Parlamento da Venezuela é eleito domingo em plena crise política
A Venezuela voltou a mergulhar numa crise politica, desta vez por causa das legislativas marcadas para domingo, com a oposição a ameaçar boicotá-las e o Governo a acusá-la de querer desestabilizar o país a mando dos Estados Unidos.
Os partidos Acción Democratica (26 deputados), Copei (seis), Proyecto Venezuela (sete), Primero Justicia (cinco) e Un Nuevo Tiempo (quatro) anunciaram um boicote e propuseram o adiamento da eleição dos 167 deputados à Assembleia Nacional, por considerarem que a Comissão Eleitoral é pró-governamental e que o sistema electrónico de votação não garante o anonimato dos eleitores.
A medida, que o Presidente Hugo Chávez afirma ter sido planeada pela administração norte-americana, não impediu a Comissão Eleitoral de confirmar quinta-feira a realização das eleições e de anunciar que, apesar do boicote, apenas 80 dos mais de 4.000 candidatos retiraram as suas candidaturas.
Os argumentos da oposição são os mesmos que apresentou para contestar o referendo revogatório do mandato presidencial de Agosto de 2004, votação que Chávez venceu com 59 por cento dos votos e que foi validada pelos observadores da Organização de Estados Americanos (OEA) e do Centro Cárter.
Mas esta é a primeira vez que os dois principais partidos da oposição, a Acción Democratica e a Copei, que durante décadas alternaram no poder, lançam um boicote.
Também na quinta-feira, milhares de apoiantes do Presidente desfilaram por Caracas em "apoio da democracia" e contra a oposição.
Horas mais tarde, numa alocução na rádio e na televisão, Chávez classificou o boicote da oposição como "uma nova conspiração contra a Venezuela" e disse ter "provas de como a CIA (a Agência Central de Informações norte-americana) está a incitar esta conspiração".
As relações entre a Venezuela e os Estados Unidos deterioraram- se progressivamente desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999, com Washington a criticar as "intenções totalitárias" do Presidente venezuelano e este a acusar Washington de "ingerência e intervencionismo" na Venezuela.
Analistas políticos próximos da oposição, como Luis Vicente Leon, criticaram a decisão de boicotar o escrutínio por considerarem que ele deixa o caminho aberto aos partidários de Chávez numas eleições em que, antes, a oposição esperava eleger pelo menos 57 deputados para impedir uma maioria de dois terços (111) pró-Chavez e evitar assim a aprovação parlamentar de reformas de fundo, emendas à Constituição ou alterações à composição do tribunal constitucional.
Antes do anúncio do boicote, as várias sondagens previam, no entanto, que a oposição, no seu conjunto, elegesse apenas três dezenas de deputados.
Centenas de observadores da OEA e da União Europeia, cuja missão é chefiada pelo eurodeputado português social-democrata Silva Peneda, estão a acompanhar o processo eleitoral e deverão divulgar os seus primeiros relatórios nos dias seguintes ao das eleições.
Ambas as missões acompanharam, nomeadamente, a última auditoria realizada ao sistema de votação electrónico que vai funcionar em 27.339 das 27.542 mesas de voto, realizada no domingo passado numa amostra de 0,5 por cento das máquinas.
Cerca de 14,5 milhões de eleitores estão convocados para este escrutínio, destinado a eleger, além dos 167 deputados à Assembleia Nacional, 12 deputados ao Parlamento Latino-Americano e cinco deputados ao Parlamento Andino.
Os venezuelanos no estrangeiro também podem participar nestas eleições, sendo que, em Portugal Continental, apenas 313 dos mais de 3.500 venezuelanos residentes estão recenseados, segundo o consulado venezuelano em Lisboa.