva-lho e dê-lhe talvez uma camisola sua. Isso é que é dar uma esmola," afirma o padre Krajewski.
Um contacto direto
Seguindo esta recomendação, o Papa usa o Esmoler do Vaticano para ajudar milhares de pessoas por ano, sem fazer alarde, no silêncio e na discrição, tal como a pobreza envergonhada e escondida a que se destina.
Quanto àqueles que vai ajudar em nome de Francisco nas suas excursões noturnas, o Padre Konrad sublinha ao L'Osservatore que "o Papa quer que eu tenha contacto direto com eles, que os encontre nas suas realidades existenciais, nos refeitórios, nas casas de acolhimento, nos lares ou nos hospitais."
"Cito-lhe um exemplo. Se alguém pedir ajuda para pagar uma conta, é melhor que eu vá, se possível, a sua casa levar pessoalmente o auxílio, para fazer compreender que o Papa, através do esmoler, lhe está próximo; se alguém pede ajuda porque se sente sozinho e abandonado, devo correr até ele e abraçá-lo para lhe fazer sentir o afeto do Papa, portanto da Igreja de Cristo. Ele gostaria de o fazer pessoalmente, como fazia em Buenos Aires, mas não pode. Por isso quer que eu faça por ele."
Missão diária
Todas as manhãs um polícia vai da Casa de Santa Marta onde vive Francisco até aos escritórios da Esmolaria, atravessando os jardins do Vaticano com um molho de cartas que o Papa recebeu dos fiéis, a pedir auxílio. Em cada envelope o Papa poderá ter escrito "sabe o que tem a fazer", "vá ter com eles" ou "vá falar com eles."
Krajewski poderá então levar um cheque de 200 euros para uma mulher a quem roubaram a carteira com todo o dinheiro que tinha ou visitar uma família que tem um filho a morrer.
Por vezes nem a intervenção do esmoler é suficiente.
Recentemente, um caso tocou o Papa de forma especial, a história de Noemi Sciarretta, de 18 meses, que nasceu com Atrofia Muscular Espinhal, uma condição genética incurável. Os pais de Noemi escreveram ao Papa em outubro. Estavam desesperados porque os médicos nada podiam fazer pela sua filha.
Uma família especial
Krajewski passou o dia um de novembro com os pais de Noemi em casa deles, em Abruzzo. Cinco dias depois, quando o estado da criança piorou a família foi até ao Vaticano, jantando com Francisco em Santa Marta e dormindo igualmente no mesmo edifício.
Momentos após o primeiro encontro com a família, Francisco encaminhou-se para a audiência geral das quartas-feiras na Praça de S.Pedro. E deu início às celebrações pedindo a dezenas de milhares de pessoas que ali se encontravam que rezassem pela pequena Noemi.A posição de Esmoler do Vaticano existe há centenas de anos, sendo mencionada numa bula papal por Inocêncio III, no século XIII e tendo sido criada como um gabinete da Santa Sé pelo Papa Gregório X (1271-1276), especialmente para gerir os seus gestos de caridade.
A Esmolaria do Vaticano é financiada pela venda de exemplos de pergaminhos pontifícios, ou certificados artesanais incluindo fotografias assinadas do Pontífice e portadoras de uma benção apostólica escrita, que podem ser adquiridas para uma ocasião especial como um casamento, um batismo ou uma ordenação,
Em 2013, o gabinete gastou um milhão de euros em 6.500 pedidos de auxílio. Krajewski diz que este ano os pedidos mais do que duplicaram.
E Francisco fica só no Vaticano?
Em nome do Papa, o Esmoler deslocou-se à ilha de Lampedusa, depois do naufrágio que matou 350 emigrantes clandestinos. Esteve lá quatro dias e distribuiu 1.600 cartões de telefone aos sobreviventes, para contactarem as famílias na Eritreia para as sossegarem e dizerem que estavam vivos. Rezou ainda com os mergulhadores da polícia que tentavam recuperar os corpos das vítimas.
"O objetivo é este, estar com as pessoas e partilhar as suas vidas, nem que seja por 15, 30 minutos, uma hora" diz Krajewski.
O Esmoler de Francisco evita contudo responder quando lhe perguntam se o Papa argentino já se escapuliu do Vaticano para visitar os pobres, como fazia em Buenos Aires.
"Próxima pergunta!" disse apenas.