Partido pró-junta militar em Myanmar reivindica vitória nas legislativas

Partido pró-junta militar em Myanmar reivindica vitória nas legislativas

O principal partido pró-militar de Myanmar (antiga Birmânia) reivindicou hoje vitória, um dia após a última fase da legislativas organizadas pela junta, denunciadas como uma manobra para prolongar o domínio do exército.

Lusa /
Rungroj Yongrit - EPA

"Já obtivemos a maioria", disse à agência de notícias France-Presse um responsável do Partido da União, Solidariedade e Desenvolvimento (PUSD), que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a divulgar os resultados parciais.

"Estamos em posição de formar um novo Governo", disse. E acrescentou: "Como vencemos as eleições, vamos seguir em frente".

Os resultados oficiais devem ser anunciados ainda esta semana.

Os deputados das duas câmaras do parlamento reúnem-se em março para eleger o Presidente de Myanmar. O chefe da junta militar, Min Aung Hlaing, não excluiu a possibilidade de se demitir do cargo de comandante-chefe para assumir esta função civil.

O PUSD dominou amplamente as duas primeiras fases das eleições legislativas, a 28 de dezembro e 11 de janeiro, com mais de 85% dos assentos da câmara baixa em jogo e dois terços dos da câmara alta.

A Constituição, redigida pelo exército, reserva ainda um quarto dos assentos de cada câmara para as forças militares.

"Eles já tinham vencido antes mesmo da eleição", comentou um morador de Rangum de 28 anos, que pediu para não ser identificado por razões de segurança.

"Eles eram os únicos candidatos e também os árbitros. Quase ninguém vai confiar no Governo que vão formar", estimou.

Analistas descrevem o PUSD - com muitos dos líderes a terem ocupado no passado cargos militares - como o principal veículo político da junta.

A junta militar tomou o poder num golpe de Estado em 2021, derrubando o governo da figura democrática e vencedora do Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, e mergulhando o país numa guerra civil.

Depois de governar pela força durante cinco anos, a junta apresentou as eleições legislativas como um regresso à democracia.

A partir de uma assembleia de voto em Mandalay, a segunda maior cidade do país, Min Aung Hlaing garantiu, no domingo, que as eleições eram o "caminho escolhido pelo povo", que "pode apoiar quem quiser".

Mas a votação não pôde ser realizada em grandes áreas controladas pelos rebeldes, onde guerrilheiros pró-democracia combatem a junta ao lado de movimentos armados de minorias étnicas há muito hostis ao poder central.

Aung San Suu Kyi, de 80 anos, continua detida e o partido que fundou, a Liga Nacional para a Democracia, foi dissolvido.

Muitos países e observadores internacionais condenaram as eleições, marcadas pela repressão de vozes dissidentes e por listas compostas principalmente por partidos favoráveis ao exército.

"O resultado mais importante das eleições é a reação da comunidade internacional", disse, na semana passada, o relator especial das Nações Unidas para os direitos humanos em Myanmar, Tom Andrews.

"A aceitação internacional deste exercício fraudulento prejudicaria a verdadeira resolução desta crise", alertou.

Não existe um balanço oficial da guerra civil em Myanmar e as estimativas variam muito. De acordo com o grupo de vigilância ACLED, mais de 90 mil pessoas foram mortas.

A ONU estima que quase metade dos 50 milhões de birmaneses vivem abaixo do limiar da pobreza.

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