Para onde Irão?

Os recentes protestos no Irão têm marcado esta semana. O receio de uma convulsão social e política nesta potência do Médio Oriente tem vindo a despertar receios e esperanças em vários actores internacionais. Especula-se sobre uma possível, e conveniente, ingerência externa: saudita, israelita ou americana. E os media tendem a precipitar-se sobre o possível impacto destes protestos no statuo quo iraniano (comparando-os com o Movimento Verde de 2009, a seguir à vitória do conservador Mahmoud Ahmadinejad). Mas a especulação e a precipitação não são as melhores conselheiras para a análise geopolítica. Convido então o leitor a decompor as causas, para considerar as possíveis consequências destas convulsões.

Felipe Pathé Duarte - Comentador de Assuntos Internacionais da RTP /
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Causas:

1. Os recentes protestos são sobre falhas de políticas internas iranianas, associadas a preços elevados dos bens alimentares e gasolina; ao desemprego (mais de 12%); à corrupção da elite governativa e aos efeitos sociais dos compromissos militares levados a cabo fora do Irão (na Síria, Iémen, Iraque, Líbano...). A maioria dos manifestantes não exige mudanças sistémicas, mas sim uma reforma do sistema existente. Aliás, muitos exigem que o presidente Rouhani mantenha as suas promessas de melhorar a economia e acabar com a corrupção. Mas, a profundidade do descontentamento e da dificuldade nas classes mais baixas da sociedade iraniana parece ter escapado ao vasto aparelho de segurança do Irão. Portanto, as manifestações surpreenderam a liderança.

2. Esta tensão demonstra que os líderes políticos e religiosos não estão em contacto com a população em geral. E vivem num paradoxo: o Irão tem uma população juvenil que se considera tão sofisticada quanto os europeus, mas é governado por velhos clérigos. A segunda e terceira gerações de iranianos, criadas após a revolução de 1979, não possuem o fervor religioso dos seus pais e avós – querem que se cumpram as promessas de uma vida melhor para agora, não numa vida após a morte.

3. Os líderes iranianos sempre demonstraram o sucesso da sua experiência teocrática constitucional. Trabalharam para apresentar uma imagem homogénea de que os iranianos apoiam os clérigos. Todavia, agora, os manifestantes expuseram as graves fragilidades no contrato social entre os cidadãos e o governo. Os líderes não tiveram em conta o impacto negativo que as suas políticas e práticas religiosas tiveram nos menos afortunados economicamente e nos jovens desempregados.

Possíveis consequências:
1. Os principais relatos dos média compararam os protestos com os do Movimento Verde de 2009. De facto, a expansão geográfica das manifestações sugere que são os mais difundidos desde essa altura. Todavia, embora os protestos actuais sejam generalizados, são de reduzida dimensão. Além disso, estão demasiado dispersos, descentralizados, sem coordenação, liderança e organização necessárias para resistir a uma repressão de segurança.

2. Sabe-se que 90% dos manifestantes têm menos de 25 anos e a maioria parece ser de classes sociais mais baixas, a residir nas áreas rurais do país e não nos centros grandes urbanos (como acontecia em 2009). A maioria dos protestos ocorreu fora de Teerão. Os manifestantes parecem não possuir a organização necessária para sustentar uma ameaça existencial ao regime. Logo, é pouco provável que venham a acontecer mudanças. É sabido que as unidades policiais e paramilitares respondem à autoridade central – e os manifestantes ainda não conseguem controlar a violência do Estado.

3. No entanto, se alguma classe média e alta se associar aos manifestantes e formarem um movimento, poderá haver um abalo no regime. Ou seja, apesar do grande crescimento dos protestos durante o fim de semana, o movimento precisará de atrair o apoio de várias franjas sociais para continuar a crescer. Até agora, não parecem estruturados o suficiente para se transformarem numa ameaça que desafie o establishment.

4. Os protestos ainda não têm aliados políticos claros. Os reformistas e moderados já têm suficiente domínio político – o governo municipal de Teerão, o parlamento iraniano e as partes eleitas do governo federal. Por isso, há muito a perder com o apoio público a este movimento de protesto. Especula-se que, na tentativa de ganhar apoio da juventude rural, os líderes da linha dura do Irão apoiaram inicialmente a contestação, que começou a ser dirigida contra o presidente Rouhani. Mas os defensores da linha dura não podem arriscar-se a continuar esse apoio, pois os manifestantes visam agora também o líder supremo, o aiatola Ali Khamenei e o governo em geral (alguns até defendem o retorno à monarquia).

5. Até ao momento, não há um único grupo político que possa beneficiar directamente do apoio aos protestos. Porém, é possível que surja uma liderança que permita que as manifestações se unam a um movimento duradouro – alguém que saiba tirar proveito do descontentamento popular. Caso contrário, o movimento morre. Contudo, é preciso ter em conta que as manifestações poderão diminuir, mas o descontentamento subjacente permanecerá.


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