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Parricídio abre debate sobre violência doméstica na Rússia

Parricídio abre debate sobre violência doméstica na Rússia

Três irmãs russas mataram o pai após sofrerem anos de abuso físico e sexual. Num país em que a violência doméstica faz cerca de 600 mil vítimas e 14 mil mortes por ano, o caso está a originar protestos e a abrir o debate sobre o tema.

RTP /
Manifestante em São Petersburgo com cartaz que lê "Respeito em vez de flores" Anton Vaganov - Reuters

Maria, Angelina e Krestina Khachaturyan, de 17, 18 e 19 anos, respetivamente, esfaquearam o pai enquanto este dormia, na sua casa em Moscovo. As irmãs comunicaram o sucedido às autoridades. Disseram também que acreditavam correr risco de vida, tendo de agir. De acordo com um dos advogados, Alexei Parshin, nesse dia o pai pulverizou as irmãs com um aerossol, cujo gás fez Krestina desmaiar.

Os especialistas confirmaram que as irmãs eram agredidas quase diariamente pelo pai, que as forçava também a desempenhar atos sexuais. Os advogados das irmãs afirmaram que estas tinham sido condicionadas a pensar nelas mesmas como escravas e que a agressão constante tinha afetado a sua saúde mental.

As irmãs estão agora a ser acusadas de homicídio premeditado. As mais velhas, Angelina e Krestina, enfrentam até 20 anos de prisão, enquanto Maria enfrenta dez.

A acusação originou uma onda de protestos. Centenas de pessoas têm mantido protestos diários em Moscovo. Para o dia 6 de julho está marcada uma manifestação de maior dimensão. Houve também alguns protestos em defesa das irmãs em embaixadas e consulados russos por todo o mundo.

"Não havia ninguém a quem pudessem pedir ajudar. A polícia na Rússia acredita que a violência doméstica é um assunto privado, familiar e que não há razão para se envolverem nisso", disse Anna Rivina, líder de uma organização em Moscovo que combate a violência doméstica. E acrescenta: "As irmãs só tinham uma escolha – defenderem-se ou morrer".
A violência doméstica na Rússia

Em 2017, com o apoio da Igreja Ortodoxa, a Rússia descriminalizou algumas formas de violência doméstica para réus sem antecedentes criminais, como por exemplo casos de violência que não ocorram mais de uma vez por ano ou que não causem ossos partidos. Desde que a nova lei entrou em vigor, o número de casos de violência doméstica aumentou, segundo organizações pela defesa dos direitos das mulheres.

De acordo com estatísticas da polícia russa, dois terços dos homicídios no país são causados pela família ou por motivos familiares e 40 por cento de todos os crimes violentos foram cometidos dentro das famílias. 
 
BBC divulgou que, em 2013, 600 mil mulheres tinham sido verbal ou fisicamente agredidas em casa e que 14 mil tinham morrido de lesões infligidas pelos parceiros. Algumas associações de Direitos Humanos dizem que o número de mulheres que sofrem de violência doméstica por ano na Rússia é muito superior: 16 milhões. A Reuters revelou também que entre dez a 14 mil mulheres são mortas por ano, vítimas de violência doméstica.

Em agosto, um homem em Votinsk, no centro da Rússia, assassinou a sua mulher em frente ao filho de cinco anos, mas não foi condenado e o tribunal reclassificou a acusação de homicídio como um crime passional. 

"O Governo não defende as vítimas de violência doméstica. Essas mulheres que são forçadas a defenderem-se a si mesmas acabam frequentemente na prisão", disse Rivina.

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