Patagónia, Glaciares Ameaçados

por RTP

Enquanto o navio-escola Sagres deixava Buenos-Aires e rumava em direção à Cidade do Cabo, a equipa da RTP rumava em direção ao extremo sul da Argentina, à Patagónia, para descobrir um dos ex-libris turísticos argentinos e um monumento natural sem par no planeta, os glaciares do Parque Nacional Los Glaciares.

Destes, o mais conhecido e o mais bem conservado é o Perito Moreno, um gigantesco e imponente monstro branco de gelo, com cinco quilómetros de comprimento e 60 metros de altura. Estes glaciares, à semelhança do que se passa na Antártida, no Alasca ou na Gronelândia estão a sofrer danos irreversíveis devido às alterações climáticas.

Mas aqui, uma outra ameaça espreita, uma ameaça cujos contornos a equipa da RTP vai desvendar no último episódio da série Fernão de Magalhães 2020, "Patagónia, glaciares ameaçados".

Um programa de Sofia Leite, com imagem de Filipe Valente, edição vídeo de Sérgio Alexandre, sonoplastia de Rui Soares e produção de Gonçalo Silva, Olinda Lambuça e Natacha Silva Frey.
A missão do grupo Aves Argentinas, e a defesa de um pássaro endémico, o Macá TobianoRodrigo Fariña é director de conservação da organização ambientalista Aves Argentinas, uma organização com mais de 100 anos, membro da Bird Life International, a maior rede do mundo de organizações dedicadas à conservação da natureza.

A Aves Argentina tem por missão proteger as aves silvestres e a natureza da Argentina.

Mergulhão de touca | Foto: Juan María Raggio via Wikicommons

É um dos grupos que tem lutado contra a construção das barragens no rio Santa-Cruz, pois consideram que as barragens podem representar o desaparecimento irreversível do macá tobiano, o mergulhão de touca, uma espécie endémica do sul da Patagónia.

As consequências da construção das barragens para o rio Santa-Cruz

Os glaciares são os primeiros a dar um sinal do impacto das alterações climáticas Engenheiro geofísico de formação, Pedro Skvarca especializou-se em glaciologia em Cambridge, e é hoje um dos mais reputados glaciólogos a nível mundial.

Levou a cabo mais de 40 campanhas na Antártida e tem-se dedicado, desde os anos 90, à investigação dos glaciares do Campo de Gelo do Sul Patagónico, a terceira reserva mundial de água doce. Colabora com o Grupo Intergovernamental de peritos sobre as alterações climáticas, um tema que lhe é caro. 

É talvez o maior conhecedor do glaciar Perito Moreno. É ainda o director científico do Glaciarium, um museu de divulgação científica sobre os glaciares em geral, mas com destaque para os vizinhos glaciares do Campo de Gelo do Sul.


Os glaciares, um ecossistema em perigo

Relatórios dos glaciólogosRelatórios de glaciólogos reconhecidos a nível mundial alertam sobre o retrocesso que sofrerão os glaciares como consequência da construção das barragens, sobre a importância de estudar em profundidade não só os efeitos que as barragens possam ter sobre os glaciares, mas também os efeitos que os glaciares possam ter sobre as barragens, e sobre o limitado conhecimento do balanço da massa glaciar e a necessidade de obter informação sobre a espessura do gelo, entre outros temas.

Eric Rignot é professor na Universidade de Irvine, California, membro da União Americana de Geofísica, investigador científico senior do Laboratório de Propulsão a Reação da NASA, autor principal do quinto relatório de avaliação do grupo intergovernamental de peritos na mudança climática e diretor científico da Missão Icebridge da NASA, entre outros. Também dirige um grupo de investigação na UCI/JPL, de 12 investigadores/bolseiros/pós-doutorandos sobre gelo e interações climáticas na Antártida, Gronelândia e Patagónia. Trabalhou na Patagónia durante os últimos 24 anos em colaboração com cientistas argentinos e chilenos e considera esta região como uma mina de ouro para a glaciologia e a investigação.

Na carta que segue, Eric Rignot diz: “As avaliações ambientais realizadas sobre os impactos ambientais das megarepresas parecem ter esquecido os glaciares que continuamente alimentam essas represas com água do degelo. Estes glaciares incluem glaciares gigantescos e famosos a nível mundial como o glaciar Upsala e o Perito Moreno. Uma alteração no nível do lago poderia ter consequências graves e devastadoras para estes e outros glaciares. Em especial, um aumento do nível do lago iria acelerar o retrocesso dos glaciares em resposta ao aquecimento climático, já que os glaciares derreteriam mais depressa em contacto com as águas do lago e deslizariam para o lago com maior velocidade. O catastrófico retrocesso dos glaciares levaria a mais rápidos desprendimentos de glaciares, o que origina tsunamis que transportam uma tremenda energia, que se propagam ao longo da totalidade do lago e que sacodem as margens e agitam a corrente do rio. O derretimento dos glaciares nesta região gera inundações com desbordamento do lago – muito pouco estudadas - e poderia ameaçar a estabilidade das represas. Pelo contrário, a descida do nível do lago poderia ter outras consequências catastróficas, já que privaria o sistema das flutuações naturais. Por um lado, os glaciares poderiam derreter mais lentamente e estar em menor contacto com as águas do lago, mas por outro lado as margens do lago poderiam aumentar os depósitos de poeiras nos glaciares e derretê-los mais depressa. O mais provável seria que a construção destas represas acelerasse o desaparecimento destes glaciares do planeta. Esta parte da Patagónia é única no mundo, Património da Humanidade da UNESCO, e uma região de grande importância para estudos científicos, o turismo e por razões estéticas. Eu recomendaria que se levasse a cabo uma avaliação completa e detalhada do impacto destas represas nos glaciares e vice-versa. Desaconselho fortemente a construção destas represas até se ter determinado o custo total dos danos ambientais e o risco de falhas, com o tempo necessário, a participação de cientistas e peritos da região e o debate público dos resultados”.

Por seu lado, Matthias Braun, professor do Departamento de Geografia y Geociências da Universidade de Erlangen-Nuremberga, Alemanha, é um perito em investigação glaciológica, incluindo medições de campo, balanço da massa glaciar e modelos de balanço.

O Dr. Braun explica o seguinte: “Os glaciares dos Andes do Sul da Patagónia têm um impacto considerável nos recursos hídricos da região. A sua descarga da superfície derrete-se, mas, além disso, o derretimento basal e o desprendimento proporcionam uma contribuição substancial para a descarga do rio. Isto adquire particular relevância no lado oriental da Patagónia, visto que esta região apresenta um forte gradiente de precipitação oeste-este como resultado das ondas de gravidade que se formam sobre os Andes do Sul. Deve ter-se em conta que, nesta data, só existe um conhecimento muito limitado sobre o balanço da massa glaciar em Fuego, Patagónia. Isto relaciona-se especialmente com avaliações quantitativas das condições hidroclimatológicas nos Andes do Sul. Inclui também a precipitação, que é crucial para uma melhor compreensão dos glaciares em condições de mudança climática, mas também para um planeamento hidrológico sustentável. Além disso, o derretimento e desprendimento dos glaciares não foi até agora avaliado em detalhe. O que mais chama a atenção no Campo de Gelo Sul da Patagónia é o comportamento de vários glaciares de maré e glaciares de desprendimento no lago. Os glaciares Jorge Montt e HPS12 mostram ambos taxas de mudança de elevação na língua de até 50 m por ano. Estas taxas são excecionais, porque demonstram a adaptação dinâmica, rápida e dramática desses glaciares de desprendimento para com as condições em mudança do meio ambiente. No caso dos glaciares da bacia de Santa Cruz, e especialmente aqueles que drenam para o Lago Argentino, vemos uma perda de volume drástica dos glaciares Upsala e Viedma. O glaciar Ameghino também mostra uma perda de massa considerável como glaciar terminado em terra, ao passo que o glaciar Perito Moreno ainda permanece estável como um dos poucos glaciares de desprendimento em lago. Interpretamos estas alterações heterogéneas de volume como consequência de diversos factores que incluem a hipsometria do glaciar, o seu tipo de frente, a sua geografia frontal e as diferenças no forçamento radiativo. De modo a prever as consequências de um nível do lago mais alto nos glaciares da bacia de drenagem de Santa Cruz, é necessária uma análise mais profunda e a obtenção de informação básica relevante. Sobre esta última, os conjuntos de dados incluem, por exemplo, levantamentos especialmente detalhados sobre a espessura do gelo, visto que este parâmetro não se conhece actualmente, determina a estabilidade da frente e é crucial para uma potencial flutuação da língua do glaciar. Mesmo assim, o processo de desprendimento e a sua respectiva implementação em modelos ainda estão no princípio e devem ser respaldados por observações. Considerando que se desconhece essa informação fundamental, torna-se muito difícil prever o comportamento dos glaciares da Patagónia e isso só pode fazer-se com uma grande margem de erro e com um conjunto de dados que de momento não existem. Por outro lado, a crescente e florescente indústria do turismo da região depende amplamente do atractivo e do acesso fácil e rápido aos grandes glaciares. Noutros sítios como nos Alpes, onde observamos retrocesso e desaparecimento de glaciares, o turismo também é afectado. Um recuo provocado pelo homem, por exemplo do glaciar Perito Moreno devido a níveis altos do lago, seria, na minha opinião, um desastre para esta área económica do sul da Argentina, além dos seus impactos ambientais”.
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