Patrice Trovoada apela militantes da ADI a absterem-se nas eleições de setembro

Patrice Trovoada apela militantes da ADI a absterem-se nas eleições de setembro

O ex-primeiro-ministro são-tomense Patrice Trovoada apelou hoje à militância da Ação Democrática Independente (ADI) para não votar nas eleições legislativas e autárquicas de setembro, como protesto por ter sido afastado por "manobras políticas mafiosas, encobertas por decisões judiciais".

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"A posição do ADI que aqui eu quero deixar bem claro, será de protestar contra esse atentado aos nossos direitos, a esta proibição efetiva de escolher quem nós queremos para nos representar, não indo votar, não saindo de casa para votar nas eleições legislativas e autárquicas do dia 27 de setembro", disse Patrice Trovoada, num vídeo publicado no Facebook.

Quanto à eleição para a escolha do Governo da Região Autónoma do Príncipe, que decorrerá no mesmo dia, Patrice Trovoada disse que a sua liderança decidiu "conceder a liberdade de voto a todos os militantes".

"Essa posição foi profundamente refletida e debatida entre nós, e é a posição que melhor poderá defender a identidade, a integridade e a família da ADI [...] essas eleições deverão servir de lição para que alguns possam aprender definitivamente que o ADI pertence a todos nós", declarou.

Durante a comunicação, o político são-tomense que foi quatro vezes primeiro-ministro do arquipélago e o único a vencer duas eleições com maioria absoluta, justificou o apelo à abstenção por considerar que o poder instalado não tem permitido, "sobretudo a uma expressiva franja da população, de escolher livremente os seus legítimos representantes na Assembleia Nacional e nas câmaras, vetando assim a participação da ADI, a verdadeira e legítima ADI nas próximas eleições legislativas".

Segundo Trovoada antes de decidir pela abstenção, após a ADI ter sido "assaltada de forma ilegal e descarada", a sua equipa procurou formas próprias de concorrer às eleições ou uma "coligação de vontades" com outras forças políticas, mas "essas duas tentativas conheceram diversas e inúmeras dificuldades e bloqueios, por isso não resultaram".

Patrice Trovoada disse ainda que a sua equipa equacionou integrar a lista de outro partido amigo, renunciando a militância na ADI, mas considerou que esta opção representaria um "risco de enfraquecimento" da ADI, causando confusão no eleitorado e promovendo "muito mais instabilidade política".

No mês passado, dois dias após o anúncio da derrota do candidato apoiado por Patrice Trovoada nas eleições presidenciais de 19 de julho, o Tribunal Constitucional (TC) divulgou um acórdão, no qual reconheceu o atual primeiro-ministro, Américo Ramos, como presidente da ADI, na sequência do congresso realizado em 27 de junho, impugnado pela ala do partido fiel a Patrice Trovoada.

Após a decisão do TC, Patrice Trovoada, que foi demitido da chefia do Governo em janeiro de 2025, pelo atual Presidente da República reeleito, Carlos Vila Nova, abriu a porta a uma das promessas que fez em várias ocasiões anteriores, admitindo retirar-se da política.

"Talvez também termina uma etapa da minha própria caminhada política e, se assim for, aceito isso com perfeita calma, serenidade, porque nenhum homem é eterno, nenhum líder é insubstituível. E eu, Patrice Trovoada, sempre defendi, sempre apoiei, sempre promovi a renovação e a transição geracional", afirmou.

Líder da ADI há mais de duas décadas, Patrice Trovoada foi primeiro-ministro e chefe de vários governos de São Tomé e Príncipe, nomeadamente em 2008, 2010-2012, 2014-2018 e 2022-2025, além de ter exercido o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.

Apoiou diretamente a eleição dos dois últimos Presidentes da República de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Evaristo de Carvalho em 2016, e Carlos Vila Nova em 2021, com quem a relação se degradou, culminando com a demissão de Trovoada em 2025, com o Presidente a alegar deslealdade institucional e ausências prolongadas do país.

A crise interna da ADI agudizou-se após Carlos Vila Nova ter rejeitado vários nomes propostos pelo partido para chefiar o Governo. Acabou por escolher para primeiro-ministro o ex-secretário-geral do partido Américo Ramos, contra a indicação da então direção da ADI.

Desde então, o partido demarcou-se do Governo, rompeu com os militantes que integraram o executivo e perdeu quase uma dezena de deputados do grupo parlamentar, que passaram a independentes.

São Tomé e Príncipe realizou eleições presidenciais em 19 de julho e tem agendadas legislativas, autárquicas e regional para 27 de setembro.

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