Passado esclavagista de Portugal. Descoberta de navio afundado na costa africana pode lançar debate sobre uma memória difícil

Em 2015, o Instituto Smithsonian fez uma descoberta que o levou a Moçambique. Ao largo da Cidade do Cabo, na África do Sul, foram encontrados os destroços de um navio português, o São José Paquete D’Africa, que afundou durante uma tempestade tirando a vida a mais 200 escravos que estavam a ser levados para o Brasil. O Instituto quer agora relembrar o passado colonialista português e que Portugal confronte o seu passado ligado à escravatura.

RTP /
Museu Iziko - Slave Wrecks Project

Os escravos pertenciam ao povo Makua, originário de Moçambique, uma antiga colónia portuguesa. O Smithsonian diz que a descoberta deste navio não pode ser desvalorizada, já que, apesar de ter sido o primeiro navio descoberto após ter afundado com duas centenas de escravos, os investigadores do Instituto dizem haver muitos mais exemplos por descobrir e que vai esclarecer as dúvidas sobre a escravatura transatlântica que escravizou mais de 12 milhões de mulheres, homens e crianças africanas.

Lonnie Bunch, do Smithsonian, lembrou que durante décadas a procura por navios que podiam conter tesouros foi muito mais apelativa do que aqueles que se traduziram em desastres humanitários.

Assim, foi criado o projeto Slave Wrecks Project em parceria com várias organizações em África e nos Estados Unidos.

“As pessoas falam sobre trocas de escravos, falam dos milhões de pessoas que foram transportadas mas é difícil imaginar toda a situação e por isso quisemos reduzir a uma escala humana a descoberta deste navio, das pessoas que estavam no navio e a história sobre o navio. Assim temos uma maneira de “humanizar” a situação”.

A ideia é mostrar às pessoas que “encontrar o vosso passado esclavagista é tão importante como encontrar tesouros como o Titanic”.

Para além de ter encontrado o São José Paquete de D´África, o projeto Slave Wrecks desenvolveu programas para treinar aprendizes noutros locais, como Moçambique, Senegal, África do Sul, tendo também programas de mergulho nas Caraíbas e projetos de conservação de bens para museus.

“Temos de começar a pensar de forma profunda nestes temas que parecem perdidos mas que estão à nossa frente para serem encontrados e para mudar a perspetiva de como percebemos o mundo”, explicou ao Guardian Paul Gardullo, curador e diretor do projeto Slave Wrecks.

“Esta procura está ligada a algo muito maior do que a descoberta de um navio. É uma procura por nós próprios e uma tentativa de entender como nos relacionamos no mundo e como o podemos fazer um lugar melhor”.

Lonnie Bunch e Paul Gardullo estiveram em Lisboa para fazer parte de um simpósio sobre escravatura, museus e racismo. A escolha da capital portuguesa, dizem, não foi coincidência. Portugal é um dos países com um envolvimento histórico muito longo com a escravatura e tal como outras nações, Portugal tem demonstrado dificuldades em confrontar-se com o seu próprio passado.

No ano passado, o Conselho Europeu de Direitos Humanos pediu de forma urgente a Lisboa que repensasse a maneira como ensina a história colonial nas escolas.

“São necessários mais esforços por parte de Portugal para aceitar o seu passado de violação de Direitos Humanos para desmistificar preconceitos racistas contra pessoas de ascendência africana, algo herdado a partir de um passado ligado ao colonialismo e a anos de escravatura”.

“Portugal mostra grande orgulho no seu passado e herança marítimas mas tenta não falar da ligação que essa herança tem à escravatura e colonialismo”, disse Paul Gardullo. Tanto o diretor do Slave Wrecks como Lonnie Bunch esperam que o simpósio leve Portugal a redobrar esforços para continuar a refletir sobre o seu passado.

“Muitas vezes somos profetas sem honra no nosso país e quando alguém de fora vem e nos fala sobre estes temas importantes, de repente isso pode estimular muitas pessoas a pensar. Não há problema em dizer que há dificuldades em lidar com o assunto – é normal, mas é crucial e importante”.

No último mês de dezembro, Mark Rutte, primeiro-ministro dos Países Baixos apresentou um pedido de desculpas formal sobre o papel que o país desempenhou na atividade esclavagista, dizendo que o país “permitiu, encorajou e teve lucro a partir da escravatura” e que fez coisas que “não pode ser apagadas, apenas confrontadas”.
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